Top 5 – Profissões para enriquecer facilmente o seu currículo
Dezembro 2, 2009

E então você se formou. Diplominha na mão, altas expectativas, muita felicidade, papai e mamãe orgulhosos, titio e titia exultantes, vovó alegre e vovô resmungando porque acha que comunicação é curso de veado e você deveria ter feito engenharia civil. Mas aí você chega no mercado de trabalho e descobre que o mundo é dos profissionais multi-função. Gente que pinta, borda, dança, sapateia, lava, passa e ainda faz alguma outra coisa que exige nível superior antes de dar banho nas crianças. Gente multifuncional da HP diante de quem você não passa de uma impressora matricial movida à lenha. Afinal,veja como vários exemplos de pessoas ferradamente bem-sucedidas envolvem alguém que exerce múltiplas e variadas funções: a) Roberto Justus (publicitário, apresentador,cantor); b) Eri Johnson (ator, jogador de futevôlei, amigo do Romário); c) Junior Lima (cantor, ator, namorado de ex-VJ da MTV). Sim, amigo, não dá pra ter sucesso sabendo fazer apenas uma coisa ou tendo apenas uma profissão, a não ser que essa coisa que você sabe fazer seja namorar a Suzana Vieira. E é visando enriquecer esse seu currículozinho miserável que eu trago cinco sugestões de profissões viáveis e interessantes para te ajudar na conquista de poder, dinheiro, sucesso e se possível um emprego.
DJ: Como qualquer pessoa bem-informada sabe, sempre existiu um grande preconceito em relação ao trabalho do DJ. Muitas pessoas durante muitas décadas consideravam que o trabalho do DJ era apenas dar o play numas músicas, levar uma mala de fitas e arranhar alguns vinis sem necessidade enquanto ficava se mostrando pras gatinhas, o que é uma visão totalmente errada. Afinal, atualmente todos nós sabemos que dá pra levar tudo em um pen-drive e DJs gostam muito mais de garotos do que de garotas. Então é óbvio que mesmo você que não sabe nada de música pode fazer uma playlist qualquer e começar a tocar em algum inferninho. Se você ainda tem alguma dúvida sobre sua capacidade de ganhar um troco como DJ faça como os americanos e se pergunte: “O que Jesus faria?”
Ator: Atuar é algo complicado, que exige estudo, dedicação, preparação e talento natural, além de concentração e sensibilidade. Mas atuar na Record ou fazer Malhação não. Faça um cursinho qualquer na faculdade, entre naquele grupo de teatro da sua rua que vem tentando há seis meses sem sucesso encenar a piada do “não, nem eu”, peça para aquele seu amigo que desde 2002 escreve poesias pra namorada que fugiu pra te escrever um monólogo e se jogue de cabeça na carreira de ator. Afinal, se “Caminhos da Vida” já está na sexta continuação quem garante que o próximo mutante com poder estranho ou o amigo com “La tourette” do mocinho da próxima temporada de Malhação não pode ser você?
Comediante stand up: Uma tendência que você deve ter notado depois da ascensão do Barack Obama e do CQC é que todo mundo passou a querer ser negro e fazer comédia stand-up, com maior ou menor sucesso. Mas como fazer stand-up é mais fácil e não faz com que os seguranças te sigam em lojas de eletrônicos, a arte do humor de pé foi se vulgarizando ao ponto de que qualquer pessoa que se ache engraçada e consiga ficar em pé se considere um humorista de stand-up e vá fazer um show em algum bar onde você pacificamente tentava beber uma cerveja. E bem, se você não pode vencê-los junte-se a eles! Reúna todas aquelas piadas de pontinho, todos aqueles chistes do tipo “sua mãe é tão gorda que…”, invente um personagem estereotipado legal e mãos à obra, meu amigo! Vai que é tua e quando chegar no Zorra Total me convida pra escrever um quadro estrelando o Agildo Ribeiro.
Modelo: Num mundo distante, muito tempo atrás, modelos eram pessoas com uma beleza acima da nossa, caras com um físico hercúleo, traços que lembravam uma estátua grega e que namoravam com outros caras de físico hercúleo e traços que lembravam uma estátua grega. Mas claro, sinal, dos tempos, isso mudou e hoje qualquer moleque magrelo com um cabelo que fizer com que você ache que ele é gay pode ser considerado modelo! Sim, é fácil, é simples, é prático como cozinhar com George Foreman Master Grill! Perca peso, deixe sua tia cortar seu cabelo e pronto, o mundo é seu, bonitão!
