500 Dias com Ela

Cotação: 7/8

Tom: What happens when you fall in love?
Summer: You believe in that?
Tom: It’s love, it’s not Santa Claus.

O gênero da comédia romântica é, assim como as piadas envolvendo o time do Fluminense e as capas de Caras falando da vida pessoal da Adriane Galisteu, algo que parece já ter sido explorado até a exaustão. Garoto conhece garota, primeiro há um conflito inicial que os aproxima, depois existe a felicidade abobada, depois existe um segundo conflito que os separa e no final eles superam esse segundo conflito de forma impressionantemente fofa e ficam juntos num final feliz com alguma música bonitinha ao fundo, numa fórmula que vem sendo repetida e repetida, com poucas alterações, desde as comédias em preto e branco do tempo em que vovós não falavam sobre sexo em propagandas de chinelo. Por isso é tão interessante ver algum filme que consegue, não diria fugir desse “esquema”, mas trabalhar com ele e usar a linguagem própria das comédias românticas de forma criativa e inteligente. E “500 dias com ela” conseguiu fazer isso, com méritos.

Tudo começa com a sinopse que descreve o filme bem melhor do que eu posso conseguir: “Boy meets girl. Boy falls in love. Girl doesn’t”. O “garoto”, Tom Hansen (muito bem interpretado por Joseph Gordon-Levitt, o moleque etê de 3rd Rock), conhece a “garota”, Summer (Zooey Deschanel, se estabelecendo no papel de melhor mocinha linda/estranha do cinema atual) e fica apaixonado por ela, tendo seu coração partido quando ela termina o “caso” por não querer nada sério no relacionamento. O que vemos então é a jornada de Tom para esquecer aquele que ele considera o amor verdadeiro da sua vida, contado através de cenas que vão intercalando os momentos de vários dos 500 dias que se passaram desde que ele conheceu Summer até o desfecho do filme, num jogo de comparações e revisões sobre todas as fases do relacionamento. Mas o que vale no filme, tanto quanto a jornada do protagonista passando por todas as fases de uma relação, é a forma como o roteiro e o diretor nos guiam por esse caminho.

Marc Webb, diretor estreante e recém saído do mundo dos videoclipes (onde já dirigiu dois belos clipes do Weezer), conduz a jornada de Tom revisitando todas os clichês e metáforas da comédia romântica, com direito a toda a metalinguagem necessária pra uma obra que tanto analisa quanto homenageia o gênero. Vemos lá a felicidade do rapaz que conquista sua amada (traduzida numa cena musical genial e numa “participação especial” de Harrison Ford), vemos os momentos de alegria boba, intimidade dividida e romantismo quase constrangedor, mas também somos testemunhas dos pequenos percalços, das crises e do final angustiante da relação, tudo isso ambientado por uma cinegrafia inteligente, um roteiro muito bem amarrado e uma das melhores trilhas sonoras dos últimos anos (vale destacar o momento em que o protagonista ataca “There comes your man” do Pixies no karaokê, por exemplo), além de várias pequenas referências cinematográficas e de cultura pop que tornam o filme ainda mais interessante.

Mas o principal valor do filme é a capacidade de, mais do que revisitar os conceitos clássicos que formam uma comédia romântica, saber retratar esses conceitos com a dose necessária de autenticidade. A crença sorridentemente boboca do amor romântico permeia todo o filme? Claro que sim. Mas anda de mãos dadas com a idéia de que isso no final não faz sentido nenhum. E a trajetória de Tom acaba refletindo isso, esse conceito que foi descrito pelo diretor, logo antes do começo do filme, como “a colisão entre o que você espera da vida e o que você pode encontrar”. Ou, como o filme e muitas vezes o mundo real acabam mostrando, a colisão entre o amor que você espera e o amor que você consegue, e o seu caminho até conseguir encontrar um ponto em que o segundo seja o mais parecido possível com o primeiro.

*Se tiverem tempo procurem pelos outros pôsteres do filme, existem várias versões e são todas excelentes.

