Gym class heroes

Setembro 29, 2009

E eu voltei a malhar. Sim, foi uma decisão difícil e que sim, só aconteceu porque eu cheguei ao extremo do descaso com a minha forma física. Não que eu seja exatamente um cara vaidoso ou daqueles que cultuam o corpo, já que na verdade eu me preocupo com a minha aparência mais ou menos tanto quanto o pessoal da Atlântida se preocupava com vazamentos na caixa d’água, mas chega num ponto em que você precisa decidir se vai ser um cara que consegue apoiar um prato de comida na barriga ou não e eu acabei decidindo pela segunda opção. Mas aí vem um problema clássico da malhação: ir numa academia.

Não vou citar coisas como as dores no corpo, os exercícios que te fazem se sentir um idiota (“isso, agora você levanta essa perna, gira o pescoço, pula de lado e começa a recitar a música tema de Dragon Ball. Como? Não, não, isso não vai melhorar o seu físico, é só pra alegrar meu dia mesmo”) ou mesmo a minha vergonhosa avaliação física (ninguém nunca tinha dito coisas tão ruins sobre mim antes de ao menos uns seis meses de namoro, eu acho), porque acho que esses não são de culpa exclusiva do ambiente (mesmo se eu fizesse como o Rocky e malhasse arrastando alguém numa planície russa eu ainda teria que aguentar o Paulie dizendo que eu estou fora de forma), a questão é que o próprio espaço físico da academia colabora bastante para tornar toda a experiência mais dolorosa e cansativa.

Primeiro por conta das pessoas que freqüentam a academia, um tanto quando diferentes das pessoas com quem eu costumo conviver. Nada contra as mulheres usando roupas coladas (coool) ou as senhoras muito idosas que tem uma carga de supino maior do que a minha, mas admito que é evidentemente complicado pra mim conviver com os caras bombados que me olham como se eu fosse um coelho em um DVD sobre grandes escapadas feito pelo Animal Planet. E isso não apenas pela clara situação de inferioridade física em que me encontro, mas também pelos momentos visualmente desagradáveis que a convivência com certos caras obcecados por musculação pode te proporcionar, como ver um homem beijando o próprio bíceps. Sério, eu já vi isso. E é tão bizarro quanto parece.

Outro problema é a minha natural dificuldade com os aparelhos de musculação, só comparável com aquela que existe entre John Connor e as máquinas em geral: pesos se soltam sozinhos, anilhas me atacam, o Leg-press ganha vida e tenta me derrubar no chão, cabos se soltam e até mesmo a esteirinha de abdominal parece estar possuída por algum ente maligno. É como se diante da minha simples presença todo o espaço físico da academia notasse um elemento estranho e votasse, em unanimidade, pelo meu imediato extermínio, sem direito a ressarcimento do dinheiro da matrícula para a minha família, claro.

E aí vem, é claro, a música. Nada é pior numa academia do que a música. Se você tem azar o seu aparelho fica logo ao lado da sala das aulas de dança e você pode ouvir coisas gloriosas como um calypso, um forró, um zouk (seja um zouk o que for), e se você tem mais azar ainda vai ficar lá no meio da academia, onde toca essa mágica combinação de música dance ruim atual e música dance ruim antiga chamada “música de academia” cuja função parece ser a de te apressar pra terminar sua série logo e se afastar daquele som torturante ou mesmo fazer com que você perca peso porque a gordura vai querer fugir do seu corpo pra nunca mais ter que ouvir Lady Gaga.

Em suma, voltei a malhar e malhar é ruim, cansativo, chato e levemente degradante em vários momentos, mas é uma coisa que eu realmente preciso fazer se não quiser, num futuro próximo, virar um cara com problemas de joelho, de saúde e em quem todas as camisas ficam apertadas. Espero que quando eu escrever um post dizendo que parei de malhar por preguiça vocês joguem isso na minha cara e riam de mim apontando e me chamando de gordinho.

Vinde a mim as pistoleiras

Setembro 26, 2009

Eu nunca entendi direito essa coisa de “relacionamentos por interesse”. Uma das razões é porque literalmente falando o conceito não faz sentido, afinal, ninguém começa um relacionamento sem que haja algum tipo de interesse. A pessoa pode, é claro, despertar interesse por ser bonita, por ser inteligente, por ser engraçada, por ser sensual, por saber imitar o Quagmire do Family Guy, por conseguir construir um forte apache em escala real usando peças de Lego ou mesmo por ter grandes quantias de dinheiro em sua conta bancária, mas isso não altera o conceito de que um relacionamento que comece por qualquer uma dessas razões vai ter começado evidentemente por “interesse”.

