Projeto Manhattan – Fase I
Setembro 1, 2009

Como alguém já disse, conclusão é o nome que você dá ao momento em que fica cansado de pensar. E após alguns anos escrevendo, escrevendo e escrevendo, eu finalmente fiquei levemente de saco cheio do projeto do meu primeiro livro de contos e concluí que isso é um sinal de que ele está pronto. Tenho cerca de 30 contos, indo desde histórias de mortos-vivos até personagens de quadrinhos, mulheres de franja, ex-namorados vingativos e viagens ao Japão, e acho que finalmente atingi o nível necessário de auto-estima como escritor pra tentar achar um jeito de publicar isso tudo de algum jeito. Mas claro, como autor novato, é meio complicado selecionar. 30 contos é muito? É pouco? O que deve ficar de fora, o que deve entrar? Muito humor? Muito drama? Quem matou Odete Roithman? Ronaldo? E bem, é aí que vocês, fiéis e pacientes leitores desse blog entram.
Desconfio que até o final desse mês todos os contos vão estar terminados (ainda tenho 5 contos para concluir) e eu vou tentar montar um ante-projeto de livro com eles. Assim que essa versão beta estiver pronta eu gostaria de saber quantos de vocês se dispõem a, assim como aquelas pessoas que aceitam tomar choques elétricos em nome da ciência, ler essa versão do livro e me dar algumas opiniões. Vocês vão poder sugerir o que está sobrando, faltando, se está longo demais, pequeno demais, ou mesmo se eu deveria procurar outro hobbie, como a filatelia ou a taxidermia, e deixar isso de escrever para pessoas mais qualificadas.
Então para se candidatar e ter essa chance imperdível de ler em primeira mão um futuro sucesso da literatura brasileira (ou bem menos), deixe apenas um comentário informando isso (pode ser um “eu topo”, “tô dentro” ou “Dado Dolabella traiu o movimento”) e coloque seu email naquele campo do comentário onde pedem que você…humm..coloque o email. E lembrem-se, não é sorteio (sempre quis dizer isso), todos poderão ler.
Os que se aceitarem participar desse verdadeiro projeto Manhattan literário devem receber antes do final do mês um arquivo pdf com o livro e terão, sei lá, um ou dois meses pra ler e dar uma opinião, enviada para minha caixa de email. De posse dessas opiniões eu vou tentar fazer uma versão seguinte que será discutida com meus editores e com minha mãe, que dirá que está tudo lindo, e então começarei a buscar uma editora e, depois de ser rejeitado por várias, tentarei uma edição independente que irá se tornar um calço de mesa na casa de meus amigos mais próximos. Hummm…Ok, não vamos nos apressar: apenas respondam e eu mando o livro pra vocês.
Outra coisa legal: aqui está um caps muito mal feito (por mim) da querida “Tribuna de Cricaré”, o jornal de São Mateus, no Espírito Santo, no qual o meu amigo Thiago conseguiu encaixar algumas colunas minhas e do qual o outro amigo Ulisses me entregou algumas cópias, provando que sim, eu sou uma quase sub-celebridade em São Mateus e Goiânia, o que me faz pensar em duas coisas: a) se a Record São Mateus resolver fazer sua versão da “Fazenda” eu estou famoso o bastante pra entrar?; b) Por que as pessoas gostam mais de mim nas cidades que eu não freqüento?
Atualização: Consegui terminar mais um conto, chamado “Trabalho de melhor amigo”. Agora só faltam “Um estudo em vermelho. Com sardas”, “A cruel e vingativa traição de Heitor S. Rodrigues”, “Weezer” e “Formato mínimo”.
Atualização 2: Terminei também “A cruel e vingativa traição de Heitor S. Rodrigues”, desisti de “Formato mínimo” porque já tinha escrito um outro conto muito parecido e agora estou mexendo nos dois que faltam.
