E foi certa vez na corte do Rei Baldahar, na Normandia, que diante de seus mais notórios e corajosos cavaleiros, como sabidamente eram Niholdan da Galícia e Numordin, da Pirinéia, além de Norun, da Boríngia e Magrebov, da Norúngia, que o sábio rei pediu que todos se aproximassem da mesa para um pronunciamento importantíssimo que ele teria que fazer, possivelmente o último antes de sua morte, que viria a acontecer futuramente em alguma batalha, já que naquela época todo mundo morria e quase sempre era numa batalha mesmo. Baldahar uniu seus homens, levantou seu copo de hidromel e, enchendo o peito e olhando para sua rainha, Norene, disse, em plenos pulmões – “Existem apenas dez tipos de homens, os que entendem binário e os que não entendem”. Como o conceito de números binários só viria a ser inventado alguns milênios depois, ninguém na corte riu da piada e esse episódio foi apagado dos registros históricos do reino, assim como o nome de Baldahar, considerado por muitos um rei meio sem graça.

Conta-se também da lendária contenda envolvendo Nulinco, também conhecido como o “cavaleiro que brilhava pra dentro” e o dragão verde de Hidrasil. Segundo as lendas, Nulinco, famoso por seu saber, sua cultura, sua capacidade de resolver problemas e seu fraco por livros de colorir, havia sido chamado até Hidrasil para resolver a complexa questão de uma garota que havia sido seqüestrada por um dragão. Não que a questão fosse exatamente complexa de entender (garota, seqüestro,dragão, digamos que não é exatamente um episódio de CSI) mas o povo considerou que apenas um nobre e gentil homem como Nulinco seria apto para resgatar a jovem donzela das garras do maligno réptil cuspidor de fogo. Vendo o desespero da família da donzela, o bravo cavaleiro pediu que lhe fosse pintado um retrato da moça para que durante o resgate a reconhecesse (vai lá saber quantas donzelas o dragão tinha). Vendo na tela o rosto da jovem garota Nulinco então perguntou – “ah, mas é ela? tem certeza?”. “Sim, temos” – responderam os aldeões. Ao que Nulinco respondeu – “ah, mas é feia, deixa pro dragão comer, não vou me meter nessa não”. A aldeia então linchou Nulinco até a morte.

E não podemos é claro nos esquecer da épica e tão cantada história de Nizil e o leprechaun, que conta a história do bravo cavaleiro norúngio que…bem…encontrou um leprechaun. Bem, havia sido Nizil feito como refém durante as guerras Nefróticas e lançado ao mais profundo calabouço da mais suja prisão do longínquo território do Rei Noreba quando dentro de sua cela surge um leprechaun que lhe faz a seguinte proposta – “caro cavaleiro, posso libertar-te destas grades, precisando apenas que me garanta em casamento a mão de sua segunda filha, que deverá desposar-me e receber meu nome. Antes que me responda peço que te lembres de que essa é sua única e última chance de sair deste cárcere, nobre guerreiro.” Nizil muito pensou até que respondeu ao duende – “ah, mas nem rola…”. Nizil ficou então na cela até sua morte, cinqüenta anos depois.

Não poderíamos terminar sem a história do cerco de Namegarten, um dos mais recontados episódios bélicos da idade média dada a complexidade da estratégia militar aplicada pelo general Munsul, líder das hostes da Guicínia. Vendo seu exército despedaçado, suas fontes de suprimentos cortada e o castelo de Namegarten totalmente coalhado por tropas inimigas, Munsul fez o que todo e qualquer general dos tempos arturianos faria: lançou uma bomba atômica contra o castelo. Até hoje na região nascem besouro de seis cabeças e os cavalos andam para trás.

Interromper uma discussão de trabalho dizendo que argumentar sobre aquilo é tão sem sentido quanto discutir se Han Solo realmente atirou primeiro pode confundir os participantes e não causar uma boa impressão sobre você.

Evite colocar aquela imagem da Tropa dos Lanternas Verdes como proteção de tela no seu computador.

Não use a caneta sinalizadora como um sabre de luz durante as apresentações. Sério, é complicado, mas você consegue.

Não comece reuniões com a frase “Houston, temos um problema”.

Quando perguntarem o que a sua equipe vai fazer no projeto tal não diga que “vamos fazer o que fazemos todas as noites…tentar dominar o mundo!”