Entendido que todo relacionamento, de toda natureza, começa por algum tipo de interesse, vamos falar do tipo de interesse que mais provoca reações negativas e críticas por parte da tradicional família brasileira: o relacionamento por interesse financeiro (ainda que se você chegar em casa com uma garota que imite o Quagmire seus pais podem não te dar o suporte que você gostaria). Por que se critica uma relação em que uma das partes se sentiu atraída pela outra basicamente por causa de uma situação financeira mais favorável? Porque se considera que ali existe uma questão moral relacionada ao fato de que um relacionamento “honesto” deveria surgir baseado em premissas e exigências diferentes destas e que a condição financeira não pode ser o principal critério para a escolha de um parceiro. Mas por que? Afinal, todos nós temos nossos critérios básicos, as premissas essenciais que nos levam a nos interessar por uma pessoa e não por outra, a investir em um relacionamento e não em outro. Você pode considerar indispensável que ela seja muito inteligente, ela pode considerar essencial que você goste de viajar, ele pode considerar condição sine qua non estar com alguém que saiba quais são as capitais de todos os estados norte-americanos. Isso pode ser realmente criticado?

Os critérios são um direito pessoal de cada um, uma forma de projetar e refinar sua busca por “alguém”. Ok, uma garota que quer um cara com dinheiro é uma “pistoleira” e portanto desonesta. Bem, eu não consigo me imaginar com uma garota sem senso de humor, isso me torna, sei lá, “humoristicamente interesseiro”? O fato de você querer ficar com um cara lindo ao invés de um cara feio te tornaria “esteticamente interesseira” então? Ou eu apenas sou um cara que preza pela característica “x”, você uma pessoa que preza pela característica “y” e a “pistoleira” aí de cima alguém que preza pela característica “z”? Mas bem, desses critérios apenas dois são considerados “legais” e o outro não. Afinal, quando você já viu alguém ser criticado por querer ficar com uma pessoa bonita?

Eu faço questão de uma garota engraçada por que? Porque eu acho que uma coisa que vai pesar muito, dentro do meu temperamento e das minhas escolhas de vida, é alguém com a capacidade de entender meu humor e viver no mesmo nível de seriedade que eu (o chamado “nível pré-Bozo”). Você quer um cara que você ache lindo porque preza a atração que você vai sentir por aquela pessoa e porque não quer ter colocar um saco de mercado na cabeça do seu namorado quando for sair (essas coisas sufocam mesmo, true story) e ela quer um cara com dinheiro porque ela preza a situação financeira e o conforto que isso pode oferecer acima de todos os outros critérios. Mas é com isso e apenas com isso que estamos lidando: critérios. E cada um escolhe seu caminho pra tomar as próprias escolhas baseadas nos próprios critérios.

Estou aqui defendendo as mulheres (e homens) consideradas interesseira(o)s? Não, eu sou romântico demais e ainda não ganho o bastante pra isso, mas apenas acho que uma pessoa deve ter o direito de decidir o que considera essencial numa relação sem que isso resulte necessariamente num julgamento moral, não? Por mais romântico que se seja não se pode culpar alguém por achar que na vida um parceiro que pode oferecer conforto financeiro é mais importante do que um que pode oferecer conforto emocional. Ou isso ou eu estou apenas tentando já me salvaguardar por caso desse lance de musculação funcionar muito bem e eu largar o emprego pra me casar com uma velhinha rica.

P.S: Este texto é apenas uma teorização sobre o tema, não representando a opinião do autor sobre o assunto em questão.

P.P.S: O autor gosta de falar de si mesmo na terceira pessoa.

Santo post pago, Batman!

