A matemática do interesse
Dezembro 5, 2009

Uma coisa que eu sempre considerei um bocado complicado é demonstrar interesse nas pessoas da forma certa. Não, não que eu não saiba demonstrar interesse, eu acho que eu sei (não posso garantir, só acho) mas as graduações e as formas sempre foram um pouco confusas pra mim, as sutilezas sempre me passaram um pouco desapercebidas e certas nuances acabam me escapando totalmente.
Vamos por partes: ok, eu estou interessado numa garota. Não, não sei precisar ao certo quais são as minhas intenções (Casamento? Namoro? Sexo? Duas horas de Marvel Ultimate Aliance para Play2 e um aperto de mão? Dividir um pacote de Ana Maria?), mas sei que estou interessado nela devido ao meu óbvio interesse e ao fato de que…bem…estou achando ela cada vez mais interessante. E quando você está interessado e acha a pessoa interessante o normal é que você demonstre interesse. Mas quanto interesse?
Por exemplo, suponha que você demonstre interesse demais. Interesse demais é a sua forma de deixar obviamente claro que você está interessado, sem dar margem pra que a outra pessoa não entenda exatamente aonde você quer chegar. Mas aí o que acontece? Bem, em primeiro lugar você fica vulnerável, fácil. Afinal, se você está mais interessado do que a outra pessoa ela evidentemente passa a ter um certo controle sobre a situação, já que ela está menos empolgada ali do que você. Outro risco é assustar a outra pessoa, afinal, você pode estar mostrando um nível de empolgação acima do que ela considera natural ou normal e isso gerar não só o fim do interesse dela (se ela estiver interessada, o que você não tem como garantir) como também uma preocupação com a sua sanidade mental e uma ordem de restrição judicial (mas acho que isso acontece só em casos extremos e onde existe uma forte tensão “Glenn Close style”, o que realmente não tá rolando comigo, visto que eu não curto picadores de gelo). Fora que gente super-interessada é chata pra caramba e eu já consigo ser relativamente chato naturalmente. Ou seja, interesse demais realmente atrapalha.
Mas por outro lado existe o interesse de menos. Você está interessado, mas resolve pegar leve pra não parecer desesperado, não assustar a pessoa e nem precisar que seus pais levem cigarros pra você na cadeia. Uma coisa mais cool, blasé, uma abordagem mais Humprey Bogart em Casablanca. Mas se você não demonstrar uma quantidade mínima de interesse como a pessoa vai saber que o interesse existe? Afinal, você tá ali, paradão, chapéu de feltro, batendo um papo com o Sam sem nem olhar pra ela, como ela poderia adivinhar? E pronto, você perdeu por interesse de menos. Agora jogue volte duas casas e jogue o dado de novo.
E claro, vocês podem, me dizer algo como “ah, relaxe, e aja naturalmente” ou “seja você mesmo”, mas pra mim esse tipo de frase é basicamente como “ontem demorei pra dormir, tava assim, sei lá, meio passional por dentro” ou “and i know i was wrong when i said it was true, that it couldn’t be me and be her inbetween without you”, frases que eu acho legais mas cujo sentido eu admito abertamente que eu não consigo muito bem alcançar. Como assim natural? Porque pra mim é total e completamente natural achar esse tipo de questão confusa. Vamos admitir, não existe um padrão, a lógica da questão é total e puramente variável, minhas experiências prévias não me garantem nenhum tipo de amostragem razoável, eu não tenho nenhum tipo de dado realmente válido sobre a posição da outra parte e tudo que eu posso fazer é seguir meus instintos que, como bem disse o Rob Gordon, eu venho seguindo desde os 14 anos e sei que realmente não tem cérebro.
Não poderia existir, não sei, uma sistematização? Um método amplamente certificado e generalizadamente aceito de demonstração de interesse que não levasse a mal-entendidos, confusões, pessoas ficando assustadas e picadores de gelo? Real e definitivamente eu não sei. Mas enquanto eu não descubro exatamente de que forma lidar com esse meu interesse e não baixo uma versão interessante do FM para parar de pensar nisso, sinto que vou ter que lidar com isso da forma mais natural e mais “eu mesmo” que eu consigo. Ou seja, vou escrever sobre esse tipo de coisa num blog.