Contos morais de moral duvidosa #1
Junho 1, 2009
Era uma vez um rapaz chamado Adolfo. Apesar de ser querido pelos amigos e pelos familiares (ainda que sua avó dissesse em público que ele era feio, o que não era muito legal) e de ter uma vida relativamente tranqüila e confortável, Adolfo tinha alguns problemas de auto-estima. Não que ele não tivesse conquistado certas coisas na vida e não acreditasse que tinha um certo potencial, mas o rapaz simplesmente não conseguia esperar muito de si mesmo, confiar no seu taco, acreditar na sua luz interior, essas coisas todas. Em suma, se o ego e autoconfiança das pessoas normais fossem representados por árvores, enquanto alguns teriam coqueiros, outros teriam mangueiras e vários possuiriam verdadeiras palmeiras-imperiais ou jequitibás, Adolfo teria um bonsai bebê com nanismo.

“Lavar primeiro, ter auto-estima depois…”
Apesar disso o nosso protagonista até conseguia demonstrar confiança em certos campos de sua vida. No trabalho, em seus hobbies, na prática de esportes, o jovem até tinha uma certa capacidade de acreditar que poderia alcançar seus objetivos, assim como a capacidade de brigar por eles. Porém, no que tangia a sua vida pessoal, principalmente quanto ao relacionamento com pessoas do outro sexo, ele já não conseguia superar suas desconfianças. Diante de uma mulher Adolfo passava a dedicar a si mesmo o nível de confiança que daria a um cirurgião cerebral com Parkinson, um terapeuta que atende os pacientes vestido de Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo ou um evangelho apócrifo escrito pelo Evanílson, ex-lateral do Cruzeiro.

“A boa notícia é que Jesus nasceu…A ruim é que eu não sei cruzar…”
Então era muito raro que ele tentasse qualquer tipo de abordagem diante do gênero feminino, porque acreditava que as suas chances de sucesso eram as mesmas de uma continuação para o filme Jimmy Bolha. Porém, haviam momentos de exceção, quase sempre quando ele bebia. Muito. E por muito quero dizer, pra caramba mesmo. E em um desses dias ele, bêbado, mas muito bêbado, quero dizer, bêbado pra caramba mesmo, puxou conversa com uma garota muito bonita. Ele se sentou na mesa dela, começou a conversar e pediu o telefone dela. E ela, pra surpresa dele, passou o telefone.

“Humm…errr…agora eu faço o que? Ligo pro Batman?”
No dia seguinte, ainda de ressaca, mas muito de ressaca, quero dizer de ressaca pra caramba mesmo, Adolfo acordou e pegou o número de telefone no bolso do casaco. Ficou olhando pro número e pensando. Bem, era uma garota linda. E se era linda porque tinha passado o número pra ele? Provavelmente nem era o número certo. E se fosse, ela provavelmente tinha passado só pra ele sair do pé dela. E mesmo se não fosse, ele iria dizer o que? Que ele era o bêbado da noite anterior? Seria ridículo. Decidiu então não ligar e se poupar de uma situação que pra ele parecia ter tantas chances de dar certo quanto um foguete espacial construído com chiclete e papel molhado.

“Não acho que vá funcionar, sei lá…”
E Adolfo seguiu sua vida, basicamente deixando o episódio de lado, esquecido como um guarda-chuva num dia de sol ou um DVD do grupo Copacabana Beat numa livraria megastore. Até que um dia ele estava em uma comic-shop folheando algumas revistas e decidindo se deveria ou não comprar um encadernado do Starman quando acabou trombando com um rapaz carregando uma pilha enorme de mangás. Educado, ajudou o rapaz a se levantar e encetou com ele uma breve conversa, na qual notou alguns aspectos da personalidade do rapaz, como uma nerdice elevada até mesmo para os padrões adolfianos, assim como um traquejo social menor até do que o de Adolfo e o fato de que, bem o rapaz era esquisito, até mesmo em comparação com Adolfo, que não era exatamente normal.

“Mais estranho do que a ficção. E mais estranho do que Adolfo também.”
