O post sobre futebol que eu nunca fiz
Dezembro 7, 2009

Eu poderia começar este post dizendo que eu, assim como o Sr. Spock e o Keanu Reeves, tenho problemas para demonstrar grandes emoções ou expressar sentimentos. E depois eu poderia compartilhar com vocês o fato de que eu não grito, eu raramente xingo, eu não digo “eu te amo”, eu não aviso pras pessoas que elas podem ir dormir lá em casa, eu não falo que “considero você quase como um irmão” (exceto pro meu irmão. as vezes) e que eu não sou de me expressar com muita veemência. Então eu poderia fazer um longo discurso sobre a importância do futebol como fonte de relaxamento e via de catarse na minha vida. Mas eu, é claro, não vou fazer isso.
Porque se eu fizesse isso eu teria que depois explicar que eu torço para o Flamengo e tenho com esse time uma relação de paixão e emotividade que foge totalmente do meu padrão de relacionamentos sadios. Que quando eu vejo os jogos na TV ou no estádio eu abandono toda a minha ponderação e grito e praguejo como um estivador que martelou o próprio dedo infeccionado. Que quando eu estou torcendo eu me transformo em outra pessoa e tomo atitudes que vão totalmente contra tudo que eu conheço da minha personalidade e do meu bom-senso. Mas eu não vou fazer isso. Quer dizer, talvez até fosse bom fazer porque seria legal que as pessoas que estavam lá em casa ontem soubessem que não é sempre que eu desejo que uma pessoa desconhecida seja empalada por uma manilha de obra. E eu sinceramente peço desculpas a você, Zé Roberto. Quer dizer, peço nada, você mereceu, seu fominha do inferno. Mas como eu disse, eu não vou fazer isso.
Eu poderia, se eu tivesse feito as coisas descritas nos dois parágrafos acima, o que não fiz, logo depois mencionar a emoção do título de domingo, a felicidade total e completamente injustificada do ponto de vista racional (“o que eu realmente ganho com isso?”) que as conquistas esportivas trazem, a rouquidão absoluta no dia de hoje e, num requinte de crueldade, citar o lamentável momento em que o cara que divide apartamento comigo estava dançando funk na frente de um ônibus durante as comemorações, travando o trânsito no meu bairro. Mas eu jamais faria algo assim. Fora que eu sinceramente quero esquecer que já vi essa cena alguma vez. Lamentável, cara.
Não, esse post não é para nada disso. Não é pra comentar as camisas dizendo que o Ronaldo Angelim é único Ronaldo que importa, não é pra dizer que espero ansioso o processo que o Sport deve abrir contra mim por ter gritado na janela que meu time é hexacampeão, não é pra fazer mais algum comentário sobre o Petkovic ter sido o primeiro atleta campeão brasileiro cuja idade teve que ser definida usando datação por carbono, não, nada disso. Porque eu, na boa, jamais iria colocar no blog um texto falando sobre esse tipo de coisa. Não, nunca, jamais.
Também não vou dizer que fiquei feliz pelo Cuca, não vou dizer que fiquei feliz pelo Botafogo ou que fiquei feliz que aquele policial em Curitiba que apanhou com um banco no meio da intermediária (sério, tá aí uma frase que não se escreve todos os dias) não tenha morrido ou coisa do tipo. E se você pensar bem, essa frase é meio estranha, porque o que seria “coisa do tipo” no caso de morrer? Mas como eu disse, eu não faria nada disso, não é pra isso que esse post é.
O texto é apenas pra agradecer ao Flamengo pelas quatro horas semanais de catarse, irracionalidade, palavrões e ameaças que ele tem me garantido desde pequeno. Pelo fato dele me permitir jamais xingar alguém no trabalho porque eu já descontei tudo no Toró, pelo fato dele me permitir nunca ser grosso com uma garota, porque eu já chamei a mãe do Juan de todos os nomes possíveis e pelo fato dele me permitir ter alguma coisa pra conversar com meu pai (assim como o Ted em HIMYM eu só consigo falar com meu pai sobre o nosso time). Obrigado pela terapia e pelo hexacampeonato, pessoal. Tem sido muito divertido.
A matemática do interesse
Dezembro 5, 2009

Uma coisa que eu sempre considerei um bocado complicado é demonstrar interesse nas pessoas da forma certa. Não, não que eu não saiba demonstrar interesse, eu acho que eu sei (não posso garantir, só acho) mas as graduações e as formas sempre foram um pouco confusas pra mim, as sutilezas sempre me passaram um pouco desapercebidas e certas nuances acabam me escapando totalmente.
Vamos por partes: ok, eu estou interessado numa garota. Não, não sei precisar ao certo quais são as minhas intenções (Casamento? Namoro? Sexo? Duas horas de Marvel Ultimate Aliance para Play2 e um aperto de mão? Dividir um pacote de Ana Maria?), mas sei que estou interessado nela devido ao meu óbvio interesse e ao fato de que…bem…estou achando ela cada vez mais interessante. E quando você está interessado e acha a pessoa interessante o normal é que você demonstre interesse. Mas quanto interesse?