Sobre o meu aniversário (2 de 2) : E sempre teremos Paris…
Novembro 13, 2009

Seria meio idiota dizer aqui que 2009 tem sido um ano bom. Afinal, se vocês lêem o blog acabam sabendo de praticamente tudo que acontece na minha vida, de uma forma ou de outra (por sinal, eu vou sim lavar meu tênis azul, não me apressem) e provavelmente já sabem muito bem que esse ano vem superando todas as expectativas que eu tinha pra ele (que eram basicamente o não retorno de “Sob nova direção” e “A diarista” e não morrer). A temporada 2009 (sim, eu penso na minha vida em termos de temporadas como se ela fosse um seriado ou uma liga americana de hóquei. sério. eu tenho até programação mid-season) tem sido divertida, interessante, estimulante e diferente. Mudei de cidade, de emprego, de ritmo de vida, de nome (vocês não sabem, mas agora me chamo §). Conheci muita gente nova e legal e tentei não perder contato com as pessoas legais de antigamente. Tivemos aventura, romance (ok, pouco, mas tivemos), comédia, drama, tiros, explosões (eu moro no Rio, então…), invasões alienígenas, animais que jogam basquete e gorilas albinos que falam sem mexer os lábios, ou seja, tudo que um bom ano precisa ter. Ainda que o lance dos gorilas seja meio perturbador, não sei se vocês concordam.
E claro, tenho que ressaltar que tive o melhor aniversário dos últimos vários anos. Não vou entrar em muitos detalhes (mesmo porque eu não lembro exatamente de todos os detalhes) e nem vou citar todos os nomes das pessoas responsáveis (porque se eu fizesse isso iria parecer que eu estou saindo de um Big Brother – “Yuri, Ju, Natália, Kassie,Rafa, Bruno, Juliana, mãe, pai, tá todo mundo aqui! Bial! Bial!”), mas quero dizer que foi ótimo. A festa na sexta com muita cerveja e a presença de quase todo o pessoal aqui do Rio (nunca pensei que fosse ter tanta gente comigo numa mesa sem estar sofrendo uma cirurgia) foi algo entre o épico e o lendário, com destaque para a tequileira que tentou me agredir quando me serviu (mas acho que isso é parte do trabalho dela, ainda que ela parecesse estar se divertindo demais) e com a única menção negativa de que o ar-condicionado só começou a funcionar por volta das duas da manhã, quando eu já havia perdido metade dos líquidos do meu corpo.
Já no sábado teve a já citada festa-surpresa-sem-exatamente-nenhuma-surpresa-mas-que-me-surpreendeu-mesmo-assim em casa, seguida de barzinho e logo depois fomos para um show de uma banda cover do Los Hermanos. Sim, eu sei, banda cover de Los Hermanos no dia do seu aniversário é como ver “O Iluminado” antes de sair de férias, ver “A Profecia” antes de adotar uma criança ou ver aqueles vídeos sobre DST antes da sua primeira vez. Mas foi legal e a banda que tocou depois deles mandou Hash Pipe no bis final o que fez com que pela primeira vez em 15 anos os meus gritos bizarros de “toca Weezer” tivessem sido respondidos. Ou seja, foi um dia de aniversário sensacional, espetacular e mágico. Tipo, já disse que tocaram Hash Pipe? Sim, porque, tipo, tocaram Hash Pipe, cara! Sim, Hash Pipe! Hash “fucking” Pipe!
E ainda que demonstrar emoção (assim como andar de bicicleta, comer comidas com molho sem sujar a mesa e escolher roupas) não seja meu forte, eu queria agradecer a todo mundo por esse final de semana e por esse ano como um todo. Aos velhos amigos, aos amigos novos, aos velhos novos amigos, aos novos amigos que já estão ficando velhos, aos velhos amigos que não estão ficando mais novos e que eu acho que deveriam começar a se preocupar seriamente com problemas como a queda de cabelo e a osteoporose, aos novos amigos que eu chamo de “velho” e aos velhos amigos que estão namorando com meninas 8 anos mais novas. Vocês (tanto os presenciais quanto os não-presenciais) são os melhores amigos que um cara pode ter caso ele não possa fazer parte do Rat Pack e nem possa andar com os caras do Weezer pra cima e pra baixo.