Movie Review # 7

Junho 20, 2009

A Mulher Invisível

Cotação 6/8

Uma coisa que sempre me ressentiu um bocado em boa parte do cinema nacional é que ele não parecia ser feito exatamente para o público e sim para o autor.  Não que eu tenha nada contra o cinema autoral, mas sempre achei que o conceito seria mais o de passar uma perspectiva autoral através da obra e não o de fazer uma obra que apenas o autor e alguns estudantes de cinema conseguissem gastar algumas horas apreciando (mas vocês podem em chamar de americanófilo vendido e inimigo da arte, eu vou entender). Por isso eu não nego que chego a ficar feliz com a intenção que parece ter surgido nos produtores de cinema brasileiros de fazer filmes que, ó supremo mistério da indústria, o público realmente possa, em algum momento, sentir alguma vontade de ver por alguma razão que não a de impressionar as garotas no bar do DCE. Claro, nesse processo surgiram criações que vão desde filmes malas como “Dois filhos de Francisco” e “Olga” até filmes realmente divertidos e que te motivam a pagar uma entrada de cinema, como “Meu tio matou um cara” e, claro, “A Mulher Invisível”.

Com direção e roteiro de Cláudio Torres (do irregular mas interessante “Redentor”), o filme conta a história de Pedro, um cara extremamente romântico que, após ser abandonado pela esposa, que alegava que a vida deles era “segura demais”, se afasta do mundo e acaba conhecendo a mulher perfeita, sua vizinha Amanda. Ela adora tudo que ele faz, é linda, não reclama de nada, em suma, ela é perfeita mesmo. Ela só tem, é claro, um defeito. Ela não existe.

Bem, procurando na sua mente você vai achar que já viu isso antes, e provavelmente já viu mesmo, mas é aí que está a graça do filme: “A mulher invisível” não tem medo de ser um filme “normal”, em nenhum instante. Está ali toda a fórmula do cinema americano, desde a divisão do filme em três atos e um epílogo até o melhor amigo engraçado do mocinho, a vizinha real que é tão interessante quanto a vizinha imaginária, toda aquela aura de “familiaridade” que os americanos aprenderam que o cinema precisa ter se quiser lotar salas e fazer dinheiro. A diferença é que Torres conseguiu ao mesmo tempo contar uma história que pode atrair o público sem pra isso abrir mão de contar uma boa história, e se cercou de ótimos atores, além de ter escrito um bom roteiro.

Primeiro Selton Mello. Bem, o Selton Mello é foda. Ele dublou Peanuts, ele fez o João da Ega em “Os Maias”, ele é um dos poucos atores brasileiros “jovens” que consegue carregar um filme nas costas (acho que o outro seria o Wagner Moura) e, se as minhas expectativas em relação a “Feliz Natal” se concretizarem, vai ficar provado que o cara também é um ótimo diretor. E ele fez piadas sobre o Oswaldo Montenegro nos “Aspones”. O que mais eu posso dizer de um cara desses? A atuação dele, ainda que numa onda careteira meio “Jim Carrey”, é excelente e serve pra ancorar o filme. Mas isso você provavelmente só vai entender quando, lá pro final, ele para na frente do elevador e começa a dizer “eu estou bem, eu estou bem, está tudo bem”. Sensacional, mesmo.

Luana Piovani faz o papel que é possível pra Luana Piovani fazer, e cumpre muito bem a tarefa de ser “a mulher dos sonhos”. Não foi aquela atuação toda (mesmo porque não precisava ser), mas conseguiu contar a história da forma que precisava ser contada e colocar a autenticidade necessária nas falas. Pedir mais o que, né? Vladimir Brichta fez o papel de malandrão que ele sabe fazer tão bem e Maria Manoella (de quem eu nunca tinha visto nada), se saiu sensacionalmente bem no papel da vizinha, aquela coisa de mocinha tímida de comédia romântica, se encaixando totalmente.

Espero mesmo que o filme dê uma bela grana, porque vale a pena ser visto (ainda que, depois de pegar uma sessão de sábado a tarde e notar que na sala estávamos apenas eu, um casal de garotas e um velhinho que parecia bêbado, eu não sei o que pensar) e é mais um passo rumo a conseguir conciliar uma indústria cinematográfica nacional de qualidade com uma produção autoral significativa e influente. Meus próximos compromissos com o cinema nacional agora são “Apenas o fim”, do Matheus Souza, que parece ser uma comédia romântica/dramática nacional com toques de cultura pop(?!) que eu duvido que vá passar em Juiz de Fora e o documentário sobre o Simonal, o tipo da idéia que lá fora daria uma mini-série premiada com vários Globos de Ouro e um filme com Oscar pro Jamie Foxx, mas no Brasil tende a não passar nem uma semana em cartaz.