Durante a conversa ele também ouviu entusiasmados comentários do rapaz sobre sua namorado, que era linda, compreensiva, carinhosa, divertida e, olha só que coisa engraçada, eles tinham se conhecido num dia em que ele, tímido, havia enchido a cara e pedido o telefone dela. Aí eles saíram, se apaixonaram e estavam muito felizes, fazendo dois meses de namoro. Adolfo ouviu a história com o mesmo nível de ceticismo que São Tomé e o Padre Quevedo teriam se fossem comprar um carro usado do Pastor Silas Malafaia, mas deu parabéns para o amigo recém-conhecido e o ajudou a carregar sua carga de mangás até o estacionamento, onde a namorada dele estaria esperando. Chegando lá, eles encontram a garota do viciado em mangás, que evidentemente era a garota de quem Adolfo tinha pedido o telefone meses atrás.
Moral da história: Nunca puxe papo com leitores de mangá.
(Este post teve seu formato baseado no post “Bibliotecário desaparecido“, do Blog da Elisa )
(Obrigado ao pessoal de Goiânia e ao Zé pela divulgação do blog e pela estranha sensação de ter mais leitores em Goiânia do que em qualquer lugar do planeta [incluindo a amada Cataguases]. Valeu, gente!)
Kafkaniana
Maio 22, 2009

Naquele dia, quando Adolfo acordou ele sentiu algo de diferente em seu corpo. As extremidades pareciam estar estranhas, as costas pareciam pesadas, e antes mesmo de abrir os olhos ele sabia que algo tinha acontecido. Estava deitado com a barriga para cima e parecia ser quase impossível o simples movimento de virar para o lado e se sentar na cama, como se seu eixo de equilíbrio tivesse se deslocado para algum lugar que ele ainda não havia conseguido encontrar. Abriu os olhos. Notou que o processo havia, de alguma forma, se tornado mais complexo do que o habitual. Sua visão havia mudado. Parecia que no lugar dos dois olhos míopes haviam surgido dezenas, centenas de pequenos olhos, pequenas janelas através das quais ele podia ver o teto branco do seu quarto com uma riqueza de detalhes que ele nunca havia notado, nem mesmo com seus óculos. Tentou coçar os olhos com as mãos, mas notou que no lugar delas existiam pequenas patas, sensíveis, marrons, que tremiam e se moviam rapidamente. Incrivelmente não entrou em pânico. Começou a pensar e notou que precisaria encontrar um jeito de sair da cama para ter certeza do que havia acontecido.
Como não conseguia se levantar ou se sentar, se preparou para lançar seu corpo para fora da cama. Moveu o corpo para os lados, ganhando impulso até finalmente rolar para fora da cama. Caído no chão, notou que não conseguia ficar de pé. Na verdade ele estava apoiado sobre os pés, sentia que aquela era a sua posição natural, mas sabia que não estava na vertical, ao menos diante do seu antigo conceito de vertical. A sua vertical agora era, de certa forma, horizontalizada. Ele estava andando deitado, por assim dizer. Tentou levantar seus pequenos olhos em direção ao espelho do armário para confirmar aquilo que lhe parecia óbvio.
Nunca porém, chegou a saber se havia mesmo se tornado algo além de humano, já que foi esmagado logo antes que seus minúsculos olhos conseguissem alcançar a direção do vidro do espelho. Sua esposa havia, por alguma razão, acordado transformada em um sapato gigante e ainda estava com raiva por causa da briga da noite passada.
Ô mulherzinha rancorosa…
Pequena Ficção : Ciúmes
Novembro 25, 2008

“Deixa que eu pego a bebida pra gente, eu conheço o dono daqui”. Ela disse isso, piscou e sumiu pelo meio da festa. Diogo olhou pro lado, procurou uma bancada e se encostou. Ela era assim: decidida, decisiva e coisas do tipo. Ele tinha se acostumado rápido com a idéia de que ela era não ficaria esperando que ele fizesse as coisas, ainda mais porque ele não era do tipo que fazia as coisas, então até que as coisas combinavam bem. Se encostou mais folgado ainda na banca e esperou.