Jornalista: Bem, não precisa de diploma… Ok, paga mal, mas por que não?
Top 5 – Músicas pra pedir pra ex voltar
Novembro 16, 2009

Weezer – Put me back together: Da mesma escola de músicas como “Valerie” do The Zutons e “Volta pra casa” do Yahoo, “Not getting better” joga em um esquema clássico do pedido de retorno no namoro: o argumento de que você precisa dela e com ela sua vida é bem melhor. Sem ela você se veste mal, não acorda na hora certa, não chega no trabalho, perde o ônibus, é criticado em casa, não consegue sintonizar a TV, seu time perde todos os jogos, seu cabelo pára de crescer, seu pai engorda, seu cachorro faz greve de fome, sua mãe não acerta o tempero, a vida perde o sentido, o sol para de brilhar e a Heloísa Perisse ganhou programa próprio. Ou seja, o universo se tornou uma merda e ela precisa voltar logo antes que a entropia e as humoristas sem graça dominem o mundo. Bem, se funcionar é ótimo, porque você conseguiu convencer a garota, mas se não funcionar e isso tudo for mesmo verdade…bem…aí você está fodido.
The Police – I can’t stand losing you: Bem, você tentou argumentar, disse que ela faz falta, disse que ela é especial, disse que ela é a mulher da sua vida, e ela não ouviu. Agora você decidiu dizer que vai se matar se ela não voltar e ela que se prepare pra viver com essa culpa na consciência. Admito, é a típica atitude covarde e desesperada do cara que fura a bola quando está perdendo o jogo e rouba nas trocas quando brinca de War, mas pelo menos você tem um projeto. E ninguém disse nada sobre o seu projeto não poder envolver covardia e chantagem emocional, disse?
Jackson Five – I want you back: Ela pode resistir a você pedindo pra voltar. Ela pode resistir a você dizendo que vai melhorar. Ela pode não dar a mínima pro seu sofrimento, pra sua dor, pra sua tristeza. Ela pode rir do seu choro, das suas ameaças de suicídio, da sua cabeça enfiada dentro do forno elétrico (porque, tipo, é engraçado, sabe? não tem gás ali, cara!). Mas ela nada, sim, eu digo, nada, poderá fazer diante do Michael Jackson criança, ainda negro, de black power e usando uma roupa colorida, pedindo que ela dê mais uma chance porque você vai mostrar pra ela o amor que ela quer se ela te deixar voltar pro coração dela. Seria desumano se ela fizesse isso, cara.
Elvis – Are you lonesome tonight: Uma coisa que todos nós tempos que aprender é que neste mundo existem três jeitos de fazer as coisas: o jeito certo, o jeito errado e o jeito do Elvis. Elvis não chora, Elvis não suplica, Elvis não pede perdão, Elvis não dá pinta de quem passou a noite toda chorando sozinho enquanto olhava álbuns de fotos e assistia “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” pela sexta vez. Elvis sabe que se o relacionamento terminou quem perdeu foi ela, que se você está sozinho o mundo das mulheres solteiras sorri, que toda e qualquer garota se rasgaria por um cara feito você. Mas mesmo assim Elvis, cara boa praça que é, aceita dar mais uma (e apenas uma) chance pra que ela reconsidere, sabendo que ela está sozinha, carente, largada e que ele foi o ponto alto da vida dela, depois do qual virá apenas o vazio, a depressão e caras com cabelo menos bonito. É assim que Elvis resolve essas coisas.
Take That – Back for good: Você não entendeu direito porque terminou. Ela estava chorando, falando enrolado, parecia meio bêbada e as coisas que você conseguiu pescar serviam tanto pra justificar um final de namoro, um discurso de despedida do futebol ou uma declaração de guerra no oriente médio. Mas você imagina que a culpa deva ser sua e portanto você deva pedir desculpas já que não quer terminar (além de não querer começar uma guerra no oriente médio). E existe algum pedido de desculpas mais genérico do que “o que quer que eu tenha dito, o que quer que eu tenha feito, não foi de propósito”? É aquela coisa, seja qual for o problema foi sem querer e eu vou resolver, mas se você puder falar de uma forma menos confusa vai facilitar um bocado pra mim.