E mesmo que o ano que vem não seja tão legal quanto esse (admitamos, é uma competição difícil), saibam que eu sempre vou ter as lembranças disso. É, pessoal, sempre teremos Paris, sempre teremos a tequileira, as risadas, o barzinho, o show e essas duas noites, ainda que eu espero que consertem o ar-condicionado logo. E claro, sempre teremos Hash Pipe. Porque, eu não sei se eu já disse, tocaram Hash Pipe no sábado, sabiam? Sério, cara, Hash Pipe!
Santa capacidade de concentração, Batman!
Novembro 11, 2009

E eu tinha sentado na frente do computador pra terminar de escrever a segunda parte do post sobre o meu aniversário, mas depois de quinze minutos tudo que eu tinha conseguido produzir era…isso. Portanto achei melhor deixar a segunda parte pra daqui a dois dias. Até lá.
Top 5 – Canções mais bonitas de Alexandre Pires
Novembro 6, 2009

Mineirinho: Alexandre Pires, como todo grande artista, sempre gostou de desde o começo da carreira, flertar com o complexo, o criativo, o paradoxal. E quer coisa mais paradoxal do que um mineiro fazendo uma música pra falar pra todo mundo que o mineiro é de fazer e não de falar? Com essa canção que é a versão musical de começar a gritar dentro de uma biblioteca para pedir silêncio, o Só Pra Contrariar não só fez self-marketing (e espero que todos eles tenham conseguido pegar alguém graças a isso) como alcançaram as paradas de sucesso e lançaram Alexandre como um sex symbol para o novo milênio.
Interfone: É até um pouco complicado pra mim falar dessa música pelo tanto que ela me emociona. Afinal, eu imagino Alexandre Pires sentado em casa, sozinho, solitário. Ele viu o Jô, ele viu o Intercine (no qual ele tinha votado em “Simples como amar” mas acabou tendo que ver “Fuga de Absolon”) e depois, no auge da derrota, ele viu o Amaury Junior. Aí ele ficou chateado, até eu ficaria. Então ele saiu, entrou no carro e foi, a duzentos por hora, até a frente do prédio da amada. Chegando lá ele foi barrado pelo porteiro que, recém-contratado e nada afeito as revistas de fofoca, ainda acha que Alexandre namora com uma das Scheilas e não entende o que a voz máxima do pagode mineiro está fazendo ali. E então, num gesto de supremo amor e desespero, Alexandre pega o celular, abre seu coração e manda, de lá de dentro, do seu âmago mais recôndito um “mas o porteiro é novo, ele não me conhece, tá cheio de suspeitas, tá desconfiaaaaaaaaado”. Cara, eu estou chorando aqui. É foda.
A barata : Nunca é demais dizer que Alexandre Pires é acima de tudo um pioneiro. Muito antes da Wired, muito antes do Steve Jobs, muito antes dos caras do Google, do Facebook, do Twitter, o ex-vocalista do SPC já trabalhava na música interativa, no pagode 2.0, no partido-alto colaborativo, no samba wiki. Sim, ou o que mais você pode dizer de um samba em que Alexandre lança as bases rítmicas e você mesmo pode continuar a letra de acordo com sua vontade, oferecendo uma colaboração pessoal e inovadora como letrista? Afinal, a barata era da vizinha do Alexandre, mas quem decidia o que fazer com ela era você! Pistolada, sapatada, cabeçada, desintegrada, o poder era todo seu, meu amigo.
Essa tal liberdade: Nessa música Alexandre propõe uma das grandes questões da humanidade, tão complexa quanto o paradoxo do gato de Schrödinger, o “ser ou não ser?” de Hamlet ou o “should i stay or should i go?” do The Clash. Afinal, o que que eu vou fazer com essa tal liberdade se estou na solidão pensando em você? Eu andei errado, eu pisei na bola, troquei quem mais amava por uma ilusão, mas a gente aprende, a vida é uma escola. Não é assim que acaba uma grande paixão. E ainda virou música-tema de propaganda da Malwee, lembra? Gênio, gênio.