Quando seu computador travar e você perder tudo que estava nele por não ter feito um back up, jamais grite “Khaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnnnnnnnnnnn!”.

Quando entrar no elevador não diga “dois pra subir, Scotty”. Ascensoristas fãs de Star Trek são cada dia mais raros.

Imitar a voz do Darth Vader ao telefone costuma confundir as telefonistas, então evite isso também. E nunca, nunca termine uma reunião de feedback contando ao seu coordenador que você é o pai dele.

As pessoas do escritório não conhecem Star Wars o bastante pra reconhecer a sua comparação do seu colega de trabalho com o R2-D2, mas seu chefe conhece o bastante de cultura pop pra perceber que a Marcha Imperial tocou quando ele entrou na sala de reuniões.

Não, ninguém viu o episódio de ontem de “The Big Bang Theory”, aceite isso.

Não ache que por existir outro cara na sua gerência que goste de quadrinhos vocês vão ser amigos. Ele provavelmente é um fã hardcore de mangá, vai discutir contigo porque você disse que não gostava de Naruto e vocês vão rapidamente se tornar inimigos mortais. E ele não vai pegar mais leve contigo por ter 25 anos de empresa a mais do que você.

Ninguém vai sacar a piada quando você começar a responder “ 42” diante de todas as perguntas complicadas que te fizerem.

Se você disser que precisa de um acelerador de partículas a secretária realmente vai tentar pedir isso pro setor técnico e em dois meses vai aparecer um gerente na sua mesa perguntando se você tem uma marca predileta. Mas uma hora isso vai chegar em alguém com acesso ao google e você vai ter problemas.

A matemática do interesse

Dezembro 5, 2009

Uma coisa que eu sempre considerei um bocado complicado é demonstrar interesse nas pessoas da forma certa. Não, não que eu não saiba demonstrar interesse, eu acho que eu sei (não posso garantir, só acho) mas as graduações e as formas sempre foram um pouco confusas pra mim, as sutilezas sempre me passaram um pouco desapercebidas e certas nuances acabam me escapando totalmente.

Vamos por partes: ok, eu estou interessado numa garota. Não, não sei precisar ao certo quais são as minhas intenções (Casamento? Namoro? Sexo? Duas horas de Marvel Ultimate Aliance para Play2 e um aperto de mão? Dividir um pacote de Ana Maria?), mas sei que estou interessado nela devido ao meu óbvio interesse e ao fato de que…bem…estou achando ela cada vez mais interessante.  E quando você está interessado e acha a pessoa interessante o normal é que você demonstre interesse. Mas quanto interesse?

Por exemplo, suponha que você demonstre interesse demais. Interesse demais é a sua forma de deixar obviamente claro que você está interessado, sem dar margem pra que a outra pessoa não entenda exatamente aonde você quer chegar. Mas aí o que acontece? Bem, em primeiro lugar você fica vulnerável, fácil. Afinal, se você está mais interessado do que a outra pessoa ela evidentemente passa a ter um certo controle sobre a situação, já que ela está menos empolgada ali do que você. Outro risco é assustar a outra pessoa, afinal, você pode estar mostrando um nível de empolgação acima do que ela considera natural ou normal e isso gerar não só o fim do interesse dela (se ela estiver interessada, o que você não tem como garantir) como também uma preocupação com a sua sanidade mental e uma ordem de restrição judicial (mas acho que isso acontece só em casos extremos e onde existe uma forte tensão “Glenn Close style”, o que realmente não tá rolando comigo, visto que eu não curto picadores de gelo). Fora que gente super-interessada é chata pra caramba e eu já consigo ser relativamente chato naturalmente. Ou seja, interesse demais realmente atrapalha.

Mas por outro lado existe o interesse de menos. Você está interessado, mas resolve pegar leve pra não parecer desesperado, não assustar a pessoa e nem precisar que seus pais levem cigarros pra você na cadeia. Uma coisa mais cool, blasé, uma abordagem mais  Humprey Bogart em Casablanca. Mas se você não demonstrar uma quantidade mínima de interesse como a pessoa vai saber que o interesse existe? Afinal, você tá ali, paradão, chapéu de feltro, batendo um papo com o Sam sem nem olhar pra ela, como ela poderia adivinhar? E pronto, você perdeu por interesse de menos. Agora jogue volte duas casas e jogue o dado de novo.