Setembro 24, 2009

capa

Ele voltou, o boêmio voltou. E junto ele trouxe a edição número 13 do Farrazine, com Legião, uma HQ de Ricardo Andrade e Snuckbinds, e Albaria, do Wilton Pacheco (que também é o entrevistado da edição. Nós adoramos esse cara. Só não pusemos um pôster dele no meio da revista porque bem…a gente gosta do cara, mas não desse jeito esquisito…). Também temos Batman, censura, quadrinhos bíblicos e inflamáveis, Raul, blues, nostalgia, Star Warghs, trave na treva, Bar do Limbo, sombras vivas e o keyboard cat. Ok, não temos o keyboard cat, mas temos “37 dias”, um conto meu, ilustrado pelo Greati, que é quase tão legal quanto. Play them off, Farrazine.

Você pode baixar o Farrazine aqui em versão RAR. Ou aqui em versão PDF. Ou você pode deixar isso tudo de lado e entrar no blog do Darth Vader, mas eu gostaria que você baixasse o zine antes, ok?

Voltando do trabalho de metrô, quase seis da tarde, cansado, mochila nas costas, fones de ouvido no volume máximo, uma música sobre estar esperando por alguém na neve até estar congelado como Walt Disney. Estou eu de pé, meio pendurado, curtindo aquele clima de “rave gospel numa lata de sardinhas” que só o transporte público carioca consegue dar, quando reparo num casal.

Os dois tinham vinte e poucos anos e estavam sentados num banco próximo a mim, ouvindo música juntos, compartilhando os fones de ouvido. Claro, isso por si só já é…sei lá…romântico…(ainda que seu otorrino vá dizer que é pouco higiênico, mas o que otorrinos entendem sobre romance?), mas para eles era pouco. Os dois ainda faziam questão de cantar um pro outro, intercalando beijos com os versos da música, sempre com aquele sorriso de pessoa apaixonada, daqueles que parecem tão grandes que você tem medo que a pessoa engula as próprias orelhas. E durante cinco estações eles ficaram assim, cantando um para o outro, sorrindo e se beijando, até que a garota teve que descer do vagão. Se despediram e ela saiu, caminhou em direção a janela e encostou os lábios no vidro pelo lado de fora, enquanto ele fazia o mesmo pelo lado de dentro (sim, seu médico também dirá que isso não é muito recomendável, ainda mais em tempos de gripe suína e tudo mais). Logo depois disso ela foi embora caminhando saltitante e ele continuou ouvindo música dentro do vagão, sorrindo para o vazio como alguém que tivesse injetado 600 g de açúcar refinado na própria veia.

Vendo aquele casalzinho ali com toda aquela felicidade a primeira coisa em que eu consegui pensar foi em como aquelas duas pessoas conseguiram criar uma pequena bolha em torno delas. Eles estavam ali, juntos, e simplesmente não notavam o resto do mundo, não se incomodavam com nada. O metrô lotado, as pessoas esquisitas travando as portas, o ar-condicionado desregulado, o cara ouvindo pagode no celular como se estivesse num churrasco, a voz metálica assustadora anunciando as estações. Enquanto eles estavam juntos não viam problemas, não sentiam medos, não viam as outras pessoas, não sentiam vergonha de nada que fizessem se fosse um pro outro. Eles tinham, não sei como dizer, a própria bolha pessoal de felicidade.

E estou eu lá ainda olhando meio abobado para o casal  e quase vendo balões em forma de coraçõezinhos quando me viro para o lado e tem uma garota de óculos, mais ou menos da mesma idade que eu, também reparando na cena. Ela nota que estávamos os dois olhando pra mesma direção, dá uma ajeitada na franja  e olhando pra mim, diz com  uma cara irritada e aquele sotaque carioca puxado: “mas cantam mal pra cacete os dois, não? Puta que os pariu…”.

Não durma nas reuniões. Algumas pessoas inexplicavelmente levam isso para o lado pessoal e ficam realmente chateadas com esse tipo de atitude. Boas sugestões para evitar o sono durante um “comitê de definição de tarefas para o comitê de gestão do grupo de trabalho de regulamentação de comitês e grupos de trabalho” são dobrar e desdobrar as mangas da camisa, jogos de celular, imaginar as pessoas na sala vestidas de panda, tentar reprisar mentalmente cenas de alguma novela mexicana antiga ou tentar traduzir tudo que as pessoas falam para o espanhol. Evite atividades como dança de salão, yoga e pintura a dedo.