De qualquer maneira esse é um filme que vocês deveriam ver, fosse ele brasileiro, americano, inglês, búlgaro ou indiano (ainda que na Índia um filme com um protagonista controlador de tráfego fosse ser beeeem mais engraçado. “Acidente envolvendo uma vaca e uma van cheia de crianças na avenida principal, Nandra. Mande alguém lá pra salvar a vaca, agora!”), mas que por ser nacional ganha toda uma simpatia especial e merece o nosso incentivo. Eu recomendo. (mas nem a pau devolvo seu dinheiro se você não gostar, claro…)

Movie Review #6

Maio 18, 2009

X-Men Origens : Wolverine

Cotação: 4/8

Eu sou uma pessoa que se sente profundamente estimulada pela incapacidade alheia e profundamente intimidada pela genialidade dos outros. Por exemplo, quando eu estou escrevendo alguma coisa eu gosto de ler livros de autores ruins, porque me dão auto-estima e coragem para continuar escrevendo, enquanto livros realmente legais acabam me desanimando, porque eu fico pensando que nunca vou chegar naquele nível e desisto temporariamente de escrever. O mesmo vale pra filmes, músicas, tiras e tudo mais. E bem, tenho que admitir que depois de assistir “X-Men Origens: Wolverine”, eu passei a me sentir imensamente convicto de que posso ser um roteirista profissional e quem sabe um diretor em Hollywood.

Antes de tudo quero explicar que nunca gostei do Wolverine como personagem. Não que eu não goste do conceito, não ache que ele tem ótimas histórias, não compreenda o conflito, mas é um personagem com o qual eu simplesmente não consigo ter a ligação que eu tenho com o Homem-Aranha, os Lanternas Verdes, o Impossível ou até mesmo o Homem Formiga. Simplesmente não consigo ver a graça da coisa. Mas o mesmo acontece com personagens como Batman e Homem de Ferro, e mesmo assim eu achei os dois filmes do morcego e o filme do ferroso simplesmente sensacionais, acima de qualquer crítica, ou seja, eu fui assistir Wolverine com o coração aberto e a maior boa vontade possível, não só porque achei que a Fox poderia ter dado uma bola dentro como também achei que, oras, se tinha o Deadpool não poderia ser tão ruim assim. Mas foi.

Primeiro vamos ao roteiro, uma verdadeira salada mista de referências, cronologias e personagens. Não vou comentar o verdadeiro estupro aos cânones dos quadrinhos que foi a história concebida por David Benioff e Skip Woods, porque seria pura nerdice reclamar que Emma Frost nunca foi irmã da Raposa Prateada(que na verdade era uma nativa-americana), que não existe nada disso de Logan e Creed serem irmãos, que Chris Bradley nunca fez parte do núcleo original do Arma X ou que Deadpool tinha poderes de regeneração e habilidades como mercenário, mas NUNCA teve rajadas óticas, teletransporte, super-sopro, padrinhos mágicos ou coisas do tipo. Sério, resmungar sobre isso seria como reclamar da teia orgânica do Homem-Aranha, do Rei do Crime ser negro em Demolidor e de terem matado o Ciclope em X-Men 3. Por isso eu nem vou tocar nesses assuntos, prometo.

Mesmo levando em consideração que o público-alvo era não-nerd e aceitaria esse tipo de incorreção sem grandes problemas, o roteiro ainda é esburacado, algumas cenas não fazem muito sentido e certos personagens são trabalhados de forma apressada e tosca. Claro, dá pra aceitar que Creed não precise de grandes motivações para agir como um babaca, afinal, ele é um babaca, mas que história é aquela do Stryker de “ele vai me matar mas eu vou apagar a memória dele, hahaha!”? Que tipo de vingança vilanesca é essa? E que ilha secreta é aquela onde todo mundo chega, entra e sai na hora que quer? E como assim Gambit dá porrada no Wolverine? E como isso tudo se liga com os filmes dos X-Men? Afinal, Wolverine não lembra que é irmão do Dentes de Sabre, eu entendo isso, mas como o Creed não lembra que é irmão dele em X-Men I? E como ele passa de militar mau e malandrão para capanga bicho de pelúcia? Vão explicar isso em Wolverine II?