Depois do Prazer: Primeira coisa a ser dita sobre “Depois do prazer” é que apenas um campeão, um gênio, um macho-alfa, um predador emocional, é capaz de começar uma declaração de amor com as palavras “tô fazendo amor com outra pessoa” e ainda se dar bem. Mas para Alexandre Pires, um conquistador que ganha pela confusão e dissuasão da mulher amada, isso é pouco, claro. Depois dessa ele ainda manda um verso de extrema complexidade como “a verdade é que eu minto” e a mulher, que não sabia se ele estava indo ou vindo, começa a se questionar que raios está acontecendo ali. E aí, pra fechar, ele manda o “posso até gostar de alguém, mas é você que eu amo”, o que faz com que a mulher perceba que as emoções de Xandeco são tão complexas que Stephen Hakwings era o amigão com quem ele desabafava durante os namoricos de colégio e que resistir é inútil, tem mais é que voltar com o cara antes que ele diga qualquer outra coisa desse tipo e ninguém entenda mais nada. (E claro, não podemos deixar de lembrar mais duas frases épicas dessa canção: “o que o corpo faz a alma perdoa”, um belo verso sobre traição e “emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr” que é evidentemente sobre a incapacidade de Alexandre de achar algo para fazer durante as 7 horas e meia que sobraram na suíte do motel após pegar aquela promoção de pernoite)
Top 5 – Grupos de pagode que não deram tão certo assim
Outubro 31, 2009

Só preto sem preconceito: Primeiro grupo montado por cotas na história da música brasileira (com 100% de cotas para negros) e cujo nome é uma contradição em termos (“sério, não temos preconceito. Mas pode sair daqui, branquelo maldito!”), o Só Preto sem Preconceito era dono de sucessos com títulos tão variados como “Não tão menos semelhante” e “Patinete do Morro”, além de ter sido colocado nessa lista só porque eu achava que eram eles que cantavam “Lá vem o Negão”, mas depois eu pesquisei no Google e vi que não era. Mas me deu preguiça de tirar os caras. Grande presença.
Só no Sapatinho : Eu sinceramente nunca entendi porque o SnS não fez mais sucesso, afinal um grupo de pagode com o filho do Zico é uma idéia tão boa quanto, sei lá, chamar o sobrinho do Zeca Pagodinho pra ser cobrador de faltas oficial do seu time. Humm…ok, talvez dê pra entender porque o grupo não fez tanto sucesso. Donos de um único hit, a música homônima (não, a música não se chama “Homônima”, ela tem apenas o mesmo nome do grupo), o SnS sempre será lembrado por ter composto um dos versos mais “dorgas mano, lol raiaiaia” do pagode nacional,daqueles que você não sabe se são sobre uma mulher ou uma pedra de crack (“vagabundo tá na rua da amargura/anda cheio de fissura/mas sou eu que vou levar”)e, para alguns mais atentos, por ter feito uma das melhores metáforas para contato íntimo que a música brasileira pode oferecer (“deixa eu por a mão no seu bichinho de pelúcia, deixa, deixa?”)
Nabusanfa: Bem, o que mais a gente precisa dizer sobre o grupo Nabusanfa além de que ele se chamava Nabusanfa? Se você ainda precisar de mais eu posso oferecer o refrão do grande (e possivelmente único) sucesso do grupo, a música “Mulher de Borracha”: “mulher de borracha/você se encaixa tão bem/não me esculacha/não fica de chico/e não pega neném”. Sim, é um pagode sobre uma boneca inflável, você não está viajando nessa.
Kiloucura: Único grupo de pagode que também poderia funcionar como restaurante self-service, o Kiloucura imortalizou seu lugar no pagode nacional com o sucesso “Pela vida inteira” e sua semi-coreografia/dancinha esquisita (“e as estrelas lá do céu/eu vou buscar/beijos com sabor de mel/eu vou te dar) e…e…bem…e depois não aconteceu muita coisa. Mas soube que o cardápio de hoje inclui picadinho e o quilo está 18,90 ou então é dez reais sem balança.