E claro, vocês podem, me dizer algo como “ah, relaxe, e aja naturalmente” ou “seja você mesmo”, mas pra mim esse tipo de frase é basicamente como “ontem demorei pra dormir, tava assim, sei lá, meio passional por dentro” ou “and i know i was wrong when i said it was true, that it couldn’t be me and be her inbetween without you”, frases que eu acho legais mas cujo sentido eu admito abertamente que eu não consigo muito bem alcançar. Como assim natural? Porque pra mim é total e completamente natural achar esse tipo de questão confusa. Vamos admitir, não existe um padrão, a lógica da questão é total e puramente variável, minhas experiências prévias não me garantem nenhum tipo de amostragem razoável, eu não tenho nenhum tipo de dado realmente válido sobre a posição da outra parte e tudo que eu posso fazer é seguir meus instintos que, como bem disse o Rob Gordon, eu venho seguindo desde os 14 anos e sei que realmente não tem cérebro.

Não poderia existir, não sei, uma sistematização? Um método amplamente certificado e generalizadamente aceito de demonstração de interesse que não levasse a mal-entendidos, confusões, pessoas ficando assustadas e picadores de gelo? Real e definitivamente eu não sei. Mas enquanto eu não descubro exatamente de que forma lidar com esse meu interesse e não baixo uma versão interessante do FM para parar de pensar nisso, sinto que vou ter que lidar com isso da forma mais natural e mais “eu mesmo” que eu consigo. Ou seja, vou escrever sobre esse tipo de coisa num blog.

E então você se formou. Diplominha na mão, altas expectativas, muita felicidade, papai e mamãe orgulhosos, titio e titia exultantes, vovó alegre e vovô resmungando porque acha que comunicação é curso de veado e você deveria ter feito engenharia civil. Mas aí você chega no mercado de trabalho e descobre que o mundo é dos profissionais multi-função. Gente que pinta, borda, dança, sapateia, lava, passa e ainda faz alguma outra coisa que exige nível superior antes de dar banho nas crianças. Gente multifuncional da HP diante de quem você não passa de uma impressora matricial movida à lenha. Afinal,veja como vários exemplos de pessoas ferradamente bem-sucedidas envolvem alguém que exerce múltiplas e variadas funções: a) Roberto Justus (publicitário, apresentador,cantor); b) Eri Johnson (ator, jogador de futevôlei, amigo do Romário); c) Junior Lima (cantor, ator, namorado de ex-VJ da MTV). Sim, amigo, não dá pra ter sucesso sabendo fazer apenas uma coisa ou tendo apenas uma profissão, a não ser que essa coisa que você sabe fazer seja namorar a Suzana Vieira. E é visando enriquecer esse seu currículozinho miserável que eu trago cinco sugestões de profissões viáveis e interessantes para te ajudar na conquista de poder, dinheiro, sucesso e se possível um emprego.

DJ: Como qualquer pessoa bem-informada sabe, sempre existiu um grande preconceito em relação ao trabalho do DJ. Muitas pessoas durante muitas décadas consideravam que o trabalho do DJ era apenas dar o play numas músicas, levar uma mala de fitas e arranhar alguns vinis sem necessidade enquanto ficava se mostrando pras gatinhas, o que é uma visão totalmente errada. Afinal, atualmente todos nós sabemos que dá pra levar tudo em um pen-drive e DJs gostam muito mais de garotos do que de garotas. Então é óbvio que mesmo você que não sabe nada de música pode fazer uma playlist qualquer e começar a tocar em algum inferninho. Se você ainda tem alguma dúvida sobre sua capacidade de ganhar um troco como DJ faça como os americanos e se pergunte: “O que Jesus faria?”

Ator: Atuar é algo complicado, que exige estudo, dedicação, preparação e talento natural, além de concentração e sensibilidade. Mas atuar na Record ou fazer Malhação não. Faça um cursinho qualquer na faculdade, entre naquele grupo de teatro da sua rua que vem tentando há seis meses sem sucesso encenar a piada do “não, nem eu”, peça para aquele seu amigo que desde 2002 escreve poesias pra namorada que fugiu pra te escrever um monólogo e se jogue de cabeça na carreira de ator. Afinal, se “Caminhos da Vida” já está na sexta continuação quem garante que o próximo mutante com poder estranho ou o amigo com “La tourette” do mocinho da próxima temporada de Malhação não pode ser você?