Gaguejar, pedir desculpas o tempo todo e ter dificuldades para assumir posturas de liderança costumam minar as suas possibilidades de crescimento na empresa, reduzindo sua credibilidade como postulante a uma futura posição gerencial. Mas apenas quando levam uma criança no escritório e você faz aquela imitação de coelho usando uma pastilha de hortelã entre os dentes é que eles realmente tem certeza que você é meio idiota.

Terminar em 20 minutos um trabalho que o funcionário antigo demorava duas semanas para fazer não apenas não ajuda a passar uma imagem de eficiência e capacidade profissional como ainda queima o filme do funcionário antigo e faz com que todo mundo te passe qualquer tipo de trabalho achando que você vai demorar apenas 20 minutos.

A secretária novinha e bonita não vai dar mole para você e sim para o seu gerente. E quando você for gerente já vai estar casado. E dependendo do tempo que você demorar ela não vai ser mais tão novinha e tão bonita. (ou então ela namora com um cara que ganha menos do que você, não é muito esperto e ainda baba quando fala, o que te faz ficar sem coragem de reclamar da vida porque esse tipo de coisa é que deve ser o chamado “amor verdadeiro”)

Você não relembra para o seu chefe a política da empresa sobre pornografia no escritório.

Quando você sai mais cedo você não se despede.

Existe uma frase pior do que “eu gosto de você, mas como amigo” e ela é “te incluí naquele grupo de trabalho sobre…”.

Não irrite nunca as pessoas da copa. Você precisa deles mais do que eles precisam de você. Além disso eles tem acesso a sua comida enquanto você está fora e são eles que preparam seu café em algumas ocasiões.

Não se engane. As pessoas podem ser legais, os caras maneiros, as garotas gatinhas, as funcionárias idosas gentis, os funcionários mais velhos prestativos, o seu chefe educado e sua gerente justa, mas sua única amiga na empresa é e sempre vai ser a máquina de café, ainda mais depois que passaram a permitir que você mesmo regule o açúcar.

Colete provas físicas de toda e qualquer coisa que for prometida pra você. Telefonemas? Ruins. E-mails? Bons. Conversa pessoalmente? Ruim. Conversar pessoalmente com ata registrando cada frase? Bom. Papo com seu chefe sobre férias? Péssimo. Papo com seu chefe sobre férias gravado pelo Cacique Juruna? Excelente, ainda que esquisito.  Em pouco tempo você vai entender que a necessidade de ter algum tipo de comprovação física de tudo é tão importante que se você for transar com alguém no trabalho vai fazer questão de passar as nádegas dos dois na máquina de Xerox.

It’s all about the music

Setembro 16, 2009

Eu gosto muito de musicais. Claro, eu não comento isso muitas vezes, afinal, quando se é um cara de 24 anos solteiro que não gosta de carros e até bem pouco tempo morava com a mãe, dizer que gosta de musicais é como colocar mais uma pecinha nesse belo quebra-cabeças de 500 peças que quando unidas formam para algumas pessoas a frase “mas é um baita de um veado mesmo”. Só que eu realmente gosto de musicais. Não apenas pelo fato de que eu gosto muito de música e cinema e quando as duas coisas se unem a chance de que eu não goste é praticamente nula (só se as músicas forem muito, mas muito ruins e o roteiro for uma verdadeira porcaria, algo como Uwe Boll dirigindo “Didi e a cantora de mambo Lili”), mas porque os musicais pegam pesado em uma das partes que eu mais gosto na ficção, a suspensão da descrença.

Suspensão da descrença, pra quem não se lembra, é uma etapa do processo de compreensão da ficção em que você abre mão de certos pressupostos da realidade para poder aproveitar melhor a experiência ficcional. Por exemplo, quando você vê um filme sobre uma invasão alienígena, ignorar que não existe comprovação de real vida extraterrestre faz parte do processo de suspensão da descrença, assim como ignorar que existe um limite de balas por arma num filme de faroeste e que nem mesmo o Bruce Willis pode derrubar um helicóptero usando um carro em Duro de Matar 4. Isso é, em uma visão simples e tosca, suspensão da descrença: ignorar algum aspecto relativamente forçado da obra para não tirar toda a graça dela. (mães e namoradas costumam ter algumas dificuldades com esse tipo de conceito, dizendo frases como “é claro que uma aranha radioativa não dá poderes, só alergia” ou “mas nunca que ele ia conseguir acertar um tiro dessa distância!”)

