Momentos de irritação na hora do almoço #25 e #26

2010 fevereiro 8

#25: Você está tendo um dia atipicamente complicado. Seu trabalho real, que costuma corresponder a 13% do tempo que você gasta no ambiente do escritório, subitamente atingiu uma proporção próxima dos 167% e subindo. Reuniões, demandas e deadlines que se parecem muito mais com aquela linha desenhada em torno dos cadáveres do que com prazos de verdade. São 12:45 e você ainda não conseguiu sair pra almoçar, preso na sala do seu gerente, que parece ter se tornado uma forma de vida baseada em luz, já que não faz menção de querer terminar a reunião. Finalmente, em algum momento ele se distrai gritando com algum outro funcionário e você consegue sair, acinzentado de fome, buscando a parte externa do prédio. Evita os restaurantes a la carte por causa do tempo (precisa estar em uma reunião as 13:15) e também evita as lanchonetes de fast-food (por causa da sua recém-adquirida úlcera, que se chama Ernest, em homenagem ao personagem dos filmes) e vai para o restaurante self-service mais próximo. Afinal, comida pronta e é só botar no prato, pesar e comer.

Leia mais…

Porque fiquei animadão com essa megafusão

2010 fevereiro 6

Supermercado Pão de Açúcar, bairro do Flamengo, Rio.

“Só isso, senhor?”

“Aham, só isso”

“O senhor é solteiro, certo?”

“Yep, solteiro, sim. Por que?”

“Ah, é por causa das dez pizzas prontas e das quatro lasanhas congeladas”

“Ah…bem…promoção, sabe como é…”

“O senhor não deveria…sei lá…comer outra coisa?”

“Huh…mas tipo, por que?”

“Bem, o senhor sempre compra aqui e tal…e o senhor engordou um bocado desde que começou a comprar aqui com a gente…”

“Eu? Bem…é, acho que sim…mas é que…noite, dá preguiça de cozinhar…”

“Poderia comer fora então, não?”

“Humm…err…sim, eu faço isso as vezes…”

“E outra coisa…o senhor é novo, não devia arrumar uma namorada, algo assim?”

“Bem…humm… não enquanto vocês venderem pizza por menos de dez reais. E essa lasanha realmente é boa, sério”

Pão de Açúcar: porque nós nos importamos com sua saúde e sua vida pessoal. E fazemos você ficar sem graça e dando satisfações na fila do caixa rápido.


Ao telefone com o serviço de atendimento da loja virtual das Casas Bahia

“Oi, eu estou telefonando por causa do pedido 9978674”

“Certo, senhor, preciso que o senhor confirme alguns dados, por favor”

[confirmação vagamente inútil de dados em que me perguntam meu estado civil, idade e signo]

“Então, o pedido está atrasado em vinte dias e no site consta que houve um erro na expedição. O que isso quer dizer?

“Quer dizer que houve um erro na expedição, senhor.”

“Ah…bem, quem poderia imaginar, né? Mas que tipo de erro seria esse?”

“Não sei informar, senhor. Mas pode ter sido um problema de acesso, problemas no transporte físico, falta do produto, várias coisas”

“Outra coisa que eu jamais imaginaria sozinho…E você tem uma nova data de entrega?”

“Bem, senhor, eu não tenho. Mas posso pedir urgência para o seu caso, e será feito um contato num prazo de três a cinco dias úteis”

“Parece legal. Só uma dúvida, essa urgência é a mesma que a outra atendente pediu cinco dias úteis atrás?”

“Errrrr…não sei dizer, senhor.”

“Resumindo: você não sabe o que aconteceu, não sabe porque aconteceu e não sabe me dizer quando vai ser resolvido, é isso?”

“Bem, senhor, eu vou fazer o pedido de urgência e te passar o protocolo, certo, senhor?”

“Tudo bem, ok”

“O protocolo é 83439434”

“Última dúvida. Esse é meu décimo protocolo, juntando todos eles eu ganho algum prêmio, desconto, posso pelo menos dedicar meu protocolo número 1000 para todas as crianças pobres e tal?”

“Hummm…acho que não, senhor…”

“Tudo bem, eu já imaginava…”

Casas Bahia virtual: porque nós não sabemos o que aconteceu com o seu ar-condicionado. E simplesmente ignoramos o seu sarcasmo. Quer um protocolo?

Projeto Manhattan – Uma breve atualização

2010 fevereiro 4
por João Baldi Jr.