Comediante stand up: Uma tendência que você deve ter notado depois da ascensão do Barack Obama e do CQC é que todo mundo passou a querer ser negro e fazer comédia stand-up, com maior ou menor sucesso. Mas como fazer stand-up é mais fácil e não faz com que os seguranças te sigam em lojas de eletrônicos, a arte do humor de pé foi se vulgarizando ao ponto de que qualquer pessoa que se ache engraçada e consiga ficar em pé se considere um humorista de stand-up e vá fazer um show em algum bar onde você pacificamente tentava beber uma cerveja. E bem, se você não pode vencê-los junte-se a eles! Reúna todas aquelas piadas de pontinho, todos aqueles chistes do tipo “sua mãe é tão gorda que…”, invente um personagem estereotipado legal e mãos à obra, meu amigo! Vai que é tua e quando chegar no Zorra Total me convida pra escrever um quadro estrelando o Agildo Ribeiro.

Modelo: Num mundo distante, muito tempo atrás, modelos eram pessoas com uma beleza acima da nossa, caras com um físico hercúleo, traços que lembravam uma estátua grega e que namoravam com outros caras de físico hercúleo e traços que lembravam uma estátua grega. Mas claro, sinal, dos tempos, isso mudou e hoje qualquer moleque magrelo com um cabelo que fizer com que você ache que ele é gay pode ser considerado modelo! Sim, é fácil, é simples, é prático como cozinhar com George Foreman Master Grill! Perca peso, deixe sua tia cortar seu cabelo e pronto, o mundo é seu, bonitão!

Jornalista: Bem, não precisa de diploma… Ok, paga mal, mas por que não?

Então você conheceu uma garota e vocês ficaram. Boa, campeão, show de bola. Ou então não ficaram, mas por alguma dessas razões misteriosas ela disse que queria te conhecer melhor e, surpresa máxima, ela realmente queria e não estava dizendo aquilo apenas como um recurso pra não ter que chamar o segurança pra te bater. Trocaram telefones, ela te adicionou no orkut e, claro, rolou aquela troca básica de msns (já que ela não sabe usar o Gtalk) visando aquele papo maroto, malandro e cheio de “vcs”, “fds” e “vtnc”, em clima de total e completa azaração e peguitude (eu inventei essa palavra agora). Mas, como diriam os sábios Macacos do Ártico, “merda, choque, horror”, aquela garotinha linda, engraçada e charmosa do mundo real quando colocada diante de um teclado se transforma em uma criatura estranha, sinistra e assustadora, capaz de traumatizar usuários mais sensíveis da web e com quem você realmente só vai continuar conversando porque, tipo, deixar de falar com a menina porque ela é estranha no msn é meio gay…

O diálogo incompreensível: Você foi educado e alfabetizado em português, por ter nascido no Brasil, um dos países desse planeta que fazem uso da última flor do Lácio como língua pátria. Mas ela, ao que parece, não. Afinal, não dá pra entender nada do que ela está falando! O que você vê na tela é uma mistura de miguxês, abreviações, inglês arcaico, Klingon, ideogramas chineses e aquelas coisas que o bandido da luz vermelha dizia, tudo isso lançado sem nenhum critério perceptível e encadeado de uma forma que simplesmente escapa à sua compreensão, como bem exemplifica a clássica frase “qunnd vc tah pinsnado en vih busk cthulku hualalala dorgas ca mha irman?”.

O papo que não flui: Ela era toda animada, toda comunicativa, até aparecer no msn. Desde então ela passou a considerar que palavras são ouro e é tempo de uma forte política de retenção de custos que vai começar por você. Você puxa papo ela fica só no “oi”, você pergunta como as coisas estão e ela responde “bem”, você conversa sobre o que ela fez no dia e ela diz “nda”, você brinca que ela só usa monossílabos e ela retruca um “ok”. Aí você simplesmente desiste de puxar papo e uma semana depois ela aparece no msn e puxa papo com um “oi”, que você responde com um “oi, e aí? como estão as coisas?” e recebe em troca um “blz”. Pra algumas pessoas o msn simplesmente não funciona.