Claro, Hugh Jackman se sai malandramente bem no papel do carcaju, ainda que numa atuação mais canastra do que a da trilogia dos X-Men e Schreiber faz um Creed aceitável, ainda que mirrado demais pro padrão dos quadrinhos (nos quadrinhos Wolverine é baixinho e Creed é bem grande). Mas o resto do elenco é uma suruba caótica, com exceção de Ryan Reynolds que parece ter um certo futuro num filme solo do Deadpool (se ainda for possível fazer um filme solo do Deadpool depois dessa cagada de pato que foi feita com a origem do personagem). Sobre a participação do cara do Black Eyed Peas eu sinceramente prefiro não comentar e espero que não tenhamos Vanilla Ice em “Wolverine Origens: Magneto”…

Em resumo: Wolverine é um filme de ação pra se assistir não com o cérebro em ponto morto como Adrenalina ou X-Men, mas sim pra assistir com o cérebro em marcha-ré e possivelmente com o motor meio fundido. Num projeto que tinha enorme potencial, a necessidade de enfiar o máximo de personagens possível (ainda que de forma bizarra e desrespeitosa) e de buscar mais o apelo comercial do que contar uma boa história acabou levando a um resultado bem meia-boca que pode ter agradado a certas parcelas do grande público, mas deixa um fã de quadrinhos mais perdido do que o cara do chinelo no Pânico na TV (“Cadê o meu chinelo? Cadê o Deadpool? Cadê o meu chinelo?!”). Não vou comentar especificamente o trabalho do diretor porque ficou claro que ele dirigiu com o revólver da Fox na cabeça e não teve culpa no resultado final. Mais uma vez, assim como em Wanted, é melhor ler o material original e deixar o filme quem não gosta de quadrinhos.

Movie Review #5

Janeiro 11, 2009

“Zack and Miri make a porno”

Cotação: Inaplicável*

zack-and-miri

Como eu já contei aqui (ou aqui, ou aqui, ou até mesmo aqui, não me lembro bem) a primeira vez que eu vi um filme do Kevin Smith foi numa noite vazia, na Bandeirantes, e o filme era “O Balconista”. Desde então Kevin Smith virou pra mim uma referência em termos não só de cinema como de produção criativa como um todo, assim como um exemplo de ser humano e criatura viva num contexto mais amplo da criação cosmológica. Se pra mim o Weezer é a grande banda que os Beatles poderiam ter sido de Lennon andasse com as pessoas certas e eles deixassem o Ringo interferir mais nas músicas, Kevin Smith é o cineasta que Orson Welles poderia ter sido se lesse as histórias em quadrinhos certas e tivesse uns amigos menos sérios.

Apenas para ilustrar com um último exemplo o meu respeito pelo trabalho do pai da pequena Harley Queen, sempre que eu ouço alguém criticar Kevin Smith eu apenas pergunto pra pessoa a religião e o nome do pai, pra poder dizer que a fé dela e uma mentira e o pai dela é gay. Simples assim.

Por isso fazer uma resenha minha de um filme do Kevin Smith é algo tão suspeito quanto a resposta da pergunta “gosta mais da mamãe ou do papai?”. (Segundo relatos de minha tia eu teria respondido a essa pergunta, quando tinha cerca de 3 anos, dizendo que gostava mais do Batman. O que é uma resposta obviamente infantil e meio sem sentido. Afinal, o Homem-Aranha é bem mais legal…). Kevin Smith é, a meu ver, um dos maiores cineastas que a minha geração teve a chance de assistir. Seu humor é ágil e afiado sem ser elitista ou excessivamente intelectual, suas tramas envolvem sem ser simplistas, sua direção é segura e competente sem tentar extravagâncias, e suas escolhas de elenco são brilhantes, levando em conta que com ele até o Ben Affleck se torna um grande ator.

Sim, algumas pessoas podem dizer que ele é grosseiro, que ele abusa da escatologia (“xixi/cocô”), que ele é auto-referencial, que ele é cinema pra nerd ou até mesmo que ele é gordo. Mas fora a acusação de obesidade, nada disso é verdade. Smith é tão grosseiro quanto qualquer boa conversa de amigos, tão escatológico quanto as histórias que você conta quando está bebendo com seu irmão, tão auto-referencial quanto toda a cultura pop atual e tão nerd quanto…quanto…quanto algo bem nerd, mas engraçado…quanto aquele vídeo do Darth Vader sendo babaca e fechando a porta da salinha dele, por exemplo!

E mesmo que ele fosse isso tudo, ele compensa qualquer defeito com a identificação que as tramas dele oferecem pra uma grande parte de um público que nunca foi tão bem representado nos cinemas: os caras de vinte e tantos (ou trinta e poucos) e com problemas em relação as suas perspectivas de vida, seja no trabalho ou na vida pessoal, mas que não ligam muito pra isso e continuam bebendo suas cervejas e vivendo sua rotina. Smith mistura quadrinhos, cultura pop, cinema, literatura, música, amizade, superação pessoal, romantismo, piadas sobre fluidos corporais e declarações de amor feitas através da porta do banheiro com a simplicidade e a sinceridade de quem está fazendo um filme pra amigos ou contando uma história enquanto joga playstation contigo, não se levando à sério e não te pedindo pra levar nada daquilo á sério.