#1: Como eu acho já havia comentado no twitter (mas eu sou meio estranho em termos de microblogging, então não tenho certeza) a confirmação do registro do meu livro foi concluída na Biblioteca Nacional. Isso quer basicamente dizer que o livro já está registrado, é meu mesmo, não é um plágio e eu não sou apenas um nome que o Christopher Marlowe ou o Francis Bacon usam pra escrever as obras deles.

Leia mais…

Mais algumas metáforas de amor

2010 fevereiro 2
por João Baldi Jr.

O amor é como um jogo de pôquer. Porque provavelmente o Mel Gibson em Maverick se sairia bem melhor nele do que qualquer um de nós. O amor é como um Opala antigo que seu avô te deu de presente, porque vai te dar problemas, algumas vezes vai te fazer passar vergonha na rua, mas não é socialmente aceitável que você venda ele pro ferro velho. O amor é como o Acre, ele fica longe, algumas pessoas dizem que não existe e na maior parte das vezes vai te dar uma baita preguiça de ir até lá, porque você leu sobre ele nos livros mas conhece no máximo duas ou três pessoas que já viram o lugar de perto.

Leia mais…

J.D. Salinger

2010 janeiro 30


(Este texto foi publicado na edição #10 do Farrazine, em março de 2009, e está sendo republicado por conta do falecimento de J.D. Salinger, um dos grandes autores americanos do último século)

É sempre difícil saber como alguém vai ser lembrado. Pense em Einstein por exemplo. Gênio da física, criador da teoria da relatividade, um dos cientistas mais revolucionários da história, acabou entrando para a cultura popular como “o cara descabelado com a língua pra fora”. Afinal, bem mais gente consegue entender um velhinho que parece meio maluco do que algo como E=MC² .O mesmo podemos dizer de J.D. Salinger, um dos maiores novelistas norte-americanos, e que esse ano, no mês de janeiro, completou 90 anos.

Leia mais…

Band of brothers

2010 janeiro 28

Como qualquer um que tenha assistido um mísero episódio de Friends e contemplado a dinâmica Chandler/Joey é capaz de reparar, quando você divide um apartamento com alguém essa pessoa se torna praticamente parte da sua família.  A convivência, as conversas, os problemas e situações compartilhados, as discussões nas reuniões de condomínio, as vezes em que um deixa o outro preso fora da casa de madrugada e ele precisa dormir na calçada de uma farmácia abraçado a um cão com claros sinais de Mal de Hansen canino, essas coisas acabam criando entre você e essa pessoa um vínculo e uma amizade muito difíceis de serem destruídos. E vendo a repercussão (preocupação?) de muitos de vocês diante do último post achei que nada seria mais justo do que homenagear aqui todos os meus ex-colegas de república e meu atual colaborador, tão injustiçado no mais recente texto aqui do blog. Por isso aqui vai o meu sincero agradecimento a todos esses caras que são praticamente meus irmãos mas que eu não gostaria de ver entrando do quarto da minha mãe.

Leia mais…

Defendendo causas #78 e #79

2010 janeiro 26

#78 - Eu andei assistindo Big Brother (isso é uma figura de linguagem, eu não tenho realmente uma TV portátil e tal) e mais uma vez fiquei impressionado com a representatividade que certos grupos têm na casa. Por exemplo, num grupo de 16 pessoas nós temos 2 gays assumidos, 1 lésbica assumida e pelo menos outras 2 pessoas cuja sexualidade eu já vi sendo questionada no twitter (ainda que isso não queira dizer muita coisa). Levando isso como proporção para a população brasileira quer dizer que quase 19% da população brasileira é homossexual e mais cerca de 12,5% estão ali pensando profundamente na questão. Outra coisa legal é que a “heavy user de internet da casa” é uma garota jovem e bonita e não um cara gordo barbudo com uma camisa com o pingüim do Linux (afinal, todo mundo sabe que a internet sempre foi muito mais o lar das garotas bonitinhas do dos homens sem aptidões sociais). E como não podia deixar de ser, a casa tem apenas um negro (afinal, temos apenas 6,5% de negros aqui na Suécia, digo, Brasil) e ele tem um cabelo meio rasta com tranças. Afinal, todo negro tem cabelo assim. Nada contra os gays, mas iniciarei um profundo boicote ao programa se na próxima edição não estiverem presentes ao menos um gago, um anão e um cara corcunda com La Tourette que é fã hardcore de Kraftwerk.