Menções honrosas
Waguinho – A mina de fé: É impossível falar de músicas sobre retorno de namoro sem citar essa pérola do “você não sabe o que tem até perder” cometida pelo sempre sensacional Waguinho, homem por trás do mega-sucesso “Tô dentro, tô fora” dos Morenos. Não só toda a letra é permeada por um genuíno terror em relação a perda (“eu era feliz sem saber e isso me revolta”) como é impossível não notar que Waguinho realmente mudou sua postura de vida e agora não leva mais aquela vida de dissipação e degradação moral de antigamente (“eu aprendi, não vale nada, noite, farra, madrugada”). Ou seja, mais do que uma canção é o retrato de uma mudança de vida em letra e música. Tocante.
Molejo – Voltei: Pra que se fazer de vítima depois do fim? Afinal, se você tinha problemas, que forma melhor de atrair a mulher amada de volta do que corrigindo suas atitudes, mudando sua postura, buscando se adequar aos elevados padrões que ela estipulou para um parceiro ideal? E é isso que Anderson Leonardo nos ensina. Abandone o cigarro, comece a malhar, pare de freqüentar a zona da sua cidade, acorde cedo, se comporte bem, seja um ser humano melhor! E se ela não voltar? Bem, aí você volta a fazer aquelas merdas todas de novo, é claro.
Top 5 – Canções mais bonitas de Alexandre Pires
Novembro 6, 2009

Mineirinho: Alexandre Pires, como todo grande artista, sempre gostou de desde o começo da carreira, flertar com o complexo, o criativo, o paradoxal. E quer coisa mais paradoxal do que um mineiro fazendo uma música pra falar pra todo mundo que o mineiro é de fazer e não de falar? Com essa canção que é a versão musical de começar a gritar dentro de uma biblioteca para pedir silêncio, o Só Pra Contrariar não só fez self-marketing (e espero que todos eles tenham conseguido pegar alguém graças a isso) como alcançaram as paradas de sucesso e lançaram Alexandre como um sex symbol para o novo milênio.
Interfone: É até um pouco complicado pra mim falar dessa música pelo tanto que ela me emociona. Afinal, eu imagino Alexandre Pires sentado em casa, sozinho, solitário. Ele viu o Jô, ele viu o Intercine (no qual ele tinha votado em “Simples como amar” mas acabou tendo que ver “Fuga de Absolon”) e depois, no auge da derrota, ele viu o Amaury Junior. Aí ele ficou chateado, até eu ficaria. Então ele saiu, entrou no carro e foi, a duzentos por hora, até a frente do prédio da amada. Chegando lá ele foi barrado pelo porteiro que, recém-contratado e nada afeito as revistas de fofoca, ainda acha que Alexandre namora com uma das Scheilas e não entende o que a voz máxima do pagode mineiro está fazendo ali. E então, num gesto de supremo amor e desespero, Alexandre pega o celular, abre seu coração e manda, de lá de dentro, do seu âmago mais recôndito um “mas o porteiro é novo, ele não me conhece, tá cheio de suspeitas, tá desconfiaaaaaaaaado”. Cara, eu estou chorando aqui. É foda.
A barata : Nunca é demais dizer que Alexandre Pires é acima de tudo um pioneiro. Muito antes da Wired, muito antes do Steve Jobs, muito antes dos caras do Google, do Facebook, do Twitter, o ex-vocalista do SPC já trabalhava na música interativa, no pagode 2.0, no partido-alto colaborativo, no samba wiki. Sim, ou o que mais você pode dizer de um samba em que Alexandre lança as bases rítmicas e você mesmo pode continuar a letra de acordo com sua vontade, oferecendo uma colaboração pessoal e inovadora como letrista? Afinal, a barata era da vizinha do Alexandre, mas quem decidia o que fazer com ela era você! Pistolada, sapatada, cabeçada, desintegrada, o poder era todo seu, meu amigo.
Essa tal liberdade: Nessa música Alexandre propõe uma das grandes questões da humanidade, tão complexa quanto o paradoxo do gato de Schrödinger, o “ser ou não ser?” de Hamlet ou o “should i stay or should i go?” do The Clash. Afinal, o que que eu vou fazer com essa tal liberdade se estou na solidão pensando em você? Eu andei errado, eu pisei na bola, troquei quem mais amava por uma ilusão, mas a gente aprende, a vida é uma escola. Não é assim que acaba uma grande paixão. E ainda virou música-tema de propaganda da Malwee, lembra? Gênio, gênio.