Ronaldo e os Barcellos: Autores da única música capaz de dividir com “Temporal” do Art Popular o título de pagode mais derrota da década de 90, Ronaldo e seus Barcellos (existe outro Barcelo além do Caco?) conseguiram marcar uma geração (ou um pouco menos) com seu clássico “Feliz Aniversário”, que contava a história de um cara que telefonava para ex-namorada no dia do aniversário dela para ficar se lamentando ao telefone e fazer algumas ameaças meio esquizofrênicas (“talvez à meia-noite eu ligue pra você/talvez não diga nada pra quem atender/talvez mande um presente pra você saber/que eu nunca te esqueci”) . Provavelmente Ronaldo está atualmente em tratamento e os Barcellos seguiram carreira solo ou estão junto com a Rapaziada que cantava com a Adriana.
Top 5 – Músicas do Molejo que você tem que ouvir antes de morrer
Outubro 27, 2009

Não sei se vocês se lembram, mas existiu uma época muito, muito tempo atrás, num lugar muito, muito distante em que todo mundo ouvia pagode. Sim, todo mundo. Eu ouvia pagode, você ouvia pagode, seu pai ouvia pagode, sua tia ouvia pagode. Isso porque, é claro, em todo lugar tocava pagode. A rádio tocava pagode, na televisão passava pagode, nas festas se ouvia pagode, nas lojas de cd tocavam os cds de pagode. Não, não samba raiz de universitário intelectual, não samba com hip-hop do Marcelo D2, não sambinha MPB nessa coisa Maria Rita/Los Hermanos ou samba rock do Farofa Carioca. Nada disso, meu amigo, era pagode mesmo.
Nomes como Exaltasamba, Soweto, Os Morenos, Só Pra Contrariar e Karametade causavam nas garotinhas incautas o que hoje causam NxZero, Fresno e derivados, só que com mais gente no palco, mais ginga, mais malícia e mais suingue (e claro, menos franja). E nesse panteão onde Alexandre Pires dominava as paradas de sucesso com suas reflexões filosóficas (“o que que eu vou fazer com essa tal liberdade?”, “a verdade é que eu minto”, “ele vai dar uma pistolada na barata dela”), e Belo tocava as almas e os corações com sua poesia cuja criatividade beirava o construtivismo(“derê, derere, dumdum, dê rererere”), surgiu um grupo que representava tudo que de mais descompromissado, mais fanfarrão, mais bizarro, mais sem noção significava o pagode da década de 90: o Grupo Molejo.
Formado em 1993 por Anderson Leonardo, Andrezão e mais um monte de caras que ficavam rodando na parte de trás do palco da Xuxa fingindo que tocavam alguma coisa,o Molejo era conhecido por suas letras irreverentes, brincalhonas, bem-humoradas e na maior parte das vezes totalmente sem sentido, que tanto acrescentaram ao pagode-pop nacional e tanto sucesso fizeram nas rádios. E é em homenagem a esse grupo que tantas alegrias (ou não) deu a todos nós durante tantas viagens de ônibus nos tempos do colégio e que agora retorna ao estrelato com seu novo CD “Todo mundo gosta” que eu me propus a fazer essa pequena lista (afinal, cinco músicas diante de uma obra extensa como a do Molejo é como escolher apenas cinco filmes diante da filmografia completa de Uwe Boll)
Cilada: Sucesso em todas as excursões escolares junto com “Barata da Vizinha” e “Fogo e Paixão”, essa canção foi uma das incursões do grupo na arte de representar as dramáticas histórias de amor e sofrimento das classes menos favorecidas, com o conto de um rapaz que, interessado por uma moça, deixa que ela o obrigue a prestar serviços domésticos na expectativa de recompensas de cunho afetivo. Tente não se emocionar com o genial refrão que diz “não era amor ô ô/não era/não era amor era/cilada cilada”.
Brincadeira de criança: Uma canção feita não apenas para tocar nas rádios mas também para cumprir uma função social: acelerar o processo de sexualização das crianças do Brasil. Mais uma vez o Grupo Molejo dá aquele passo adiante em termos de composição e nos brinda com uma das frases mais memoráveis da música brasileira: “Até que enfim, chora pra beijar, hein!?”.
Samba Diferente: Também conhecida como a “melô do Frei Damião” (“pode quebrar o pescocinho pro lado, vai, vai, vai, vai”), essa bela canção consiste basicamente em uma série de comandos sem sentido que quando combinados formam uma coreografia que estava no estreito limite entre o inusitado, o curioso e o absolutamente babaca. Méritos do grupo que conseguiu fazer com que várias pessoas pelo país inteiro passassem a vergonha de seguir o que eles diziam sem nem pensar duas vezes.