E a graça dos musicais está nisso: eles exigem que você, por um bom tempo, abandone totalmente o conceito de que as pessoas não saem cantando por aí no mundo real, o que, vamos admitir, pode exigir um grande esforço mental. Pense em “Cantando na chuva”, por exemplo. Um cara, adulto, num dia chuvoso, pendurando-se em postes e rodando com seu guarda-chuva enquanto canta que está cantando na chuva e feliz novamente. Isso no mundo real resulta em que? Internação, medicação pesada, uma licença longa do trabalho e ter que mudar de cidade. Mas no filme isso é normal, ninguém acha excessivamente esquisito e todos ficam sorridentes. Pense em todas as vezes em que Gene Kelly ou Frank Sinatra saem dançando e sapateando no meio de uma discussão e a outra pessoa não acha que eles estão drogados, pense em Hair e naqueles cabeludos da década de 60 cantando por aí…Ok, Hair foi um péssimo exemplo, as pessoas realmente eram daquele jeito na época.

Nisso mora a graça dos musicais pra mim: na visão de um mundo mais simples, mais irreal, onde cantar na rua é normal, dançar com uma bengala diante de uma fonte é socialmente aceitável e “Xanadu” não vai obviamente destruir a carreira de qualquer um que tenha participado da produção em qualquer nível. Musicais se passam em universos paralelos de compreensão mútua e entendimento geral, onde ninguém estranha nada, todos abrem seu coração na frente de estranhos e você pode começar uma conversa com “eu não gosto do seu pai” e terminar com uma cover de “Like a virgin” acompanhada por um acordeom enquanto dezenas de garotas vestidas de girafa dançam passinhos de polca. O que qualquer um de nós não daria por um dia num mundo assim? Garotas vestidas de girafa dançando polca, caramba!

Pense naquela discussão com seu namorado que, se a sua vida fosse um musical, você poderia ter entrado com um “You’re so vain” (sim, eu gosto de Carly Simon..mas não muito), aquele dia em que você estava na fossa por causa da sua ex-namorada e sentiu vontade de cantar “I hate it here”, mas faltou acompanhamento musical ou mesmo aquela final de campeonato em que, ok, seria um clichê, mas todo mundo queria cantar “We’re the champions” e se segurou.  Musicais são interessantes por isso, por exemplificar na ficção um mundo em que as pessoas podem se expressar de forma mais clara, com uma catarse de via artística, sem que todo mundo fique olhando torto. Musicais são legais! Ou pelo menos é isso que você deve pensar quando olhar para aquele seu amigo que está se empolgando demais com aquelas cenas de Hairspray ou Os Produtores. Porque sério, ele não é gay, cara. Na boa mesmo.

Cara timidez, venho através dessa terminar o nosso relacionamento. É, eu sei, foram muitos anos e eu admito que sempre te achei até bastante charmosa, mas penso que agora, nessa altura do campeonato, já é hora de nos separarmos. Sabe aquela relação que quando começa é bonitinha mas depois você cresce e nota que perdeu o sentido, passou apenas a complicar a sua vida? Nós mudamos, eu mudei. Precisei tomar muita coragem pra te dizer isso, mas espero que você entenda.

O mesmo vale para você, senso de humor. Não, não que eu esteja terminando, mas temos que repensar nossa relação. Nós fazemos mesmo bem um pro outro? Em que sentido você torna minha vida melhor? Claro, eu te adoro, eu te acho o máximo, mas e todas as outras pessoas? Eu digo isso porque quase ninguém entende a nossa relação e eu estou cansado desse “nós dois contra o resto do mundo”. Amigos não gostam de você, família não gosta de você, quando nós nos encontramos no trabalho eu quase sempre passo vergonha. Claro, nunca comentei isso contigo, mas sabe quantas vezes as pessoas já me pediram pra que quando eu saísse deixasse você em casa? Não digo terminar, mas acho que temos que nos ver menos, entende? Precisamos mesmo repensar a nossa relação.