Cinco minutos. Dez. Quinze. Só aí ele começou a pensar que tinha alguma coisa errada acontecendo. Ela não tinha ido na Escócia busca whisky, por que toda essa demora então? E que papo era aquele de “conhecer o dono”? Conhecia de onde? Conhecia como? Conhecia no sentido… bíblico? Começou a cogitar a possibilidade de que estava enganado ao pensar que tinha algo errado. Na verdade tinha algo muito errado acontecendo. Mas não tirou as costas da bancada, claro.
Passou a desconfiar que tinha tomado o clássico “perdido”. Sim, ela queria fazer algo com alguém e, sabendo que ele nunca tinha ido naquele lugar, tinha usado o clássico truque do “vou pegar uma bebida, eu conheço o dono daqui”. História velha. Provavelmente estava se agarrando com outro. Sentiu um calafrio. Extremidades ficaram geladas. Começou a coçar a barba. Ah, merda, estava tendo uma crise de ciúmes. E sem nada pra beber.
Procurou por referências mentais que ela já tivesse feito sobre algum amigo/ficante/ex-namorado que tivesse um bar. Só de cabeça lembrou de 3. Parou de pensar nisso, não ia ajudar. Era fato, tinha sido chutado. Jogado. Tomado um perdido. Como uma menina de 16 anos ficando com um cara numa micareta, ele tinha sido descartado. Ela, num gesto babaca e gratuito, estava ficando com outro cara na festa em que tinha chegado com ele, ficando com ele. Diogo pensou no por que. Afinal, ele não era possessivo, aceitava tudo numa boa, era só ela dizer que ele iria no máximo soltar um “ahhh…” e ir pra casa. Claro, nunca mais ia olhar na cara dela, mas tudo bem, essas coisas acontecem.
É, ela estava com outro cara. Fato. Vinte minutos pra trazer dois copos? Nem se ela estivesse soprando o vidro. Ele sabia que deveria ir procurar, talvez alguma coisa tivesse acontecido, mas quis ver no que ia dar. E tinha se afeiçoado à bancada, que tinha sido uma boa companheira num momento tão difícil. Estava pensando até em comprar a bancada, quem sabe?
E pensando notou que o pior não era ser descartado. O pior não era ser trocado. O pior nem era a mulher com quem ele queria namorar ficando com outro debaixo do nariz dele. O pior seria ir andando pra casa. Porque ele não sabia dirigir e não tinha vindo com dinheiro, só cartão. Devia existir alguma regra não-escrita avisando que quando você for deixar alguém jogado numa festa você deve avisar pra pessoa que ela vai ter que voltar de taxi, porque carona não vai rolar. Ou se rolar, vai ficar aquele clima chato.
Estava pensando em como convencer o motorista de taxi de que ele ia sim pagar a corrida quando ela chegou. “Se eu não venho aqui você não me procura, né?”. Fez cara de quem não entendeu. “E não atende o celular também, certo?”. Agora era real, ele não estava entendendo. Olhou no celular. É, ela estava tentando falar com ele há uns 10 minutos. “Então, seu insensível…Eu torci o pé…Meu amigo me ajudou a sair e eu fiquei te ligando pra gente ir embora…mas tem alguém aqui que não presta atenção em mim…”
Ela fez, claro, aquela carinha de carente. E estava machucada. Ele sorriu de canto e foi com ela até a saída.
Mas foda-se, ele precisava mesmo aprender a dirigir. Afinal, nunca se sabe.
37 dias
Outubro 26, 2008

Eu sinceramente não sei como te contar isso. Provavelmente você não vai acreditar, mas eu tenho que contar para o seu bem. Espero que você entenda. Se você não entender vai me magoar bastante, mas eu também vou compreender. Começou quando eu era criança.