Depois do Prazer: Primeira coisa a ser dita sobre “Depois do prazer” é que apenas um campeão, um gênio, um macho-alfa, um predador emocional, é capaz de começar uma declaração de amor com as palavras “tô fazendo amor com outra pessoa” e ainda se dar bem. Mas para Alexandre Pires, um conquistador que ganha pela confusão e dissuasão da mulher amada, isso é pouco, claro. Depois dessa ele ainda manda um verso de extrema complexidade como “a verdade é que eu minto” e a mulher, que não sabia se ele estava indo ou vindo, começa a se questionar que raios está acontecendo ali. E aí, pra fechar, ele manda o “posso até gostar de alguém, mas é você que eu amo”, o que faz com que a mulher perceba que as emoções de Xandeco são tão complexas que Stephen Hakwings era o amigão com quem ele desabafava durante os namoricos de colégio e que resistir é inútil, tem mais é que voltar com o cara antes que ele diga qualquer outra coisa desse tipo e ninguém entenda mais nada. (E claro, não podemos deixar de lembrar mais duas frases épicas dessa canção: “o que o corpo faz a alma perdoa”, um belo verso sobre traição e “emoção foi embora e a gente só pede pro tempo correr” que é evidentemente sobre a incapacidade de Alexandre de achar algo para fazer durante as 7 horas e meia que sobraram na suíte do motel após pegar aquela promoção de pernoite)
Top 5 – Grupos de pagode que não deram tão certo assim
Outubro 31, 2009

Só preto sem preconceito: Primeiro grupo montado por cotas na história da música brasileira (com 100% de cotas para negros) e cujo nome é uma contradição em termos (“sério, não temos preconceito. Mas pode sair daqui, branquelo maldito!”), o Só Preto sem Preconceito era dono de sucessos com títulos tão variados como “Não tão menos semelhante” e “Patinete do Morro”, além de ter sido colocado nessa lista só porque eu achava que eram eles que cantavam “Lá vem o Negão”, mas depois eu pesquisei no Google e vi que não era. Mas me deu preguiça de tirar os caras. Grande presença.
Só no Sapatinho : Eu sinceramente nunca entendi porque o SnS não fez mais sucesso, afinal um grupo de pagode com o filho do Zico é uma idéia tão boa quanto, sei lá, chamar o sobrinho do Zeca Pagodinho pra ser cobrador de faltas oficial do seu time. Humm…ok, talvez dê pra entender porque o grupo não fez tanto sucesso. Donos de um único hit, a música homônima (não, a música não se chama “Homônima”, ela tem apenas o mesmo nome do grupo), o SnS sempre será lembrado por ter composto um dos versos mais “dorgas mano, lol raiaiaia” do pagode nacional,daqueles que você não sabe se são sobre uma mulher ou uma pedra de crack (“vagabundo tá na rua da amargura/anda cheio de fissura/mas sou eu que vou levar”)e, para alguns mais atentos, por ter feito uma das melhores metáforas para contato íntimo que a música brasileira pode oferecer (“deixa eu por a mão no seu bichinho de pelúcia, deixa, deixa?”)
Nabusanfa: Bem, o que mais a gente precisa dizer sobre o grupo Nabusanfa além de que ele se chamava Nabusanfa? Se você ainda precisar de mais eu posso oferecer o refrão do grande (e possivelmente único) sucesso do grupo, a música “Mulher de Borracha”: “mulher de borracha/você se encaixa tão bem/não me esculacha/não fica de chico/e não pega neném”. Sim, é um pagode sobre uma boneca inflável, você não está viajando nessa.
Kiloucura: Único grupo de pagode que também poderia funcionar como restaurante self-service, o Kiloucura imortalizou seu lugar no pagode nacional com o sucesso “Pela vida inteira” e sua semi-coreografia/dancinha esquisita (“e as estrelas lá do céu/eu vou buscar/beijos com sabor de mel/eu vou te dar) e…e…bem…e depois não aconteceu muita coisa. Mas soube que o cardápio de hoje inclui picadinho e o quilo está 18,90 ou então é dez reais sem balança.
Ronaldo e os Barcellos: Autores da única música capaz de dividir com “Temporal” do Art Popular o título de pagode mais derrota da década de 90, Ronaldo e seus Barcellos (existe outro Barcelo além do Caco?) conseguiram marcar uma geração (ou um pouco menos) com seu clássico “Feliz Aniversário”, que contava a história de um cara que telefonava para ex-namorada no dia do aniversário dela para ficar se lamentando ao telefone e fazer algumas ameaças meio esquizofrênicas (“talvez à meia-noite eu ligue pra você/talvez não diga nada pra quem atender/talvez mande um presente pra você saber/que eu nunca te esqueci”) . Provavelmente Ronaldo está atualmente em tratamento e os Barcellos seguiram carreira solo ou estão junto com a Rapaziada que cantava com a Adriana.