Ah, e falando sobre o filme: Zack (Seth Rogen) e Miri(Elizabeth Banks) são dois amigos de infância que, quando percebem que estão sem um centavo e sua luz e água foram cortados, decidem fazer um filme pornô pra conseguir dinheiro. Simples assim, mas escrito e dirigido por Kevin Smith.

Observações:

-Nunca pensei que eu fosse dizer isso sinceramente na minha vida, mas Brandon Routh ganhou o meu respeito pela sua participação especial no papel do amigo de infância gay da Miri. O diálogo entre ele e Justin Long é um dos melhores momentos bizarros do cinema em décadas.

-Eu realmente nunca imaginei quantos trocadilhos a língua inglesa proporcionava com a palavra “cock” até ver esse filme.

-A audição do título nacional (“Pagando bem que mal tem?”) levanta duas possibilidades sobre o conteúdo do filme: a)pornô-chanchada com o Costinha; b)pornô com ex-paquita, lançado pela SexxyStars. Obrigado pelo excelente trabalho, pessoal!

-Eu faço piadas sobre o Ben Affleck, mas é apenas por inveja. Ele é amigo do Kevin Smith e pai dos filhos da Jennifer Garner, isso basta pra mim.

Movie Review #4

Outubro 10, 2008

“O Procurado”

Cotação: 2/8

Quando eu li “Wanted”, a minissérie de Mark Millar e J.G. Jones na qual o filme “Procurado” se “baseia”, isso já há alguns anos, eu me lembro de ter pensado “caramba, aí está um roteiro do carvalho pra um filme de ação”. Tínhamos um mote clássico da “jornada do herói”, com um perdedor que descobre ser filho do maior assassino do mundo e é recrutado por uma irmandade de vilões para sair chutando bundas por aí; tínhamos já alguns papéis bem legais nos quais dava pra encaixar desde um astro novato ascendente até uma atriz gostosa altamente requisitada e um ator experiente clássico que trouxesse credibilidade ao filme; e claro, tínhamos pretexto para algumas das cenas de ação mais absurdamente legais que o cinema já tivesse visto.

Então a minha reação quando anunciaram uma adaptação para os cinemas foi de felicidade total, afinal, ia sair do papel uma das coisas mais irresponsáveis e divertidas que eu já tinha lido nos quadrinhos. E cara, tinha Angelina Jolie no papel da gostosa! Cool! James Mcavoy como Wesley Gibson! Legal! E Morgan Freeman faria o papel de Sloan! Mas quem era Sloan? Não tinha nenhum Sloan! E começamos a descer a ladeira. Me deixem explicar por que.

Nos quadrinhos Wesley Gibson é, assim como no filme, um cara ferrado, vivendo uma droga de vida e é recrutado por uma organização secreta de super-vilões que diz a ele que, por ser filho do maior assassino que já existiu, ele é parte do grupo e pode fazer o que quiser. Sim, o que quiser. Não existem mais super-heróis, todos estão mortos, então os vilões dominam o mundo secretamente e podem fazer o quiserem sem medo, incluindo matar, estuprar, roubar, tudo. E claro, ele é uma máquina de matar natural, incapaz de ser contido. E nisso reside uma das questões mais legais da história: o que você faria se não tivesse que se preocupar com as conseqüências? Se tivesse um passe livre para fazer tudo que quisesse com quem quisesse?

Como pano de fundo temos a busca dele pelo assassino do pai e o conflito entre as facções de supervilões (cada grupo controlando um continente) que vão se entrelaçando até um final que, se não é genial, é totalmente divertido.

No filme saem de cena os super-vilões, e os roteiristas, alegando que isso daria mais “veracidade” ao filme, forjaram o conceito de uma liga de assassinos formada por um grupo de tecelões para matar pessoas indicadas em um pedaço de tecido criado por um tear gigante. Ou algo assim. Beeeeem melhor do que super-vilões, claro, óbvio. O filme começa a enveredar então por uma série de erros de roteiro, reviravoltas óbvias e cenas de ação absurdamente inexplicáveis, tudo isso comandado em ritmo de “Guardiões da Noite” pelo diretor russo Timur Bekmambetov, que até sabe dirigir uma cena divertida de ação, mas não poderia se sair bem com um roteiro infame como esse.