E tem você, complexo de inferioridade.Sim, eu sei o que você vai dizer. Que você já sabia, que você tinha certeza que não ia durar, que você sempre esteve preparado pra que terminasse assim, mas não é verdade.O problema sou eu, não você, entende? Você é um grande complexo, sério. Dos mais complexos,cara. Sinceramente, eu não sei como teria passado a adolescência sem você (na verdade eu sei) e pode ter certeza que eu sempre vou me lembrar de você. Não, não estou te trocando por um complexo de superioridade, nada disso, não precisa chorar. Eu apenas preciso de um tempo sozinho, longe desse tipo de companhia. Tenho certeza que em breve você vai achar algum adolescente emo problemático com quem ficar, pode apostar.

Sobre você barriga, eu realmente preciso ser direto. Eu sei pra onde a nossa relação está indo e você sabe muito bem que eu não quero compromisso nessa altura. E se nós continuarmos juntos agora a nossa relação vai provavelmente durar pra vida toda (isso se não crescer) e eu depois não vou conseguir ter a força de vontade pra me livrar de você. Mas claro, te prometo que a separação vai ser gradual, ainda mais porque estamos no começo, apenas nos conhecendo, nada de te abandonar de uma hora pra outra. Mesmo porque eu não tenho grana pra uma lipo.

Quanto a vocês, quadrinhos…eu tenho que dizer que…ok, brincadeira, não vou me separar de vocês. Fiz isso apenas pra ver a cara que vocês faziam. Não, senso de humor, não voltamos ao que éramos antes, foi apenas uma recaída.

E agora tem vocês dois, barba e óculos. Nós curtimos um bocado juntos, não? Colégio, tempos da faculdade, férias… Foram bons momentos. Irritamos namoradas, causamos briga com minha mãe, enfrentamos piadinhas juntos. É, bons tempos aqueles. Mas bem…as coisas mudam, certo? Sério, barba, nada pessoal, mas…acho que alguma coisa da magia que existia entre nós se perdeu.  Não combinamos mais, quando estamos juntos eu me sinto velho, não sei. Claro, não é o final, não é definitivo. Talvez nas férias, quem sabe? A culpa não é nem minha nem sua, talvez seja apenas o momento que seja errado. Quem sabe no futuro as coisas não se acertem entre a gente? Mas não, cavanhaque, com você a história acabou mesmo. Não sei onde eu estava com a cabeça quando saí contigo. Você me envergonha, cara. E já você óculos… vai parecer cruel mas…é melhor não andarmos mais juntos em público, sabe? É que…olha, eu sou a última pessoa pra dizer isso, mas…você é muito nerd, sabia? Mas bem, ainda podemos ficar juntos lá em casa, pra…sei lá, ler um livro, ver TV, alguma coisa desse tipo…Espero que você também entenda.

Yuri

Como boa parte de vocês sabe, eu tenho um grande amigo chamado Yuri. Na verdade mais do que um amigo Yuri é quase um irmão. Na verdade mais do que um irmão Yuri é um irmão mais velho, uma figura de referência. Quer dizer, na verdade mais do que um irmão mais velho Yuri é um guru, um cara a quem eu recorro quando surgem dúvidas filosóficas realmente importantes em minha vida (“não existe ‘quina pra nada’ em pôquer, certo?”) e com cuja sabedoria e supervisão eu sei que sempre posso contar. Na verdade mais do que uma figura de referência, um guru, Yuri é…é…é, um guru que usa camisas do Olodum mesmo sendo fã de Metallica. E nada melhor na véspera do aniversário desse grande amigo do que compartilhar com vocês algumas das grandes lições e orientações de vida que eu recebi dele durante esses mais de dez anos de amizade. Parabéns Yuri, feliz aniversário, boa sorte com esses 25 anos.

Não existe mulher impossível, existe cantada ruim” – Com essa frase Yuri tenta nos demonstrar que todo e qualquer objetivo é atingível se abordado da forma certa e com o nível de esforço necessário. Mais do que dizer que sim, dá pra ficar com a mulher que você quiser se você souber atingir o nível de exigência dela (algumas podem exigir que você nasça de novo, mas bah, se o Mario e o Luigi fazem isso direto, por que não você?), a mensagem central é de que tudo é possível, sonhos existem para ser sonhados e as únicas coisas que limitam um homem são os limites que ele mesmo se impõe. E claro, dá pra ficar com qualquer mulher se você souber chegar do jeito certo. Quer dizer, ao menos pro Yuri dá, eu sinceramente nunca acreditei nesse papo.