Top 5 – Músicas do Molejo que você tem que ouvir antes de morrer
Outubro 27, 2009

Não sei se vocês se lembram, mas existiu uma época muito, muito tempo atrás, num lugar muito, muito distante em que todo mundo ouvia pagode. Sim, todo mundo. Eu ouvia pagode, você ouvia pagode, seu pai ouvia pagode, sua tia ouvia pagode. Isso porque, é claro, em todo lugar tocava pagode. A rádio tocava pagode, na televisão passava pagode, nas festas se ouvia pagode, nas lojas de cd tocavam os cds de pagode. Não, não samba raiz de universitário intelectual, não samba com hip-hop do Marcelo D2, não sambinha MPB nessa coisa Maria Rita/Los Hermanos ou samba rock do Farofa Carioca. Nada disso, meu amigo, era pagode mesmo.
Nomes como Exaltasamba, Soweto, Os Morenos, Só Pra Contrariar e Karametade causavam nas garotinhas incautas o que hoje causam NxZero, Fresno e derivados, só que com mais gente no palco, mais ginga, mais malícia e mais suingue (e claro, menos franja). E nesse panteão onde Alexandre Pires dominava as paradas de sucesso com suas reflexões filosóficas (“o que que eu vou fazer com essa tal liberdade?”, “a verdade é que eu minto”, “ele vai dar uma pistolada na barata dela”), e Belo tocava as almas e os corações com sua poesia cuja criatividade beirava o construtivismo(“derê, derere, dumdum, dê rererere”), surgiu um grupo que representava tudo que de mais descompromissado, mais fanfarrão, mais bizarro, mais sem noção significava o pagode da década de 90: o Grupo Molejo.
Formado em 1993 por Anderson Leonardo, Andrezão e mais um monte de caras que ficavam rodando na parte de trás do palco da Xuxa fingindo que tocavam alguma coisa,o Molejo era conhecido por suas letras irreverentes, brincalhonas, bem-humoradas e na maior parte das vezes totalmente sem sentido, que tanto acrescentaram ao pagode-pop nacional e tanto sucesso fizeram nas rádios. E é em homenagem a esse grupo que tantas alegrias (ou não) deu a todos nós durante tantas viagens de ônibus nos tempos do colégio e que agora retorna ao estrelato com seu novo CD “Todo mundo gosta” que eu me propus a fazer essa pequena lista (afinal, cinco músicas diante de uma obra extensa como a do Molejo é como escolher apenas cinco filmes diante da filmografia completa de Uwe Boll)
Cilada: Sucesso em todas as excursões escolares junto com “Barata da Vizinha” e “Fogo e Paixão”, essa canção foi uma das incursões do grupo na arte de representar as dramáticas histórias de amor e sofrimento das classes menos favorecidas, com o conto de um rapaz que, interessado por uma moça, deixa que ela o obrigue a prestar serviços domésticos na expectativa de recompensas de cunho afetivo. Tente não se emocionar com o genial refrão que diz “não era amor ô ô/não era/não era amor era/cilada cilada”.
Brincadeira de criança: Uma canção feita não apenas para tocar nas rádios mas também para cumprir uma função social: acelerar o processo de sexualização das crianças do Brasil. Mais uma vez o Grupo Molejo dá aquele passo adiante em termos de composição e nos brinda com uma das frases mais memoráveis da música brasileira: “Até que enfim, chora pra beijar, hein!?”.
Samba Diferente: Também conhecida como a “melô do Frei Damião” (“pode quebrar o pescocinho pro lado, vai, vai, vai, vai”), essa bela canção consiste basicamente em uma série de comandos sem sentido que quando combinados formam uma coreografia que estava no estreito limite entre o inusitado, o curioso e o absolutamente babaca. Méritos do grupo que conseguiu fazer com que várias pessoas pelo país inteiro passassem a vergonha de seguir o que eles diziam sem nem pensar duas vezes.