Por exemplo, suponha que você demonstre interesse demais. Interesse demais é a sua forma de deixar obviamente claro que você está interessado, sem dar margem pra que a outra pessoa não entenda exatamente aonde você quer chegar. Mas aí o que acontece? Bem, em primeiro lugar você fica vulnerável, fácil. Afinal, se você está mais interessado do que a outra pessoa ela evidentemente passa a ter um certo controle sobre a situação, já que ela está menos empolgada ali do que você. Outro risco é assustar a outra pessoa, afinal, você pode estar mostrando um nível de empolgação acima do que ela considera natural ou normal e isso gerar não só o fim do interesse dela (se ela estiver interessada, o que você não tem como garantir) como também uma preocupação com a sua sanidade mental e uma ordem de restrição judicial (mas acho que isso acontece só em casos extremos e onde existe uma forte tensão “Glenn Close style”, o que realmente não tá rolando comigo, visto que eu não curto picadores de gelo). Fora que gente super-interessada é chata pra caramba e eu já consigo ser relativamente chato naturalmente. Ou seja, interesse demais realmente atrapalha.
Mas por outro lado existe o interesse de menos. Você está interessado, mas resolve pegar leve pra não parecer desesperado, não assustar a pessoa e nem precisar que seus pais levem cigarros pra você na cadeia. Uma coisa mais cool, blasé, uma abordagem mais Humprey Bogart em Casablanca. Mas se você não demonstrar uma quantidade mínima de interesse como a pessoa vai saber que o interesse existe? Afinal, você tá ali, paradão, chapéu de feltro, batendo um papo com o Sam sem nem olhar pra ela, como ela poderia adivinhar? E pronto, você perdeu por interesse de menos. Agora jogue volte duas casas e jogue o dado de novo.
E claro, vocês podem, me dizer algo como “ah, relaxe, e aja naturalmente” ou “seja você mesmo”, mas pra mim esse tipo de frase é basicamente como “ontem demorei pra dormir, tava assim, sei lá, meio passional por dentro” ou “and i know i was wrong when i said it was true, that it couldn’t be me and be her inbetween without you”, frases que eu acho legais mas cujo sentido eu admito abertamente que eu não consigo muito bem alcançar. Como assim natural? Porque pra mim é total e completamente natural achar esse tipo de questão confusa. Vamos admitir, não existe um padrão, a lógica da questão é total e puramente variável, minhas experiências prévias não me garantem nenhum tipo de amostragem razoável, eu não tenho nenhum tipo de dado realmente válido sobre a posição da outra parte e tudo que eu posso fazer é seguir meus instintos que, como bem disse o Rob Gordon, eu venho seguindo desde os 14 anos e sei que realmente não tem cérebro.
Não poderia existir, não sei, uma sistematização? Um método amplamente certificado e generalizadamente aceito de demonstração de interesse que não levasse a mal-entendidos, confusões, pessoas ficando assustadas e picadores de gelo? Real e definitivamente eu não sei. Mas enquanto eu não descubro exatamente de que forma lidar com esse meu interesse e não baixo uma versão interessante do FM para parar de pensar nisso, sinto que vou ter que lidar com isso da forma mais natural e mais “eu mesmo” que eu consigo. Ou seja, vou escrever sobre esse tipo de coisa num blog.
Problemas práticos do romantismo teórico – IV
Novembro 23, 2009

Em inglês se apaixonar é “fall in love”. E em francês, se eu me lembro bem das aulas, é “tombe amoureux”. As duas expressões, se traduzidas literalmente, iriam dizem quase a mesma coisa, “cair em amor” ou “cair de amor”. O que, se você pensar bem, tem uma diferença clara em relação ao nosso “se apaixonar”: em português parece que o ato é voluntário e isso me faz por alguns segundos achar que os franceses e os americanos entendem melhor o que está acontecendo nesse tipo de situação.
Estar apaixonado nunca me pareceu uma coisa muito voluntária. Não que todos nós não façamos coisas de propósito pra ficarmos meio bobos, entendendo tudo errado, nos preocupando com bobagens, rindo sem razão ou chateados sem um bom motivo, claro que fazemos isso. Mas quase sempre a razão vem em garrafas e já no rótulo sabemos a graduação alcoólica, além dos efeitos passarem na manhã seguinte deixando apenas a dor de cabeça residual, as roupas amassadas e as dúvidas sobre como chegamos em casa, porque tem batom no meu joelho e o que aquele animal empalhado está fazendo na beliche de cima. Mas estar apaixonado? Estar apaixonado é muito mais complicado e muito menos voluntário.
Primeiro porque estar apaixonado, assim como usar LSD, ou torcer pra algum time de futebol é algo que causa uma alteração grave na sua percepção da realidade, como eu já disse. Você perde noção das prioridades, começa a se preocupar com coisas meio sem sentido, acha graça em coisas que antes mereceriam de sua parte apenas um “ah, não fode” e começa a tomar diversas atitudes totalmente atípicas e bizarras sem nem ao mesmo notar. Mulheres decididas e independentes se tornam garotas que fazem beicinho, caras grossos e insensíveis se tornam moleques que brincam de “ah, desliga você, vai…”,homens sovinas acham normal pagar 150 reais por uma noite de cinema a dois e sua tia que odiava os homens solta frases como “não consigo parar de pensar naquele bigode”.