#79 - Outra coisa: sei que já toquei nesse assunto mais de uma vez, mas precisa existir da parte do poder público algum tipo de assistência especial destinada aos homens feios e solteiros que não moram mais com suas mães. Porque se, como aconteceu comigo, você vai jogar bola e torce/quebra/estilhaça/tritura/doa pra ciência/perde seu pé e fica fora de condição pra resolver suas coisas sozinho, você simplesmente não tem a quem recorrer. Afinal, se o nível de boa-vontade das pessoas com um cara mal-barbeado e mancando é relativamente bem menor do que com uma adolescente bonitinha vestida de colegial, nem mesmo aquele apelo com o público feminino a gente consegue ter e com isso ficamos totalmente indefesos e perdidos na cidade grande, sem ter nenhum tipo de respaldo. No meu caso eu estou sentindo dores, possivelmente serei engessado e a única pessoa a quem eu posso recorrer é o cara que divide apartamento comigo, que diz que quer viajar pra Áustria pra conhecer a casa onde Hitler nasceu, costuma ser procurado por crianças no apartamento e já foi três vezes criticado pelo síndico por se exibir nu na janela do próprio quarto. Ou seja, não é bem aquela pessoa pra quem você quer parecer indefeso. E cadê a autoridade? Cadê o poder público? Sério, pessoal, é foda.

Top 5 – Traços femininos um tanto quanto aterrorizantes

2010 janeiro 24
por João Baldi Jr.

Efusividade excessiva: Ela é efusiva, alegre, animada, pra cima, felizona. E isso é bom, claro. Isso é sensacional, isso é fantástico. Mas ela é assim quando vocês saem, quando vocês chegam em casa, quando vocês dormem, quando vocês brigam, quando vocês transam, quando vocês visitam seus pais, quando vocês acordam, quando vocês bebem, quando vocês passam mal, quando vocês batem de carro, etc. Ela simplesmente não consegue parar de ser animada e efusiva, seja qual for o momento. Sabe quando você acorda as seis gripado e está ranzinza, chato, irritado? Ela está efusiva. Sabe quando seu chefe usou seu relatório de metas pra assoar o nariz e atirou na sua mesa? Ela está efusiva. Sabe quando você foi preso porque deixou seu amigo guardar uma bolsa na sua casa e aquilo tudo não era orégano? Ela está na delegacia, efusiva. E finalmente você entende porque não existiam casais normais naquele maldito desenho dos ursos Gummy.

Leia mais…

Mixtape

2010 janeiro 22

Ela tinha pedido que ele fizesse uma mixtape. Pra ela. E claro, tudo nessa idéia soava pra ele, de alguma forma, muito errado. Primeiro porque ele considerava que uma mixtape não é algo que se peça. Ok, você até pode pedir um cd emprestado, um dvd emprestado, talvez até dinheiro emprestado, um pedaço de fígado pra transplante, quem sabe, mas não pede uma mixtape. Essa é uma dessas poucas coisas na vida que precisam ser eminentemente espontâneas, gratuitas, voluntárias, como uma declaração de amor, dançar na chuva ou correr pelado. O outro erro é que ela não tinha usado o termo mixtape, isso era coisa da cabeça dele, robgordonzice, ela tinha pedido que ele copiasse tudo em um pen-drive mesmo. Um pen-drive, sabe?

Leia mais…

Grandes clichês da vida noturna de solteiro – I

2010 janeiro 20
por João Baldi Jr.

A ficada de banheiro: Uma das mentiras mais clássicas da noitada é a de que você ficou com uma garota lá perto do banheiro. “Ficar com uma garota perto do banheiro” é, em termos de mentira clichê, algo naquela linha tênue entre “não é nada disso que você está pensando” e “o Polystation é a mesma coisa que o Playstation, pode levar!”, já que é o tipo da coisa que já se convencionou considerar mentira antes mesmo que haja qualquer argumentação. Afinal você está dizendo que, ainda que no ambiente teoricamente propício e aberto da pista você não tenha tido sucesso nenhum e tenha sido rechaçado por todas as garotas tal qual um projeto de continuação para Acquária, você conseguiu na saída (ou dentro, como ainda tentam afirmar alguns) do banheiro puxar conversa e ainda ficar com aquela garota linda que ninguém tinha visto antes e que logo depois foi embora, sem deixar telefone e com quem você nunca mais vai sair. É a versão masculina não-amazônica da frase “fiquei grávida do Boto Rosa”.

Leia mais…