A pessoa sem senso de humor: Ok, de começo ela era meio séria. Ria pouco, tinha uma postura meio crítica com as coisas, resmungava de uma forma que você havia visto apenas quando seu avô quebrou a bacia, mas tudo bem, aquilo devia ser apenas um dia ruim, todo mundo tem alguns desses. Aí vocês foram conversar no msn e você notou que ela não ri. É, ela não ri. Não que risadas de msn sejam o ponto forte do seu dia, mas ela simplesmente é incapaz de esboçar qualquer reação ou comentário engraçado ou espirituoso, tudo com ela é sério feito a morte, os impostos e a vida pessoal da Adriane Gaslisteu. Nada de “hahaha”, “hihihihi”, “hashahsahshas”, “HuAHuaHua” ou mesmo um mísero “rs”. Ela é impermeável as suas piadas, intangível para o seu humor, inatingível para a sua espirituosidade. Em suma, ela é uma chata e você é um sem graça.

Os emoticons from hell: O emoticon, assim como o aborto, a existência de Deus, e a culpa pela morte da Gwen Stacy, é um desses assuntos que despertam paixões e opiniões fortes. Ou você ama ou você odeia os emoticons e após 10 segundos de conversa você notou que ela é uma Montecchio e você é um Capuletto. Se você prima por um diálogo limpo e os únicos emoticons do seu msn são aqueles smileys que já vieram configurados, ela parece estar escrevendo na fonte “Symbol”, já que pra toda e qualquer palavra existe uma representação gráfica colorida, saltitante e barulhenta, que transforma a sua tela em uma cartilha infantil virtual. Nunca uma mulher conseguiu te dar dor de cabeça de uma forma tão literal na sua vida. Literalmente falando.

A caixa alta: Como qualquer pessoa de bem (incluindo a Xuxa) sabe, a única pessoa que consegue parecer legal falando em caixa alta é o Sílvio Luiz e isso porque ele também é a única pessoa que consegue parecer legal narrando um jogo bêbado e comentando o preço do quilo de coxa de frango ao invés de falar do gol que acabou de acontecer. Em suma, existem coisas que apenas o Sílvio Luiz pode fazer e devemos entender e nos conformar com isso. Mas ela simplesmente é incapaz de aceitar o fato e faz com que pareça que você está no msn com sua mãe recebendo uma bronca por ter batido com o carro na cadeira de rodas da sua vó, que estava estacionada na sala.

Menção honrosa – O chat : Poucos momentos são mais enriquecedores e emocionantes na vida de um Don Juan virtual, um pegador 2.0, um Zé Mayer das interwebs, do que, assim que consegue o msn de seu alvo, ser logo no primeiro contato, lançado em um chat daqueles gigantes. Sabe aquela intimidade? Nada. Sabe aquela chance de colocar aquele papo maroto e caliente? Foi pra vala. Sabe aquela oportunidade pra elogiar engraçadinhamente (inventei essa também) a foto dela? Não vai existir. Sabe aquela deixa pra pedir pra ela fazer um strip na web-cam? Sério, cara, apenas tarados pedem isso, se acalma, campeão. Você foi lançado na vala comum dos outros 768 caras que tem o msn dela e ao invés de um papo legal visando um encontro legal e uma troca de saliva legal você conseguiu trocar impressões sobre a campanha do Vascão com pessoas que se identificam no msn como “Maitê_Patão”, “Biluzóio” e “Narega – Se Deus é por nóis quem cera contra nóis?”. Boooa, champs!

A Barata da Vizinha

E eu tinha sentado na frente do computador pra terminar de escrever a segunda parte do post sobre o meu aniversário, mas depois de quinze minutos tudo que eu tinha conseguido produzir era…isso. Portanto achei melhor deixar a segunda parte pra daqui a dois dias. Até lá.

“Sabe qual é o problema entre nós dois? É que eu cresci e você não. Eu amadureci e você não. Eu achei um emprego, uma sala, uma rotina de oito horas com passeios opcionais nos finais de semana e você não. E eu acho que agora é um pouco tarde demais pra que eu admita que você fez a escolha certa. E eu não. Mas eu tenho um grampeador, se isso servir de compensação”

“Eu sei que eu posso estar me adiantando um pouco e isso pode soar esquisito, mas se essa bebida levar à outra bebida, essa outra bebida levar à um beijo, esse beijo levar à uma noite juntos e isso virar realmente um relacionamento, mas por alguma razão nós virarmos um desses casais que brigam o tempo todo e discutem por bobagens feito a escolha de um dvd ou onde vão passar o natal, quando uma das brigas ficar séria demais, você poderia me lembrar de te dizer que, de todas as coisas que eu vi até hoje nada, nada mesmo, é tão lindo quando o jeito como você está me olhando agora?”