O nome dela era Carla. Carlinha. Eu tinha sete anos, ela oito, mas sempre brincávamos juntos no pátio. Era naquela escola perto da minha casa, eu provavelmente já te mostrei quando passamos de carro por lá. Bem, foi com ela que eu dei meu primeiro beijo. Eu sei, é engraçado, mas eu ainda me lembro bem, foi atrás da casa da tia dela, Dona Lalá, provavelmente a senhora idosa mais chata que já pisou na face da Terra…Mas agora não é hora pra pensar na Dona Lalá.
Nós nos beijamos, beijo de criança. Selinho. Mas o primeiro beijo é sempre o primeiro beijo. Passamos a nos considerar namorados, graças às piadas do pai dela, que sempre tinha sido amigo do meu. E bem, era um namorinho, passeávamos de mãos dadas, dávamos um beijinho de vez em quando, brincávamos todo dia um na casa do outro. Isso durou um mês, até o pai dela ser transferido. Eu lembro dela chorando pra me contar, o rostinho ficando vermelho, o abraço apertado. Éramos muito colados, sempre fomos, desde ser vizinhos até colegas e depois…namorar…
Minha família ajudou a empacotar a mudança junto com os pais dela e trocamos um beijo no vidro, enquanto o pai dela se preparava pra sair com o carro. Na Serra de Petrópolis eles foram jogados pra fora da pista por uma carreta. Todos saíram com ferimentos leves, menos a Carla. Carlinha. Saiu pelo vidro e bateu com a cabeça. Nem teve tempo de chegar até o hospital. Meu primeiro velório. Minha mãe ainda tem o terninho preto que eu usei.
Depois, quando eu já tinha 14, veio a Flaviana. Colega de sala, sempre falante, bem mais alta que eu. Já tinha ficado com o Gabriel, o babaca da oitava série, mas terminou com ele pra ficar comigo. Eu diria que foi a minha primeira conquista em termos de…romance, posso dizer assim. Nos beijávamos no fundo da sala durante as aulas do Professor Sobral, aquele carequinha que meu pai te apresentou outro dia. Meus primeiros amassos. Desculpa, estou dando detalhes demais, não? É que as lembranças voltam…Mas então…Um dia nós brigamos e ela foi pra casa dos avós. Passaram-se duas semanas e eu não soube dela. Não telefonei por birra, achei que ela estava me evitando.
Na semana seguinte falaram na escola que ela tinha tido um caso súbito de hepatite. A doença atacou rapidamente o fígado e ela não resistiu. Não tive coragem de ir ao enterro. Meus pais me trocaram de colégio depois disso.
Aos 17 foi a Larissa. Colega da minha irmã mais nova, se você procurar bem no mural da Cristiana acho que ainda tem uma foto dela por lá. Sempre foi doidinha em mim, mas eu só fui reparar nela quando a Teresa me deu um fora totalmente degradante na festa de Halloween do curso de inglês. Era engraçadinha, ainda que meio chata. Mas era novinha, muito bonita e carente. Admito que me aproveitei disso pra tirar a virgindade dela.
Começamos a namorar e eu vi que não ia agüentar muito tempo a garota, afinal, além de sexo eu podia ter o que com ela? E ela ficava mais e mais grudenta à cada dia que passava. Decidi terminar e fui até a casa dela. Quando cheguei lá tinha uma ambulância na porta. O pai dela tinha bebido e matado ela e a mãe, pra depois se matar. Me lembro que foi notícia no país todo. Problemas na empresa, algo assim. E ele sempre tinha sido um alcoólatra, ela passava todo aquele tempo lá em casa exatamente pra fugir dele.
Para esquecer disso meus pais me mandaram pra Espanha, visitar meus avós. Lá conheci Sofia, que foi minha professora no curso de espanhol da embaixada. Morena, elétrica, filha de bascos. Eu ia ficar só um mês lá, mas quis mais uma semana pra poder me despedir melhor dela. Um namoro de verão, desses sem compromisso, com uma mulher mais velha, que tenta te ensinar o que você não sabe e acha graça nisso.