Paparico: Reafirmando sua verve de bardos do proletariado do século XX, Anderson Leonardo e Andrezão retornam com essa história sobre um rapaz que deseja impressionar uma jovem e para tanto usa de artifícios visando mascarar sua desconfortável situação financeira, o tipo de história que deixaria John Ford boladaço. Destaque para o verso sobre o cheque sem fundo no motel. Massa, véi.
Sweet Banana: Clássico do pagode dadaísta, Sweet Banana é uma dessas músicas que à primeira vista não dizem muita coisa, mas que numa análise mais apurada não significam absolutamente porra nenhuma.
Os cinco hábitos dos bêbados muito irritantes
Outubro 14, 2009

Brincadeiras físicas sem sentido: O bêbado inconveniente sempre sente uma profunda necessidade de se expressar de forma física. Mas ao contrário da Débora Colker, da Ana Maria Botafogo e do Jacaré do Tchan, por exemplo, não consegue pensar em nenhuma maneira realmente lúdica de saciar essa necessidade e acaba partindo para as brincadeiras físicas bizarras. Petelecos na orelha, tentativas de abaixar sua calça, ombradas, imitações de tiranossauro, cabeçadas no seu ombro, rasteiras, propostas para pular carniça, tentativas de equilibrismo em locais extremos, empilhamento de copos e garrafas, todo tipo de bizarrice se torna válida desde que ele não fique parado. E sim, alguns realmente resolvem se expressar como o Jacaré do Tchan, mas esses te fazem sentir saudade dos petelecos.
Sinceridade fora de controle: Nenhuma criatura do universo é mais sincera do que o bêbado. Ele vai te contar qualquer coisa que você pedir, indo desde segredos minuciosos de trabalho até segredos de estado e segredos de cofre, com especial destaque parar coisas que você nunca teve a mínima curiosidade e experiências sobre as quais você não gostaria de ter conhecimento Porque apenas quando você está numa calçada as três horas da manhã ouvindo um cara te perguntar se o fato dele ter uma foto do Kaká de sunga como fundo de tela torna ele gay que você compreende os problemas que a bebida pode trazer.
Demonstrações excessivas de afeto: Ao contrário do gago, dos portadores do Mal de Hansen e das pessoas com Alzheimer, que querem apenas o nosso respeito, o bêbado quer muito mais. Ele quer nosso afeto, nosso carinho, nossa amizade, nos dar um abraço, dizer que nos ama e nos levar pra passar a noite na casa dele porque considera a gente pra caralho. Daí vem toda uma gama de demonstrações de carinho que são bem acima do que a sociedade considera tolerável, muitas vezes saindo até da clássica trindade do “não estou bêbado-te amo-você é um cara gente boa” e entrando em campos mais absurdos como dizer que vai te colocar no testamento, dizer que gosta tanto da sua camisa que quer que você tire pra que ele vista e coisas do tipo. Mas se ele tentar enfiar a língua na sua orelha não é culpa da bebida, seu amigo está querendo ficar contigo mesmo.
Necessidade desnecessária de transmitir dados sobre sua vida pessoal: Sabe aquilo que os políticos falam sobre vidas que são “um livro aberto”? É só quando você está perto de um bêbado que você entende isso da forma mais clara possível. O bêbado te conta sobre o final do último namoro, sobre a garota do trabalho de quem ele é afim, sobre o divórcio dos pais, sobre os problemas com a ex, sobre a paixão de infância, sobre a vez em que apanhou dos primos, sobre o dia em que ficou bêbado e acordou com um travesti e no final te conta da vez que pegou a sua irmã, você não sabia e a noite acaba com aquele clima pesado.
Vomitar: Bêbados algumas vezes vomitam em si mesmos e nas outras pessoas. E isso é chato.