“O que nós estamos fazendo é simples como andar de bicicleta. Com a diferença de que nenhum de nós dois sabe andar de bicicleta”

“Eu não me importo realmente com o que você pensa, mas me importo com você o bastante para fingir que me importo. Isso fez sentido pra você?”

“Atire no papagaio! Não pense, apenas atire no papagaio! Ele devorou Jay, ele é maligno!”

“Sabe aquele email? Era tudo bobagem. Desde que você foi embora eu descobri que em cada língua existem pelo menos uns 50 sinônimos pra saudade. E nem vou precisar citar o seu nome como um dos primeiros.”

“E você tem todo o direito de ir embora, o problema não é esse. E o problema nem é o fato de que você vai sair por aí e vai fazer outras coisas, conhecer outras pessoas e nunca vai se sentir satisfeita com alguém que não sabe pra que lado você dorme, ou em que momento você está realmente triste, ou como você prende seu cabelo quando fica preocupada, ou que tipo de filme te faz dar risadas. Nada disso. Você tem todo o direito de sair por aí e acreditar que eu vou ficar feito um idiota te esperando. Isso não é um problema. Na verdade o único problema é que tem um lado de mim que acredita realmente que valeria a pena ficar aqui sentado esperando por isso.”

“Meu Deus, alguém mate o maldito papagaio! Cortem as asas desse bastardo! Meu Deus! Maldito papagaio!”

“Você quer saber a verdade? Você quer mesmo saber a verdade? Você não iria reconhecer a verdade nem mesmo que ela estivesse na sua frente! Nem que ela tropeçasse em você. Nem se ela fosse uma espinha no seu rosto pra ser espremida. Nem se ela fosse um inseto e pudesse te picar. Nem se ela fosse uma ex-namorada e te telefonasse de madrugada te xingando. O que você sabe sobre a verdade? Hein? Hein? Quem você pensa que é pra merecer a verdade? Mas ok, se você quer a verdade, a verdade real, aí vai…eu…hummm…qual era a pergunta mesmo? Me esqueci, desculpe…”

“Suzana, eu realmente acredito que o universo conspire…só não penso em uma boa razão pra que seja à favor…ei! o que é isso? Asas? Um papagaio, diabos, um papagaio! Fujam, corram por suas vidas! Um papagaio! Um papaghaaaaaaaaarrrrrrgh!”

 

Não sei se vocês se lembram, mas existiu uma época muito, muito tempo atrás, num lugar muito, muito distante em que todo mundo ouvia pagode. Sim, todo mundo. Eu ouvia pagode, você ouvia pagode, seu pai ouvia pagode, sua tia ouvia pagode. Isso porque, é claro, em todo lugar tocava pagode. A rádio tocava pagode, na televisão passava pagode, nas festas se ouvia pagode, nas lojas de cd tocavam os cds de pagode. Não, não samba raiz de universitário intelectual, não samba com hip-hop do Marcelo D2, não sambinha MPB nessa coisa Maria Rita/Los Hermanos ou samba rock do Farofa Carioca. Nada disso, meu amigo, era pagode mesmo.

Nomes como Exaltasamba, Soweto, Os Morenos, Só Pra Contrariar e Karametade causavam nas garotinhas incautas o que hoje causam NxZero, Fresno e derivados, só que com mais gente no palco, mais ginga, mais malícia e mais suingue (e claro, menos franja). E nesse panteão onde Alexandre Pires dominava as paradas de sucesso com suas reflexões filosóficas (“o que que eu vou fazer com essa tal liberdade?”, “a verdade é que eu minto”, “ele vai dar uma pistolada na barata dela”), e Belo tocava as almas e os corações com sua poesia  cuja criatividade beirava o construtivismo(“derê, derere, dumdum, dê rererere”), surgiu um grupo que representava tudo que de mais descompromissado, mais fanfarrão, mais bizarro, mais sem noção significava o pagode da década de 90: o Grupo Molejo.