Segundo porque você não escolhe. Ok, você pode reduzir a margem, minimizar o grupo de trabalho, se focar nas opções viáveis e racionais, isso ajuda. Mas nada garante que vai funcionar. Você tenta se manter neutro, tenta ficar na sua, tenta não se comprometer, ficar solteiro e em duas semanas está namorando, em dois meses noivo, e antes que se possa dizer “vamosmarcarsuadespedidadesolteiroeroubarotigredomiketyson” você já se casou e tem um amigo cantando “You are so beautiful” durante a festa. Você se compromete com relacionamentos fáceis, lógicos, simples e sem conflitos e em breve se apaixona por uma panamenha que conheceu no “pen pal club”, cuja mão já está prometida para um chefão do narcotráfico curdo conhecido como “Harum Corta-Bagos”. Não que quando você for se apaixonar por alguém vá sempre “escolher” a pessoa mais complicada, claro que não, mas são quase nulas as chances de “escolher” a pessoa mais fácil.
E claro, existem os outros detalhes bobos como a impossibilidade matemática de ser correspondido (eu sou o único que sempre que fica interessado numa garota começa a pensar que estatisticamente existem grandes chances de que ela prefira um chinês?), a mudança na forma de aproveitar o tempo (“uau, ela me chamou pra escolher batatas com ela! ueba!”) e os efeitos devastadores que uma paixão pode ter no seu gosto musical (“cara, Bon Jovi nunca fez tanto sentido pra mim! coloca “Always” no modo repeat, faz favor?”). Em suma, vários destes pequenos fatos que realmente te fazem duvidar que alguém vá entrar numa onda dessas de propósito e ainda por cima de graça.
E eu poderia continuar este texto durante parágrafos e mais parágrafos (calma, é só uma ameaça, eu não vou realmente fazer isso) apenas citando várias razões pelas quais é totalmente irracional e logicamente absurdo que alguém se envolva, de propósito, em qualquer tipo de relacionamento amoroso e em como eu estou escrevendo esse post em homenagem a um amigo que está total e irracionalmente apaixonado e passando por um momento de total falta de lógica na vida. Mas aí eu lembro do meu histórico pessoal, da atual situação em que me encontro e do fato de que estou realmente torcendo pelo MC Leozinho na “Fazenda 2” e tudo que eu posso dizer pra um amigo que está total e irracionalmente apaixonado é…go get her, tiger. Casais são legais, eu torço por você e tomara que tudo dê certo. (E se não der certo…bem, eu vou comprar um X-Box no final desse ano, eu acho, então todo mundo estar solteiro nem é tão ruim assim.)

Eu não me dou bem com festas surpresa. Eu sei que é chato falar uma coisa dessas porque muita gente costuma acreditar que a festa surpresa é o supra-sumo da demonstração de afeto humano no universo conhecido(“passamos o dia todo te ignorando e minando sua já fraquejante auto-estima fingindo que não nos lembramos do único dia no ano em que você é relativamente especial, mas em compensação nos organizamos pra te dar um puta susto e fazer seu músculo cardíaco perder seis anos de vida útil. Cool, huh?”) mas eu realmente não me dou bem com o conceito da coisa. E isso acontece por várias razões.
Primeiro porque a minha personalidade e o meu temperamento não combinam com festas surpresa. Sério, eu sou um cara pessimista e para alguém pessimista poucas coisas são mais aterrorizantes do que uma surpresa. Chernobyl? Foi uma surpresa. Ascensão de Hitler ao poder? Surpresa! Desastre do Titanic? Surpresa! Eu ter sido obrigado a ver o filme Titanic? Meu Deus, quem poderia imaginar?! Ou seja, pra mim o conceito de “surpresa agradável” funciona basicamente como o conceito de “música militar”, “bom filme da Xuxa” ou “uma grande partida do Dênis Marques”: uma contradição em termos. Eu vejo pessoas saindo do escuro no meio da minha sala ou gritando comigo pelas minhas costas e vou provavelmente pensar que é uma invasão alienígena comandada por Inri Cristo visando obrigar todos a ouvir sua versão de “Just Dance” da Lady Gaga antes de achar que é uma comemoração de aniversário.
E claro,ainda tem uma coisa da qual pouca gente se toca mas que sempre passa pela minha cabeça quando me fazem uma festa assim: meus amigos e meus familiares se reuniram, pelas minhas costas, para tramar alguma coisa. Não sei vocês, mas eu acho isso perturbador! Minha mãe dando telefonemas escondida, meu irmão sumindo de casa sem explicação, meu melhor amigo fugindo de assuntos para não me dar pistas, tudo isso é meio aterrorizante, não? Fora que, ok, hoje foi uma festa, mas quem garante que amanhã não vai ser um assassinato, uma trama de extorsão, um golpe coletivo pra que eu pense que estou maluco e perca todos os meus bens?! Ok, eu exagerei, vou parar. Mas vocês entenderam como a espiral de paranóia funciona comigo.