James Mcavoy, o fauno Túmus do primeiro “Crônicas de Nárnia” se sai bem no papel e consegue se salvar, mas Morgan Freeman evidentemente não precisava desse filme na vida dele, assim como Angelina Jolie, que ainda é muito válida, mas tem que aceitar que em breve vai ter que passar o papel clássico de “gostosa randômica” pra outras atrizes.

No final das contas “Procurado” acaba sendo o desperdício total de um bom conceito, perdido em um roteiro no mínimo tosco, que transformou o filme em um apanhado de cenas de ação e balas que fazem curva. Não recomendo e enfatizo: se quiser saber como esse filme poderia ter sido legal, procure “Wanted” em alguma comic shop ou compre na internet. Ou baixe na internet pra ler. Mas não diga que eu recomendei uma coisa dessas…

P.S: Alguém poderia me explicar a cena dos ratinhos, no final? Sério, eu não consigo aceitar que o roteiro tenha sido tão idiota, eu é que não devo ter entendido…Como ele colocou os relógios de pulso em todos aqueles ratos?

Movie Review #3

Agosto 17, 2008

O Incrível Hulk

Cotação 4,5/8

O primeiro filme do Hulk não era um “filme do Hulk”. Era um filme do Ang Lee sobre o Hulk, o que é uma coisa totalmente diferente. É como se chamássemos Quentin Tarantino para dirigir um filme do Justiceiro. Seria um baita filme? Provavelmente. Mas não seria um “filme do Justiceiro”, seria um filme do Tarantino. Ang Lee fez um filme sensível, criativo, reflexivo…e que era uma droga. Por isso a intenção da Marvel Studios com esse novo filme do Hulk era basicamente ignorar o filme anterior e começar novamente a franquia, do jeito que ela “deveria ser”.

A primeira escolha acertada foi a de Edward Norton. O ator não só encampou a produção, atuando, produzindo e reescrevendo o roteiro, como deu asas para toda a sua nerdice interior, se tornando Bruce Banner e ajudando a criar um filme baseado não só nos quadrinhos, mas principalmente na antiga série televisiva . Outra boa escolha foi a de Louis Leterrier, o diretor de “Carga Explosiva”, para comandar o filme. Isso garantiria menos sensibilidade e mais explosões, bombas, coisas voando, coisas explodindo e voando, e bombas voadoras explodindo. E o terceiro fator foi a intenção da Marvel de criar um universo coeso nos cinemas, unindo e vinculando as tramas de seus filmes, como ficou claro também no filme do Homem de Ferro.

Temos então um excelente filme? Menos, bem menos…O filme começa com Bruce Banner morando na Rocinha (?!) e trabalhando em uma fábrica de sucos (?!²) enquanto busca a cura para seu problema, um pequeno problema verdade chamado Hulk. Temos então uma breve recapitulação da história do Hulk, com sua origem ligada, assim como no primeiro filme, a um experimento bioquímico (e não atômico, como nos quadrinhos) e sem toda aquela história de pai cientista maluco e cachorros mutantes bizarros, e sua fuga ao redor do mundo desde então.

Porém, então, entretanto, um dia Bruce deixa cair uma gota de seu sangue em uma garrafa do suco (?!) produzido na fábrica onde trabalha como faxineiro-técnico eletricista (?!³) e isso é rapidamente (?!¹²) descoberto pelo General Ross, pai da ex-namorada de Bruce e responsável pela experiência na qual Bruce sofreu seu acidente. Começa então a caçada pelo cientista dentro da favela, capitaneada por Emil Blonski, um militar especialista em localizar pessoas, interpretado pelo sempre esquisito Tim Roth. Eles, é claro, tomam uma bifa, afinal, gringo subindo o morro acaba se dando mal com ou sem Hulk. Bruce se decide então a ir até os “US and A” em busca de mais dados para sua pesquisa por uma cura.

Chegando lá ele encontra não só os dados, como também sua ex, Betty Ross (aaaahhhh, Liv Tyler…Ahhhhhh….), e o novo namorado descartável dela, o psiquiatra Leonard Samson. Mas deixa pra lá, ninguém se importa com ele mesmo. A caçada se torna então mais intensa, principalmente quando uma versão do soro do supersoldado (sim, aquele que criou o Capitão América) modificada com radiação gama (sim, a radiação que ajudou a criar o Hulk) é injetada em Emil Blonski, que se torna o Abominável. Conseguirá Bruce Banner se livrar de sua maldição? Ele aprenderá a controlar o Hulk em prol de um bem maior? Usará Liv Tyler mais roupas com decote? Conseguirei eu uma garrafinha do suco feito pelo Dr. Banner?