No dia do meu embarque ela não foi se despedir. Pelos monitores de TV do aeroporto de Madri eu vi o nome dela na lista de terroristas mortos pela polícia num atentado do ETA à Barcelona. Um pouco do meu coração ficou em Madri naquele dia.
Com 20 eu fui reencontrar Luana, uma prima de segundo grau, que eu não via desde pequeno. Nos aproximamos muito, mas basicamente como amigos. Ela não era exatamente bonita e eu não me sentia preparado pra ficar com alguém de novo.
Mas um dia acabamos nos beijando, os dois bêbados. Tentamos não deixar que isso atrapalhasse a amizade nem fazer daquilo nada de mais. Ela era jogadora de handebol, fazia parte da seleção estadual até, aquela medalha no meu armário é dela, você pode reparar. E fui num jogo de handebol que aconteceu. Ela estava marcando uma garota enorme, praticamente um tanque de guerra panzer nazista, chamada Popota, me lembro até hoje. O jogo estava 17 a 17 e a Popota recebeu a bola na ponta direita da quadra. Fez o movimento de cortar para o meio e arremessou. Luana se jogou para defender, mas não se protegeu do jeito certo e a bola bateu na cabeça. Era uma bola dura e como eu disse…Popota era um monstro.
Lu caiu inconsciente ali mesmo. No hospital descobriram que uma artéria havia se rompido no cérebro. Ela entrou em coma. Acho que nem os médicos entenderam direito o que aconteceu. O pai dela ameaçou Popota de morte, mas ela deu uma surra nele e ele viu que não adiantava culpar ninguém além do destino. Uma semana depois do acidente ela ainda estava em coma e eu, chorando, disse, sentado na beira da cama, que ela sempre seria minha namorada. 37 dias depois a atividade cerebral cessou. Ela ficaria feliz de saber que os órgãos dela foram sido doados.
Tranquei a faculdade. Meus pais me mandaram pra uma espécie de clínica/spa na Bahia. Eu sentia que de alguma forma aquilo tudo era culpa minha e não queria nunca mais ficar com ninguém. Passei a temer as mulheres, pelo mal que eu podia fazer a elas. Simplesmente havia alguma coisa em mim que causava dor às pessoas que eu amava. Mas Clarice não acreditou em mim.
Ela cantava num trio e sonhava em um dia ir pra Salvador cantar num grande bloco. Era simples, divertida, tinha toda aquela calma que se supõe que uma baiana deva ter e mais um jeito de criança, uma inocência impressionante mesmo. Insistiu tanto em mim, confiou tanto em mim, que nós ficamos, com a condição de que ela nunca considerasse aquilo um namoro. E fomos ficando. Passamos 8 meses juntos, até chegar o carnaval.
Estávamos em janeiro, mas as coisas já tinham começado a ficar movimentadas por lá. Fomos pra Salvador, onde ela tinha começado a cantar num bloco pequeno, mas que já era, pelo menos em parte, a realização de um sonho pra ela. Num dia, começo de janeiro, ela dedicou, de cima do palco, uma música pra mim, durante uma festa. “Essa é pro meu namorado, Ricardo!”. Provável que você nunca tenha ouvido a música… É aquela “sou um peixinho fora da água sem você, e não demore volte logo, bem querer”. É, você nunca ouviu.
Depois disso nós brigamos, claro. Eu tinha feito ela prometer que nunca ia dizer aquilo. Mas ela sorriu e aquele sorriso me desarmou. Eu deveria saber que não ia dar certo, mas eu acreditei que poderia. Eu sou culpado por acreditar? Provavelmente sim.
Na terça-feira de carnaval daquele ano, quando ela cantava no alto do trio, alguém lançou uma garrafa de água mineral pra que ela pegasse, afinal, todos suavam absurdamente no calor da Bahia. Ela se esticou para alcançar e o fio do microfone se enrolou nos seus pés. Ela tropeçou e caiu do alto do trio, sendo logo depois esmagada pelas rodas. Você deve ter reparado que eu choro sempre que ouço “Água Mineral” ser cantada. Espero que você entenda agora.