E como se não bastasse isso ainda tem o meu histórico com esse tipo de festa. Ok, a desse ano foi legal (ainda mais porque a minha mãe me contou sobre a surpresa e eu mesmo telefonei para os meus amigos perguntando se eles não poderiam me surpreender uma hora mais tarde porque eu tinha que dar uma saída), mas as duas tentativas anteriores foram, não sei, confusas. Não que a festa que meus amigos organizaram na faculdade não tenha sido muito boa (na verdade a surpresa foi tão boa que eu achei que a festa era pra uma outra amiga minha e só fui notar que eu estava envolvido lá pelas últimas horas do evento) ou mesmo que aquela planejada pela minha ex-namorada nos tempos do colégio não tenha sido espetacular (afinal, o que pode surpreender mais um cara do que, assim que entra no próprio quarto e tira as calças, notar que as luzes se acendem e vários amigos da namorada, alguns que ele mal conhece, surgem de debaixo da cama e começam a gritar?), mas não sei, não acho que eu tenha sido capaz de pegar a graça do conceito como deveria.
Possivelmente eu sou apenas um cara resmungão e que não consegue processar bem certas manifestações de afeto um pouco mais engenhosas dos amigos (eu ainda fico perturbado quando a pessoa gasta semanas planejando uma festa pra você e te dá um par de meias, por exemplo) ou apenas uma cara resmungão e ponto, e tenho que admitir que o meu aniversário desse ano foi realmente muito bom (mas vou falar mais disso depois), mas como eu disse, não me dou bem com festas surpresas e espero que os meus aniversários continuem sendo divertidos e as pessoas continuem me avisando sobre o que querem fazer com ele. E claro, que não me surpreendam, por favor.
Top 5 – Coisas que eu não vou fazer no meu aniversário
Novembro 4, 2009

Uma tatuagem: Tatuagens são costumeiramente um sinal de rebeldia, autenticidade, capacidade de decisão, culto ao corpo ou de que você apenas bebeu demais e tem amigos sacanas. Ou seja, exceto o lance da bebida e dos amigos sacanas é algo que não tem nada, mas nada a ver comigo. Some a isso o terror patológico de agulhas (“peraí, não dá pra fazer isso com giz de cera? Hidrocor? Guache? Hein?”) e a absoluta incapacidade para tomar decisões de longo prazo (eu tenho problemas para escolher acompanhamentos no Spoletto, como posso tomar uma decisão sobre o que vai estar desenhado em mim pra vida toda?) e você vai ter uma pessoa que nunca, mas nunca vai ter uma tatuagem. E claro, ainda existem as questões de pura paranóia como “como eu vou saber se esse ideograma quer mesmo dizer felicidade e não ‘sou um podólatra comedor de polenta’?”, mas não vamos entrar nesse tipo de detalhe.
Ir numa boate de strip-tease: Não vou dizer que eu nunca tenha achado o conceito interessante, mas conforme eu fui crescendo eu acabei deixando de ver a magia inerente a uma casa de strippers. Ok, são mulheres atraentes (ou não) dançando nuas (ou não) e isso é um daqueles conceitos que, junto com batata frita e leite condensado, funciona independente de contexto, mas sempre bate aquela ponta de depressão pelo lado lamentável da situação. Afinal, no frigir dos ovos é um cara pagando para que uma mulher fique perto dele e o pior, sabendo que está pagando e que provavelmente ela só ficaria perto dele se ele realmente pagasse. Triste. E como se não bastasse isso, uma lata de coca-cola custa dez reais.
Juntar meus amigos num bar, ficar bêbado, cantar a garçonete até que ela me passe o telefone dela e no dia seguinte estar tão sem graça com a atitude da véspera que não tenho coragem de telefonar: Bah, já fiz isso ano passado e não vou repetir a programação. Eu superei essa fase. Fora que depois de ver pessoas se dando mal com argumentos bem mais fortes como “o prédio está pegando fogo e nós todos vamos morrer, quer ficar comigo?” e “tenho mais 72 horas de vida, você podia me dar um beijo?” eu comecei a achar que “oi, sabia que hoje é meu aniversário?” não é um começo de conversa que vá me levar a algum lugar interessante.
Fazer um programa de pai e filho: Por alguma razão estranha que eu nunca vou conseguir compreender, o meu pai acha que o meu aniversário é no dia 9 e não no dia 7, e isso desde que eu era garoto, o que faz com que ele sempre me dê os parabéns por volta do dia 12 ou 15 (meu pai acha que é dia 9 mas se esquece mesmo assim) e eu receba um presente por volta do dia 10 de dezembro (quando ele acha que é o aniversário do meu irmão, que na verdade acontece no dia 7 de dezembro) . Com isso eu desconfio que um almoço de pai e filho entre eu e ele para comemorar meu aniversário iria acontecer ali por volta de meados de agosto de 2010, quando eu possivelmente já teria morrido de fome ou gasto 5000 reais em couvert.
Ir a uma sessão de “Homem-Aranha – Ação e aventura”: Sim, eu realmente pensei nisso, sério. Eu sei, eu sei, é pra crianças, eu sei, é uma peça musical com pessoas presas em cordas e eu sei, eu teria que ir sozinho e provavelmente contratar o filho pequeno de alguém para que eu usasse como pretexto. Mas pô, é o Homema-Aranha, cara! E eles prometem ação e aventura! Como isso poderia ser ruim?