O filme consegue manter um bom ritmo, com ação intensa e excelentes atuações, principalmente de Norton e Roth, mas fica claro, em vários momentos, que o plano do roteirista e do diretor era um filme maior, que faltam algumas peças, que alguma coisa na montagem não saiu exatamente como se esperava. Empolga? Sim, mas não tanto quanto poderia, ainda que seja bem melhor do que muitos de nós esperávamos que fosse. Mas pavimentou o caminho para o início de uma franquia que pode se desenvolver com sucesso. E pelo menos nesse filme “Hulk Esmaga!”, o que é um ótimo começo. Mas continuo esperando o filme do Homem-Formiga…

P.S: Muito boa a aparição de Tony Stark ao final do filme, oferecendo uma solução para o “problema Hulk”. Cada vez fica mais claro que teremos um sensacional filme dos Vingadores por aí, além da certeza de que Robert Downey Jr. conseguiu empatar com Cristian Bale na lista dos caras fodões dos filmes baseados em quadrinhos. Até, é claro, sair “Watchmen”. In Homem-Coruja I trust!

P.S.2: Sempre comovente a forma como o exército americano é retratado, assim como seu respeito pelos direitos civis. Afinal, eles invadem território estrangeiro dando tiros como se distribuíssem doces, levam tanques de guerra e armas sônicas para um campus universitário, e pra colocar a cerejinha no bolo, destroem Nova York (na verdade o Harlem) sem pensar duas vezes, com direito a mísseis em prédio aparentemente abandonados (mas aparências enganam, eu sei) e coisas do tipo. É aquela coisa “Join the army. Meet interesting people. Kill them.”, como diria o Steven Wright.

Movie Review #2

Julho 31, 2008

John Rambo (Rambo IV)

Cotação 6/8

Sim, temos mais um filme do Rambo. E para definir esse filme precisamos de apenas duas frases “O Ministério do Turismo de Myanmar não recomenda” e “Se sujar faz bem”.

Você não soube Myanmar

Mas vamos começar do começo. Como em todos os filmes da série, lá está nosso amigo John Rambo levando sua vida tranqüila, caçando cobras e dirigindo um barco velho por rios asiáticos repletos de piratas assassinos, num daqueles momentos de chill out que apenas Rambo sabe ter. Aí, é claro, surge alguém para estragar toda essa felicidade e alegria. Dessa vez são alguns malditos missionários cristãos americanos que, por viverem em um país onde não existe fome, preconceito ou sofrimento, decidem ir até Myanmar numa missão humanitária. Ou seja, gente sem mais o que fazer. Eles pedem a Rambo que os leve em seu possante barco velho até o pais em guerra para que possam ajudar a sofrida população oprimida de lá, mas Rambo se nega. Até que uma missionária loira, com a roupa colada no corpo por causa da chuva, pede exatamente a mesma coisa. E Rambo diz que tudo bem. Ah, então tá bom.

Nessa hora você deve estar se perguntando “mas por que raios Myanmar?!”. Bem, todo mundo sabe que os filmes do Rambo funcionam porque ele é colocado contra o mal absoluto, contra aqueles vilões que são tão ruins, mas tão ruins, que você consegue aceitar qualquer tipo de medida que o simpático John tome contra eles, desde estripar até degolar com uma espátula de patê. E bem, o exército de Myanmar, pelo menos segundo o filme, é um exemplo de maldade. Além de perseguir de forma sanguinária minorias étnicas pelo país todo, eles também matam crianças (todas), estupram mulheres (várias vezes por dia) e abusam de adolescentes (de ambos os sexos), além de ter como hobby forçar as pessoas a andar sobre minas terrestres. Ou seja, só gente legal, daqueles que você queria ter no seu prédio. E bem, você deve ter reparado que eu chamo o país de Myanmar, mas no filme todo mundo chama de Burma…Bem, isso é mais um exemplo de maldade: o governo de lá é tão ruim que mudou o nome do país assim, do nada, sem consultar a população! Ou seja, os caras são tão sem coração que mudam o nome do país e de várias cidades sem nem avisar! É como se você acordasse e descobrisse que agora mora na Zuzubalândia e não no Brasil…

Se sujar faz bem!