Depois disso eu vi que teria que me afastar, definitivamente, de qualquer mulher. Fui para o monastério da ordem Franciscana, no interior de Minas. Era uma vida simples, mas tranqüila. Eu me sentia satisfeito, finalmente podia viver em paz. Ou pelo menos eu pensava assim. Até que fomos fazer uma visita a uma comunidade carente numa cidade próxima. O lugar era triste, desolado, pobre. Lá eu conheci Lucinda, a professora da única escola do lugar. Idealista, recém-formada, estava tentando melhorar a qualidade da educação das crianças e pediu ajuda aos monges. Eu, por ser o mais novo do mosteiro, além de ser articulado e gostar de crianças, fui indicado pra ajudar a professora no que ela precisasse.
Não demorou muito para que um sentimento nascesse entre nós. Mas eu fiz questão de contar a minha história toda, para que ela visse como nada de bom poderia surgir daquela idéia. Mas ela era cabeça-dura e eu, fraco e carente após três anos sem contato com nenhuma mulher, aceitei. Abandonei a ordem e fui viver com ela. Decidimos ficar logo noivos, talvez fosse apenas o namoro a causa de tudo. 3 dias antes do casamento ela fugiu com um ex-namorado. Confesso que até certo ponto eu respirei aliviado, afinal, as coisas haviam terminado bem.
Mas não terminaram, é exatamente por isso que eu estou contando isso tudo pra você agora. Eu soube ontem que Lucinda morreu dois dias depois do dia que seria o do casamento, esmagada por um porco caído de uma sacada em Caxambu. Sim, uma senhora idosa criava porcos em seu apartamento, talvez por saudades de sua vida na fazenda. Sim, porcos. É, complicado de entender.
E quando eu soube disso eu tive que te contar. Porque quer dizer que a maldição não acabou…Eu queria te dizer que só aceitei começar esse namoro porque achei que tudo já tinha passado, mas agora…Lucinda morreu porque não me deu tempo de terminar com ela, então teoricamente ainda era minha namorada. E todas as minhas namoradas morrem 37 dias depois que começam a namorar comigo, desde a Carla até hoje…E eu não quero isso pra você…Por isso que hoje, quando nós completamos 36 dias de namoro, eu vim aqui terminar tudo. Porque eu te amo e não quero que nada de ruim aconteça com você. Se eu faço isso é pra te proteger. Você entende? Eu espero que entenda…Isso dói em mim tanto ou mais do que dói em você, porque você pode achar outro cara, mas eu sei que você era minha última chance de felicidade. Mas eu vou aprender a viver sozinho.
Não vou mais poder te ver, porque não ia conseguir suportar você levando sua vida em frente, sabendo que eu nunca vou poder fazer a mesma coisa. Mas saiba que eu te amo. Seja feliz.
“E aí? Ela acreditou?”
“Não sei bem…ela estava tão chocada que mal disse uma palavra…Só foi embora…mas pelo olhar, parecia ter pena de mim…Então deve ter funcionado, eu acho.”
“Mas você forçou a barra dessa vez, você sabe…”
“Você acha?”
“Porra, Ricardo, Popota? Popota matando a menina com bolada foi dose…E aquela do trio eu não sei como você falou sem rir.”
“No começo foi fácil, mas do meio pra frente ficou complicado inventar…O porco caindo da sacada eu sinceramente não sei de onde saiu…”
“Mas sério, precisava disso tudo? Maldição dos 37 dias, inventar gente morta…”
“Queria que eu fizesse o que? Fosse sincero e dissesse que é porque ela ronca na cama? Eu sou um cavalheiro, pô!”
“É, nisso você tem razão…Mas a Popota foi sacanagem…”
“Ok, a Popota eu admito que foi forçada…”