Adendos ao pequeno dicionário pessoal de sensações esquisitas
Outubro 19, 2009

Cena 1
Você vê no orkut o perfil de uma garota que você conheceu e ela parece sensacional. As comunidades certas, o senso de humor, a cultura geral, quadrinhos, filmes, bandas, tudo onde você gostaria que estivesse. Ela também é bastante atraente ou então tem uma enorme capacidade para manipular fotos no photoshop, o que, ok, não é a mesma coisa, mas é uma qualidade a se respeitar. E você fica durante uns dez minutos pensando que ela é o tipo de garota com quem realmente seria interessante ficar, exceto pelo fato de que ela mora, não sei, em Tegucigalpa e provavelmente tem um namorado chamado Bruce Leroy que é versado em alguma arte marcial legal e é pastor de lhamas part-time. Ou nessa parte você está apenas viajando, é possível, você faz essas coisas. Aí você interrompe esse pensamento e sai com seus amigos para uma festa onde você conversa durante meia hora com uma garota que comenta contigo que odeia filme legendado porque não gosta de ler e as letrinhas dão preguiça. E você pensa se não existe algum tipo de descompasso entre certos aspectos chave da sua vida. Mas aí começam os shots de tequila e bem, você sabe como essas coisas são.
Cena 2
Você está em casa e um amigo diz que tem uma idéia “show de bola” pra uma “balada”. Você, mesmo não gostando da palavra “balada”, porque te faz pensar numa noite inteira ouvindo canções lentas da Joni Mitchell, topa e vai, junto com outros amigos, depois de ouvir meia hora de conversa sobre como é perto, divertido, bem freqüentado e interessante. Dentro do táxi, lá pela hora em que o taxímetro marcava uns dezoito reais, as palavras utilizadas para descrever o lugar passam a ser “alternativo”, “hypado” e “aconchegante”. Quando o taxímetro está em vinte e poucos reais você começa a desconfiar que ou o lugar é longe ou o taxista não sabe como chegar, ou mesmo as duas coisas, como você passou a imaginar depois que ele tentou soltar você e seus amigos na frente de uma boate gay alegando que lá era o lugar que vocês tinham pedido. E por fim vocês chegam, em uma rua esquisita, vazia, distante de tudo, diante de um prédio antigo com aparência de abandonado. Ao lado dele um botequim onde um velho usando um tapa-olho e uma camisa da campanha do Collor toma cachaça no gargalo enquanto faz carinho em um cão aparentemente morto. Do outro lado da pista um carro destruído, provavelmente incendiado. O único som na rua é o dos passos de um grupo de rapazes de boné com camisas de cantores de hip-hop, que parecem estar rodeando os seus colegas, já que vão e voltam toda hora. Você começa a reparar nas pessoas que estão entrando na “balada” e em cinco minutos conta três anões, um cara com uma espada, dois homens levando um grande saco plástico preto de conteúdo duvidoso e uma mulher sendo empurrada numa cadeira de rodas, desacordada. Você olha para a rua e nota que o último táxi que passou por lá foi o seu e por sinal o motorista parecia bem preocupado, tanto que arrancou muito rápido com o carro e tinha até proposto que vocês não abrissem a porta e sim saíssem pulando pela janela pra que ele não precisasse parar. Você se vira para a funcionária da entrada e pergunta quanto é pra entrar, ao que ela responde, coçando a barba com o ganho que tem no lugar da mão, que é dez reais, mas só vão abrir em meia hora e você vai ter que esperar na rua até lá.
Em algum lugar da sua cabeça um dos seus neurônios respira fundo e diz para si mesmo “éééééééé…”
Top 5 – Problemas de ser considerado um cara bonzinho
Outubro 5, 2009

- Ao contrário dos outros homens que podem ser rejeitados com toda uma miríade de frases, desculpas e razões, você vai ouvir apenas três frases de rejeição na sua vida, que são “eu gosto de você, mas como amigo”, “não quero me envolver com ninguém” e “estou saindo de um relacionamento complicado”. E não, elas não vão ser ditas de acordo com o contexto e nem escolhidas de forma racional: você vai estar numa micareta e a garota vai dizer que não quer um envolvimento sério; vai chegar numa desconhecida e ela vai dizer que gosta de você, mas como amigo; e vai se apaixonar por uma freira recém-saída do convento e ela vai dizer que não quer se envolver com outro relacionamento complicado. Sei lá, acho que as mulheres escolhem essas coisas no modo shuffle e só deixam rolar.
- Pessoas irão tentar te explorar em diversas situações apenas pelo fato de saberem que você tem uma grande dificuldade para dizer não e em vários momentos você vai notar que está na linha tênue que separa um cara gentil e prestativo de um cara trouxa e idiota. Por exemplo, um dia você vai sair com uma garota de quem você está afim e vai pagar o táxi. Normal. No outro dia você vai sair com essa mesma garota, sendo que está óbvio que não vai ficar com ela, e vai pagar o lanche. Você não percebeu, mas na mente dela isso pavimentou uma estrada que, se você não souber contornar, irá levar a que no futuro você esteja pagando a conta de luz da namorada de um desconhecido.