Paparico: Reafirmando sua verve de bardos do proletariado do século XX, Anderson Leonardo e Andrezão retornam com essa história sobre um rapaz que deseja impressionar uma jovem e para tanto usa de artifícios visando mascarar sua desconfortável situação financeira, o tipo de história que deixaria John Ford boladaço. Destaque para o verso sobre o cheque sem fundo no motel. Massa, véi.
Sweet Banana: Clássico do pagode dadaísta, Sweet Banana é uma dessas músicas que à primeira vista não dizem muita coisa, mas que numa análise mais apurada não significam absolutamente porra nenhuma.
Pra não dizer que não falei de Michael Jacksons
Julho 17, 2009

E o Michael Jackson morreu. Morreu, foi enterrado, e com isso criou um nível de comoção que eu não via desde a morte da Lady Di, do Frank Sinatra ou do Super-Homem (ainda que só um deles tenha voltado), com notícias pipocando pelo mundo todo, programação temática em diversas emissoras e um funeral que foi transmitido para todo o mundo e praticamente parou a twittosfera, com exceção do Pedro Neschling, que dizia estar olhando pra lua. Todos muito sentidos, todos mundo emocionados, todos muito consternados. Todos falando sobre a obra, o legado, o trabalho, o sucesso, a história profissional impressionante do finado rei do pop. Claro, tudo muito natural, tudo muito bonito, tudo muito fofo. Mas acaba sendo mais um exemplo impressionante de como morrer é uma das melhores políticas de imagem de todas.
Afinal, tente se lembrar do que era MJ antes da morte. Três semanas atrás, se isso te ajudar. Um ex-artista falido em atividade, famoso mais por seus escândalos pessoais envolvendo pedofilia, pendurar crianças pela janela, agir de forma estranha e ser desprovido de nariz.Suas músicas não vinham fazendo sucesso, e nos últimos anos ele tinha criado tantos sucessos quanto eu e Jorge bem Jor, com a diferença de que dos três eu era o que estava tentando com mais afinco. E por favor não venha me dizer que não era assim que ele era retratado pela mídia, já que sua música havia saído do foco da imprensa desde o lançamento de Invincible, em 2001. Ele era motivo de piada, chacota, zoação e até garotos de segunda série faziam piadas sobre Michael Jackson sem medo de nenhum tipo de repreensão moral. Até que ele morreu. E a morte é o ponto alto da vida de um artista pop, como diria Neil Gaiman se pensasse sobre esse tipo de assunto.
Depois da morte MJ subitamente se redimiu de qualquer pecado. Nunca foi suspeito de ser pedófilo, nunca foi esquisito, nunca mudou de cor, sempre teve nariz, nunca balançou crianças na sacada. Claro, entendo que num grande artista a obra é um legado mais importante do que a vida (Wagner não era exatamente um cara legal, Frank Sinatra era mafioso e Dado Dolabella é meio babaca as vezes, pra citar exemplos) mas isso simplesmente apaga todo o resto? Não estou dizendo que diante de uma morte não seja de bom tom deixar fora da discussão certos aspectos da vida do falecido, mas será que não há nisso um toque de cinismo? Afinal, as mesmas pessoas que antes chamavam Michael de vilão do He-Man agora pegam em tacapes diante de qualquer menção menos do que carinhosa e simpática ao astro do pop e isso é no mínimo uma coisa estranha de ver. Por que é tão fácil e divertido caçoar dos vivos, que estão aqui pra sentir na pele e tão incorreto fazer a mesma coisa com os mortos? Medo de que a mãe deles esteja por perto? Medo de que puxem nossos pés a noite?
Perdoar, esquecer, passar por cima, é claramente uma virtude, mas será que só a merecemos depois da morte? Quer dizer, será que temos mesmo o direito de julgar alguém, mesmo que sua vida seja pública e seus atos, queira ou não, se tornem referência? E até que ponto esse “forget and forgive” é perdão sincero e em que nível ele é apenas uma fuga dos fatos ou preguiça de pensar numa opinião de verdade?
É provável que nunca tenham sido boas as piadas sobre Michael Jackson, que na verdade era um artista brilhante vivendo em um mundo no qual evidentemente não se enquadrava. É provável que a cada vez que eu disse que ele seria processado pela Nestlé por só gostar de Garoto eu tenha realmente “derrubado uns cinco tijolos na minha casinha no céu”, como diria a minha avó. Mas eu acho, e digo isso com sinceridade, que se queríamos ser compreensivos, gentis e respeitosos com o finado Michael Jackson nós todos chegamos no mínimo meio tarde.