E onde tem problemas, temos Rambo! Liderando uma equipe de mercenários (também desocupados…) ele se embrenha pela selva para resgatar os missionários que, é claro, foram capturados pelo sacana exército burmanês. E aí a farra começa. Cabeças voando, joelhos explodindo, sangue jorrando como em um bom filme de guerra sem noção, e Rambo praticamente dizimando o exército de todo um país para salvar uma meia dúzia de desocupados. Stallone prova que definitivamente não está velho demais para o rock’n roll, com belas cenas bizarras de tiros estourando crânios, perfurando barrigas e claro, a cena clássica da metralhadora com munição infinita (terá ele usado algum macete de Duke Nuken? Cheater!) e um resgate final que traria um sorriso ao rosto de George W. Bush. Destaque para a cena da festa dos soldados, em que eles, bêbados, espancam e estupram varias garotas até que um deles (desocupado também, claro) tira uma bomba de fumaça vermelha do bolso e faz com que todos tenham que sair do local, porque não dá pra ver nada. Além de maus, são burros! Enquanto isso, o líder do pelotão deixa intocada a prisioneira loira e se tranca no quarto com um menino vietnamita…Ê pessoal ruim!

No geral, mantém o alto nível da franquia, com muito sangue, pouca lógica e nenhum respeito pelas convenções da ONU. Assista se você gosta de sangue e atores de boca torta.

Movie Review #1

Julho 10, 2008

Big Nothing/Numb

Cotação 5/8

Eu gostaria de assumir abertamente, antes da resenha “combo” dos filmes “Numb” e “Big Nothing”, que sempre fui um fã declarado de “Friends” e especificamente admirador do trabalho do Matthew Perry. Na verdade, eu comecei a gostar mais dele depois de “Studio 60”, mas em “Friends” ele era bem legal. E nem falo isso pela minha identificação com o Chandler, mas sim porque eu realmente acho o cara um bom ator (dentro das limitações dele). Mas bem, vamos as razões pelas quais eu resolvi resenhar os dois filmes no mesmo texto: além da semelhança temática que em breve vai ficar clara pra vocês, existe o fato dos dois serem protagonizados por ex-Friends (Matthew Perry em Numb e David Schwimmer em Big Nothing), além de tratarem de pessoas com distúrbios mentais de algum tipo.

Em “Big Nothing” Schwimmer é um escritor frustrado que se vê obrigado a trabalhar numa empresa de telemarketing para sustentar a família (caaaara, isso me lembra alguém…) e lá conhece um outro atendente, vivido pelo sempre campeão Simon Pegg (de “Shaun of the Dead”). O personagem de Schwimmer é rapidamente demitido e então convencido pelo novo amigo a entrar em um golpe envolvendo chantagear pessoas da cidade usando os dados obtidos no sistema da sua ex-empresa, com a ajuda de uma ex-miss e ex-namorada do colega de golpe. Tudo daria muito certo não fosse: a)o personagem de Schwimmer ser casado com a xerife da cidade; b)nenhum dos parceiros dele ser o que parece; c)ele não ter a mínima aptidão para o crime.

A história se desenvolve com algumas reviravoltas bem pensadas, como o problema de memória do protagonista que o faz repetir estatísticas e dados numéricos para tentar manter um controle da memória e o agente do FBI que chega à cidade para ajudar nas buscas. Um filme barato, sem grandes refinamentos técnicos e com atuações honestas dos atores principais, mas que conta uma história interessante e consegue deslanchar uma trama “criminosa” envolvendo pessoas comuns sem soar idiota.

Já “Numb” tira o distúrbio psicológico do protagonista da área periférica da trama para jogá-lo no centro da história. Matthew Perry é Hudson Milbank, um roteirista que após fumar mais maconha do que deveria acaba sofrendo de um distúrbio de “despersonalização”, ou seja, tendo dificuldades não só para perceber a realidade como também para se vincular com ela. O filme mostra basicamente o seu esforço para voltar a perceber o mundo real da forma correta e tentar novamente se vincular com ele. Entre drogas, terapias, problemas familiares e relacionamentos não-profissionais com psiquiatras, o filme transita entre a comédia, o romance (Lynn Collins é, pelo menos pra mim, uma revelação como mocinha cabeçuda de comédia romântica) e o drama.

Ainda que em alguns momentos acabe se tornando meio piegas, como nos momentos familiares de Hudson (naquela velha tática de culpar a família por qualquer problema que qualquer pessoa tenha), o roteiro é muito bem escrito e os coadjuvantes dão o apoio necessário para uma atuação segura de Perry, que consegue carregar bem o peso do papel principal. Um bom filme, mas que definitivamente José Wilker não iria achar uma gracinha.