- Você vai notar que na mentalidade feminina o cara bonzinho* é sempre o cara “pra depois” ou o cara “pra apresentar pra uma amiga”. Por exemplo, você é tão legal que ela realmente não pode ficar contigo mas você com certeza é o cara certo para aquela prima ex-viciada que acabou de sair da prisão de Guantánamo por ter auxiliado algumas ações terroristas na África e ok, ela tem aquele problema de esfaquear as pessoas em situações de pressão, mas você é um cara bonzinho, não vai se importar com isso! E vão formar um casal tão fofo!
- Quando você descreve a sua noite para os amigos você acaba sendo o único que usa a linguagem denotativa com muita freqüência. Por exemplo, se um amigo seu disser que foi “deixar uma amiga em casa”, ele evidentemente foi pra casa de alguém transar. Você, quando diz que levou uma amiga em casa é porque realmente levou uma amiga em casa. E depois parou no Pão de Açúcar porque o desinfetante tinha acabado e você lembrou que precisava comprar mais.
- Você vai notar que passar de “cara bonzinho” para “cara mau” é basicamente como passar de país de terceiro para país de primeiro mundo: não rola. Se você começar a tentar agir de forma mais firme e egoísta as pessoas vão automaticamente comparar esse comportamento com a sua conduta antiga e considerar que você se tornou um babaca (o que é bem diferente de “cara mau”), enquanto a persistência no comportamento considerado “bonzinho” vai te levar a carregar coisas pesadas para as pessoas, pagar mais caro nas festas e ficar com a consciência pesada por ter discutido com o barbeiro que deixou seu cabelo parecendo as costas de uma ovelha que fugiu no meio de uma sessão de quimioterapia.
*Eu sempre tive uma certa desconfiança de que isso da mulher te dar um fora te achando “bonzinho” ou “legal” tem um nível muito grande de falsidade. Por exemplo, se eu conheço uma garota e acho ela realmente legal ou realmente uma boa pessoa eu fico com ela, não dou um fora e digo que ela ainda vai fazer um outro cara muito feliz. Ou seja, quando ela diz que você é legal ou bom mas não vai ficar contigo ela está claramente dizendo que você é legal, mas não o bastante e bom, mas não o bastante. Sério, eu seria um péssimo terapeuta motivacional, mas essa é a óbvia verdade. O problema não é com ela, é com você.
Gym class heroes
Setembro 29, 2009

E eu voltei a malhar. Sim, foi uma decisão difícil e que sim, só aconteceu porque eu cheguei ao extremo do descaso com a minha forma física. Não que eu seja exatamente um cara vaidoso ou daqueles que cultuam o corpo, já que na verdade eu me preocupo com a minha aparência mais ou menos tanto quanto o pessoal da Atlântida se preocupava com vazamentos na caixa d’água, mas chega num ponto em que você precisa decidir se vai ser um cara que consegue apoiar um prato de comida na barriga ou não e eu acabei decidindo pela segunda opção. Mas aí vem um problema clássico da malhação: ir numa academia.
Não vou citar coisas como as dores no corpo, os exercícios que te fazem se sentir um idiota (“isso, agora você levanta essa perna, gira o pescoço, pula de lado e começa a recitar a música tema de Dragon Ball. Como? Não, não, isso não vai melhorar o seu físico, é só pra alegrar meu dia mesmo”) ou mesmo a minha vergonhosa avaliação física (ninguém nunca tinha dito coisas tão ruins sobre mim antes de ao menos uns seis meses de namoro, eu acho), porque acho que esses não são de culpa exclusiva do ambiente (mesmo se eu fizesse como o Rocky e malhasse arrastando alguém numa planície russa eu ainda teria que aguentar o Paulie dizendo que eu estou fora de forma), a questão é que o próprio espaço físico da academia colabora bastante para tornar toda a experiência mais dolorosa e cansativa.
Primeiro por conta das pessoas que freqüentam a academia, um tanto quando diferentes das pessoas com quem eu costumo conviver. Nada contra as mulheres usando roupas coladas (coool) ou as senhoras muito idosas que tem uma carga de supino maior do que a minha, mas admito que é evidentemente complicado pra mim conviver com os caras bombados que me olham como se eu fosse um coelho em um DVD sobre grandes escapadas feito pelo Animal Planet. E isso não apenas pela clara situação de inferioridade física em que me encontro, mas também pelos momentos visualmente desagradáveis que a convivência com certos caras obcecados por musculação pode te proporcionar, como ver um homem beijando o próprio bíceps. Sério, eu já vi isso. E é tão bizarro quanto parece.
Outro problema é a minha natural dificuldade com os aparelhos de musculação, só comparável com aquela que existe entre John Connor e as máquinas em geral: pesos se soltam sozinhos, anilhas me atacam, o Leg-press ganha vida e tenta me derrubar no chão, cabos se soltam e até mesmo a esteirinha de abdominal parece estar possuída por algum ente maligno. É como se diante da minha simples presença todo o espaço físico da academia notasse um elemento estranho e votasse, em unanimidade, pelo meu imediato extermínio, sem direito a ressarcimento do dinheiro da matrícula para a minha família, claro.