A culpa é da maresia
Outubro 12, 2009

O Rio é um lugar que muda os conceitos das pessoas. Você acha que nunca vai falar chiado e acaba falando, acha que nunca vai ter um amigo que te cumprimente gritando “fala leleske” e acaba tendo, acha que nunca vai ver um cara se dando bem usando como cantada a frase “já é ou já era?” e acaba vendo. Uma dessas mudanças de visão, por exemplo, é a minha posição sobre o determinismo geográfico. Sabe essa coisa de que o calor dos trópicos influencia o subdesenvolvimento das nações, de que os índios eram menos civilizados por causa da natureza exuberante que não os motivava a produzir ou criar nada e todas esses outros discursos que culpam a geografia por tudo? Sempre achei isso uma tremenda besteira. Até vir morar aqui no Rio, claro.
Digo isso porque, como todos vocês devem ter notado, o nível do blog caiu depois da minha mudança para o Rio. Atualizações mais esparsas, menos comentários, textos menos engraçados, menos ofensas feitas pela população de Cataguases, menos links envolvendo Darth Vader, sim, boa parte daquilo que tornava esse um blog legal e divertido acabou ficando pra trás e eu posso dizer, sem medo de errar: a questão é totalmente geográfica, é tudo culpa do calor carioca.
Isso porque no Rio é complicado ficar em casa pra escrever, e não apenas porque dentro de casa vai estar sempre muito quente, mesmo com o ar-condicionado ligado no máximo (você pode ter ar no quarto, mas na sala vai estar quente. Aí você coloca na sala. Mas a cozinha então deixa de ter um forno e passa a ser um forno. Quando você menos percebe já climatizou a casa toda e passou a bater com um bastão nas pessoas que abrem a janela) e é quase impossível concatenar uma linha de raciocínio coerente com uma temperatura ambiente de 45ºC (semana passada eu comecei a escrever um post e fui interrompido por uma ruiva vestida de odalisca que mais tarde eu descobri ser uma miragem). Existe também o peso do “fator praia” (quando você mora perto da praia você se sente moralmente culpado quando surge um dia de sol e você fica em casa. É mais ou menos como ser filho do Bill Gates e usar Linux), do “fator água gelada do mar” e do fator “cariocas de biquíni na praia aproveitando a água gelada do mar”, que acabam minando totalmente a minha capacidade criativa, gerando o resultado que todos vocês vem vendo. (“vocês vem vendo”? Santa aliteração involuntária, Batman!”)
Mas não, não abandonarei o blog apenas porque não estou conseguindo escrever direito e tenho tido poucos comentários. Não, jamais. Mesmo porque eu nunca escrevi lá isso tudo e o pessoal também nunca comentou muito por aqui, pra ser sincero. Apenas acho que, como eu faço de tempos em tempos, eu deveria dar algum tipo de satisfação para os meus 5 leitores e dizer que bem, como dizia o Mario, isso é apenas uma fase e vai passar, pessoal.
(Outra observação que eu gostaria de fazer é a de que eu realmente respeito muito os escritores e blogueiros cariocas pela capacidade de realmente escrever ao invés de apenas ficar sentados na praia. Ou então eles apenas escrevem na praia…humm…mas continuo respeitando muito vocês por terem pensado nisso…Espero que minha fase de adaptação termine logo e eu volte a achar praias um saco)
Esquemas
Outubro 3, 2009

Santo post pago, Batman!
Setembro 24, 2009

Ele voltou, o boêmio voltou. E junto ele trouxe a edição número 13 do Farrazine, com Legião, uma HQ de Ricardo Andrade e Snuckbinds, e Albaria, do Wilton Pacheco (que também é o entrevistado da edição. Nós adoramos esse cara. Só não pusemos um pôster dele no meio da revista porque bem…a gente gosta do cara, mas não desse jeito esquisito…). Também temos Batman, censura, quadrinhos bíblicos e inflamáveis, Raul, blues, nostalgia, Star Warghs, trave na treva, Bar do Limbo, sombras vivas e o keyboard cat. Ok, não temos o keyboard cat, mas temos “37 dias”, um conto meu, ilustrado pelo Greati, que é quase tão legal quanto. Play them off, Farrazine.
Você pode baixar o Farrazine aqui em versão RAR. Ou aqui em versão PDF. Ou você pode deixar isso tudo de lado e entrar no blog do Darth Vader, mas eu gostaria que você baixasse o zine antes, ok?