Formado em 1993 por Anderson Leonardo, Andrezão e mais um monte de caras que ficavam rodando na parte de trás do palco da Xuxa fingindo que tocavam alguma coisa,o Molejo era conhecido por suas letras irreverentes, brincalhonas, bem-humoradas e na maior parte das vezes totalmente sem sentido, que tanto acrescentaram ao pagode-pop nacional e tanto sucesso fizeram nas rádios. E é em homenagem a esse grupo que tantas alegrias (ou não) deu a todos nós durante tantas viagens de ônibus nos tempos do colégio e que agora retorna ao estrelato com seu novo CD “Todo mundo gosta” que eu me propus a fazer essa pequena lista (afinal, cinco músicas diante de uma obra extensa como a do Molejo é como escolher apenas cinco filmes diante da filmografia completa de Uwe Boll)

Cilada: Sucesso em todas as excursões escolares junto com “Barata da Vizinha” e “Fogo e Paixão”, essa canção foi uma das incursões do grupo na arte de representar as dramáticas histórias de amor e sofrimento das classes menos favorecidas, com o conto de um rapaz que, interessado por uma moça, deixa que ela o obrigue a prestar serviços domésticos na expectativa de recompensas de cunho afetivo. Tente não se emocionar com o genial refrão que diz “não era amor ô ô/não era/não era amor era/cilada cilada”.

Brincadeira de criança: Uma canção feita não apenas para tocar nas rádios mas também para cumprir uma função social: acelerar o processo de sexualização das crianças do Brasil. Mais uma vez o Grupo Molejo dá aquele passo adiante em termos de composição e nos brinda com uma das frases mais memoráveis da música brasileira: “Até que enfim, chora pra beijar, hein!?”.

Samba Diferente: Também conhecida como a “melô do Frei Damião” (“pode quebrar o pescocinho pro lado, vai, vai, vai, vai”), essa bela canção consiste basicamente em uma série de comandos sem sentido que quando combinados formam uma coreografia que estava no estreito limite entre o inusitado, o curioso e o absolutamente babaca. Méritos do grupo que conseguiu fazer com que várias pessoas pelo país inteiro passassem a vergonha de seguir o que eles diziam sem nem pensar duas vezes.

Paparico: Reafirmando sua verve de bardos do proletariado do século XX, Anderson Leonardo e Andrezão retornam com essa história sobre um rapaz que deseja impressionar uma jovem e para tanto usa de artifícios visando mascarar sua desconfortável situação financeira, o tipo de história que deixaria John Ford boladaço. Destaque para o verso sobre o cheque sem fundo no motel. Massa, véi.

Sweet Banana: Clássico do pagode dadaísta, Sweet Banana é uma dessas músicas que à primeira vista não dizem muita coisa, mas que numa análise mais apurada não significam absolutamente porra nenhuma.

“Olha João…sobre esse projeto…”

“Fala brodinho, tudo na boa? Coé a do projeto? Belezinha?”

“Não, olha…é que…”

“Super-projeto, né? Show de bola! Super-transado. Eu sabia que tu ia curtir. Tu é de onde?”

“Eu? João, sou eu, o Gustavo, da sua gerência, você não lembra que…”

“Gustavão, meu velho, grande brodinho. Projeto massa, não, véi? Mas você é daqui do Rio então, certinho?”

“Eu? Bem, eu sou de Goiás, mas…”

“Goiás? Pô, véi, curto muito Goiás. Estado super-transado. Fissuradão mesmo. Nunca fui, mas acho da hora. Gatinhas de Goiás? Muita fissura. Doideira. Massa, véi!”

“Olha, legal, mas sobre o projeto…”

“Muito show o projeto, né brodinho? Sabia que tu ia gostar. Muito massa. Show de bola. Fera. Maior fissura. Massa véi!”

“Então…é que eu li o projeto e eu acho que…não sei…”

“Pô, coe? Combina total com teu rosto, já olhou direito? É um projeto novo, linha nova, visual novo, totalmente verão. Show de bola. Doideira. Fera. Massa véi!”

“Mas João..assim, sério, eu gostei…mas é que eu pedi um plano de comunicação pra nova unidade e você me mandou uma redação sobre as suas férias e uma folha com um hang loose desenhado…isso é…”

“Muito massa, não é véi? Show de bola. Férias, hang loose. Muito verão, linha nova, modelo novo. Doideira. Super-transado. Tu disse que era de onde mesmo?”