E aí vem, é claro, a música. Nada é pior numa academia do que a música. Se você tem azar o seu aparelho fica logo ao lado da sala das aulas de dança e você pode ouvir coisas gloriosas como um calypso, um forró, um zouk (seja um zouk o que for), e se você tem mais azar ainda vai ficar lá no meio da academia, onde toca essa mágica combinação de música dance ruim atual e música dance ruim antiga chamada “música de academia” cuja função parece ser a de te apressar pra terminar sua série logo e se afastar daquele som torturante ou mesmo fazer com que você perca peso porque a gordura vai querer fugir do seu corpo pra nunca mais ter que ouvir Lady Gaga.
Em suma, voltei a malhar e malhar é ruim, cansativo, chato e levemente degradante em vários momentos, mas é uma coisa que eu realmente preciso fazer se não quiser, num futuro próximo, virar um cara com problemas de joelho, de saúde e em quem todas as camisas ficam apertadas. Espero que quando eu escrever um post dizendo que parei de malhar por preguiça vocês joguem isso na minha cara e riam de mim apontando e me chamando de gordinho.
Terminando um caso com a minha adolescência
Setembro 13, 2009

Cara timidez, venho através dessa terminar o nosso relacionamento. É, eu sei, foram muitos anos e eu admito que sempre te achei até bastante charmosa, mas penso que agora, nessa altura do campeonato, já é hora de nos separarmos. Sabe aquela relação que quando começa é bonitinha mas depois você cresce e nota que perdeu o sentido, passou apenas a complicar a sua vida? Nós mudamos, eu mudei. Precisei tomar muita coragem pra te dizer isso, mas espero que você entenda.
O mesmo vale para você, senso de humor. Não, não que eu esteja terminando, mas temos que repensar nossa relação. Nós fazemos mesmo bem um pro outro? Em que sentido você torna minha vida melhor? Claro, eu te adoro, eu te acho o máximo, mas e todas as outras pessoas? Eu digo isso porque quase ninguém entende a nossa relação e eu estou cansado desse “nós dois contra o resto do mundo”. Amigos não gostam de você, família não gosta de você, quando nós nos encontramos no trabalho eu quase sempre passo vergonha. Claro, nunca comentei isso contigo, mas sabe quantas vezes as pessoas já me pediram pra que quando eu saísse deixasse você em casa? Não digo terminar, mas acho que temos que nos ver menos, entende? Precisamos mesmo repensar a nossa relação.
E tem você, complexo de inferioridade.Sim, eu sei o que você vai dizer. Que você já sabia, que você tinha certeza que não ia durar, que você sempre esteve preparado pra que terminasse assim, mas não é verdade.O problema sou eu, não você, entende? Você é um grande complexo, sério. Dos mais complexos,cara. Sinceramente, eu não sei como teria passado a adolescência sem você (na verdade eu sei) e pode ter certeza que eu sempre vou me lembrar de você. Não, não estou te trocando por um complexo de superioridade, nada disso, não precisa chorar. Eu apenas preciso de um tempo sozinho, longe desse tipo de companhia. Tenho certeza que em breve você vai achar algum adolescente emo problemático com quem ficar, pode apostar.
Sobre você barriga, eu realmente preciso ser direto. Eu sei pra onde a nossa relação está indo e você sabe muito bem que eu não quero compromisso nessa altura. E se nós continuarmos juntos agora a nossa relação vai provavelmente durar pra vida toda (isso se não crescer) e eu depois não vou conseguir ter a força de vontade pra me livrar de você. Mas claro, te prometo que a separação vai ser gradual, ainda mais porque estamos no começo, apenas nos conhecendo, nada de te abandonar de uma hora pra outra. Mesmo porque eu não tenho grana pra uma lipo.
Quanto a vocês, quadrinhos…eu tenho que dizer que…ok, brincadeira, não vou me separar de vocês. Fiz isso apenas pra ver a cara que vocês faziam. Não, senso de humor, não voltamos ao que éramos antes, foi apenas uma recaída.
E agora tem vocês dois, barba e óculos. Nós curtimos um bocado juntos, não? Colégio, tempos da faculdade, férias… Foram bons momentos. Irritamos namoradas, causamos briga com minha mãe, enfrentamos piadinhas juntos. É, bons tempos aqueles. Mas bem…as coisas mudam, certo? Sério, barba, nada pessoal, mas…acho que alguma coisa da magia que existia entre nós se perdeu. Não combinamos mais, quando estamos juntos eu me sinto velho, não sei. Claro, não é o final, não é definitivo. Talvez nas férias, quem sabe? A culpa não é nem minha nem sua, talvez seja apenas o momento que seja errado. Quem sabe no futuro as coisas não se acertem entre a gente? Mas não, cavanhaque, com você a história acabou mesmo. Não sei onde eu estava com a cabeça quando saí contigo. Você me envergonha, cara. E já você óculos… vai parecer cruel mas…é melhor não andarmos mais juntos em público, sabe? É que…olha, eu sou a última pessoa pra dizer isso, mas…você é muito nerd, sabia? Mas bem, ainda podemos ficar juntos lá em casa, pra…sei lá, ler um livro, ver TV, alguma coisa desse tipo…Espero que você também entenda.