“Olha João, ta complicado te explicar isso…E eu sou de Goiás, já disse…”

“Goiás? Pô, véi, curto muito Goiás. Muita fissura. Doideira. Massa, véi!  Nunca fui, mas acho da hora. Gatinhas de Goiás? Fissuradão mesmo. Coé?”

“Mas então, sobre o projeto…”

“Maaaaasssaaa, véééééééiiii!”

“Olha…tudo bem, eu mesmo vou refazer…depois eu te passo e você só revisa, ok?”

“Revisar? Doideira, curto muito revisar. Muito verão. Modelo novo, linha nova. Topo total, brodinho. Massa tua roupa, tu malha? Show de bola. Quer comprar um relógio?”

“Não, João, eu não quero relógio…olha…eu vou embora, ta? Depois eu te mando um email explicando como ficou…”

“Nada de relógio então? Temos uma linha nova, super-transada, show de bola, modelo novo. Abração pra ti, brodinho de Goiás. Depois chega aí pra gente ver uns óculos pra ti. Maaaasssaaa vééééééééiiiii!”

A culpa é da maresia

Outubro 12, 2009

O Rio é um lugar que muda os conceitos das pessoas. Você acha que nunca vai falar chiado e acaba falando, acha que nunca vai ter um amigo que te cumprimente gritando “fala leleske” e acaba tendo, acha que nunca vai ver um cara se dando bem usando como cantada a frase “já é ou já era?” e acaba vendo. Uma dessas mudanças de visão, por exemplo, é a minha posição sobre o determinismo geográfico. Sabe essa coisa de que o calor dos trópicos influencia o subdesenvolvimento das nações, de que os índios eram menos civilizados por causa da natureza exuberante que não os motivava a produzir ou criar nada e todas esses outros discursos que culpam a geografia por tudo? Sempre achei isso uma tremenda besteira. Até vir morar aqui no Rio, claro.

Digo isso porque, como todos vocês devem ter notado, o nível do blog caiu depois da minha mudança para o Rio. Atualizações mais esparsas, menos comentários, textos menos engraçados, menos ofensas feitas pela população de Cataguases, menos links envolvendo Darth Vader, sim, boa parte daquilo que tornava esse um blog legal e divertido acabou ficando pra trás e eu posso dizer, sem medo de errar: a questão é totalmente geográfica, é tudo culpa do calor carioca.

Isso porque no Rio é complicado ficar em casa pra escrever, e não apenas porque dentro de casa vai estar sempre muito quente, mesmo com o ar-condicionado ligado no máximo (você pode ter ar no quarto, mas na sala vai estar quente. Aí você coloca na sala. Mas a cozinha então deixa de ter um forno e passa a ser um forno. Quando você menos percebe já climatizou a casa toda e passou a bater com um bastão nas pessoas que abrem a janela) e é quase impossível concatenar uma linha de raciocínio coerente com uma temperatura ambiente de 45ºC (semana passada eu comecei a escrever um post e fui interrompido por uma ruiva vestida de odalisca que mais tarde eu descobri ser uma miragem). Existe também o peso do “fator praia” (quando você mora perto da praia você se sente moralmente culpado quando surge um dia de sol e você fica em casa. É mais ou menos como ser filho do Bill Gates e usar Linux), do “fator água gelada do mar” e do fator “cariocas de biquíni na praia aproveitando a água gelada do mar”, que acabam minando totalmente a minha capacidade criativa, gerando o resultado que todos vocês vem vendo. (“vocês vem vendo”? Santa aliteração involuntária, Batman!”)

Mas não, não abandonarei o blog apenas porque não estou conseguindo escrever direito e tenho tido poucos comentários. Não, jamais. Mesmo porque eu nunca escrevi lá isso tudo e o pessoal também nunca comentou muito por aqui, pra ser sincero. Apenas acho que, como eu faço de tempos em tempos, eu deveria dar algum tipo de satisfação para os meus 5 leitores e dizer que bem, como dizia o Mario, isso é apenas uma fase e vai passar, pessoal.

(Outra observação que eu gostaria de fazer é a de que eu realmente respeito muito os escritores e blogueiros cariocas pela capacidade de realmente escrever ao invés de apenas ficar sentados na praia. Ou então eles apenas escrevem na praia…humm…mas continuo respeitando muito vocês por terem pensado nisso…Espero que minha fase de adaptação termine logo e eu volte a achar praias um saco)