Ga-ga-gagos
Setembro 7, 2009

*Este texto foi produzido nos tempos de Viçosa, antes da mudança pro Rio, no período máximo da tensão pré-convocação e foi reencontrado num pen-drive, sendo publicado porque eu não gosto de desperdiçar um texto, por mais besta que ele seja…
Como eu já disse antes, eu ando nervoso, preocupado, ansioso e tudo mais. E diante dessa situação vem à tona outra das fascinantes características que me tornam esse partidão que todos vocês conhecem: eu sou meio gago. Quer dizer, meio gago não, porque “meio gago”, assim como “meio grávida”, “meio gay” e “meio alcoólatra” é um desses conceitos esquisitos que as pessoas inventam pra esconder parentes que as envergonham. E como o alcoolismo, a gagueira é uma coisa que pode ser controlada (dizem) mas que nunca acaba. Afinal, eu consigo passar horas sem gaguejar, mas subitamente a coisa volta e lá estou eu dando declarações remixadas de novo. Mas se vou falar disso, vamos começar pelo começo.
Ao contrário do que muitos pensam, não se começa a gaguejar assim que se começa a falar. Por mais engraçada que a idéia de bebês dizendo “gu-gugu dá-dádá” ou de crianças chorando “bu-buáááá” possa parecer para certas mentes doentias, quase todos os casos de gagueira de desenvolvimento (como o meu caso), começam na adolescência ou na pré-adolescência. Eu, por exemplo, era um garotinho nerd irritantemente bem articulado até os oito, nove anos, quando alguma coisa (minha mãe culpa o divórcio, meu pai culpa a mudança para Minas, meu avô Rubens culpava a zaga do América-RJ. Por tudo) me fez começar a gaguejar em diversos tipos de situação. Ou seja, em algum momento entre a separação dos meus pais e a minha ida pra Juiz de Fora, jazem a minha dicção e a minha fluência verbal, muito possivelmente ali perto da Casa do Alemão, na serra de Petrópolis.
E esse meu tipo específico de gagueira tem algumas particularidades interessantes que surgem do fato de ser um problema de cunho totalmente emocional, como por exemplo o fato de que a intensidade dela varia de acordo com a minha situação e estado de espírito (daí o “meio gago”). Se eu estou, por exemplo, conversando com a minha mãe, batendo papo com amigos íntimos, bêbado (ou mesmo conversando com a minha mãe e com alguns amigos íntimos enquanto estou bêbado), eu simplesmente não gaguejo. Por outro lado, em situações em que estou acuado, nervoso, inseguro, preocupado, ou chegando em alguém (o que costuma me deixar acuado, nervoso,inseguro e preocupado) eu simplesmente sou incapaz de concatenar qualquer palavra sem transformá-la em um polissílabo repetitivamente bizarro. Mas claro, isso não segue sempre essa lógica. Se eu ficar suficientemente irritado, empolgado ou mesmo mudar meu tom de voz ou meu ritmo de falar, a gagueira também desaparece totalmente, o que seria uma boa solução se fosse possível estar sempre revoltado com o ataque do Flamengo, sempre falando sobre quadrinhos ou sempre usando sotaque gaúcho e imitando o Selton Mello.
E mesmo que eu já tenha aprendido a conviver com o meu problema de dicção, ser gago ainda tem seus aspectos irritantes. Além do aspecto de não falar direito e repetir sílabas, claro. Primeiro são as péssimas piadas de gago. Sério, fora aquela do guia africano avisando que o hipopótamo está chegando, é muito complicado ouvir boas piadas de gago nos dias de hoje*. Outro lado chato é que a gagueira não é realmente vista como um problema ou um “handicap”, ainda que, num certo nível, ela seja. Afinal, pessoas com problemas de dicção são livremente zoadas por aí, o que não é feito (em locais civilizados) em relação a pessoas com outros problemas ou limitações. Afinal, imitar um gago hardcore é quase tão cruel quanto dar uma rasteira num cara de muletas, mas mesmo assim é algo muito mais aceito pela sociedade (e eu já passei pelas duas situações, eu sei bem).
Ou seja, ser (estar) gago é basicamente um saco. Te faz ficar tímido (ainda que eu não saiba direito se eu sou um cara gago que ficou tímido ou um cara tímido que ficou gago), te elimina várias oportunidades profissionais (“sabe aquele seu sonho de narrar rodeio, Toby?”), atrapalha a sua vida pessoal (sério, só quem acha gagueira fofinha é fonoaudióloga, e da mesma forma que um dono de funerária acha uma chacina “simpática”) e ainda pode colocar sua vida em risco (“eu preciso de um mé-mé-mé-di-di–…ah, esquece, acho que vou morrer mesmo…”). Só existe uma e somente uma coisa no universo que consegue tornar menor o sofrimento de um gago: ver um fanho falando. Sério, fanhos são hilários!
Ok, ok, foi uma piada ruim…Mas quantas boas piadas de fanhos existem também, né? Complicado, cara…
*Na verdade a coisa mais engraçada relacionada a gagueira que eu vi nos últimos anos foi uma propaganda da campanha nacional de combate (ataque? extermínio? destruição?) da gagueira com o tema “Gagueira não tem graça”. Ou seja, se precisarem da definição de fail em termos de publicidade institucional, citem “fazer um gago rir numa propaganda com o tema gagueira não tem graça”.