“Você nunca está velho demais para o carnaval de Rio Branco” – Mais uma vez Yuri usa de uma metáfora simples para nos dizer que nunca é tarde demais para nada. Não, com isso ele evidentemente não quis dizer apenas que nós não devemos nos sentir ridículos por estarmos aos 25 anos sentados numa praça aproveitando um carnaval em que todo mundo parece ter 19, que deveríamos repensar nosso conceito de maturidade depois de gastarmos horas dizendo “Ei, você conhece o Bruno?” ou mesmo de incentivarmos o John a abordar mulheres enquanto dança com uma latinha de cerveja na cabeça. Não, nada disso. Yuri quer nos mostrar que a juventude de que precisamos existe em nossos corações, em nossas mentes e isso não tem nenhuma relação com o fato de que a viagem para Rio Branco é mais barata e por isso sobra mais dinheiro pra bebida.

“Nós não batemos. O Gol preto é que nos cortou” – Com essa frase Yuri nos ensina não apenas que se deve mentir pro pessoal do seguro quando necessário como também que se culpar não leva a nada nessa vida. Pra que acumular nas suas costas tanta culpa e tanto peso que evidentemente não vão acrescentar nada ao seu aprendizado e ao seu crescimento como ser humano? Não deu certo? Deu merda?  Fodeu tudo? Você saiu dirigindo bêbado logo na saída do JF Folia,colocou 200 km/h numa reta de 500 m, entrou em cheio na rotatória e agora tem um cara de bicicleta te dizendo que ta vazando óleo? Relaxa, foi culpa do maldito cara do Gol Preto que cortou a gente. Filho da mãe! E disso se tira, é claro, outra lição, a de que a trajetória circular diante de uma rotatória não é uma regra, apenas uma sugestão bem embasada.

“Ei, esse whisky é legítimo, estou te falando” – Com esta declaração, dada diante da garrafa de uma bebida de cor âmbar em cujo rótulo se lia “Hecho en La Estrada del camiño de Asunción, Escotchia”, Yuri nos demonstra que acima de tudo é preciso acreditar. Acreditar que a Escócia agora fica ali perto do Uruguai, acreditar que aquela festa no Sítio do Vicentão ia mesmo ser legal, acreditar que nunca iríamos apanhar naquela festa de quinze anos, acreditar que aquela bola que o Ramos chutou iria mesmo pra fora. Sim, Yuri tal qual um Obama de outra cor, outro peso, outra religião, outra nacionalidade e…bem, tal qual um Obama que não se parece em nada com o Obama, diz que acima de tudo devemos acreditar.

“Qualquer coisa se torna comestível com a quantidade certa de parmesão” – Com essa frase Yuri nos mostra que não sabe cozinhar. E que consegue dizer coisas muito esquisitonas de vez em quando, se você for parar pra pensar…

Ga-ga-gagos

Setembro 7, 2009

stutter

*Este texto foi produzido nos tempos de Viçosa, antes da mudança pro Rio, no período máximo da tensão pré-convocação e foi reencontrado num pen-drive, sendo publicado porque eu não gosto de desperdiçar um texto, por mais besta que ele seja…

Como eu já disse antes, eu ando nervoso, preocupado, ansioso e tudo mais. E diante dessa situação vem à tona outra das fascinantes características que me tornam esse partidão que todos vocês conhecem: eu sou meio gago. Quer dizer, meio gago não, porque “meio gago”, assim como “meio grávida”, “meio gay” e “meio alcoólatra” é um desses conceitos esquisitos que as pessoas inventam pra esconder parentes que as envergonham. E como o alcoolismo, a gagueira é uma coisa que pode ser controlada (dizem) mas que nunca acaba. Afinal, eu consigo passar horas sem gaguejar, mas subitamente a coisa volta e lá estou eu dando declarações remixadas de novo. Mas se vou falar disso, vamos começar pelo começo.

Ao contrário do que muitos pensam, não se começa a gaguejar assim que se começa a falar. Por mais engraçada que a idéia de bebês dizendo “gu-gugu dá-dádá” ou de crianças chorando “bu-buáááá” possa parecer para certas mentes doentias, quase todos os casos de gagueira de desenvolvimento (como o meu caso), começam na adolescência ou na pré-adolescência. Eu, por exemplo, era um garotinho nerd irritantemente bem articulado até os oito, nove anos, quando alguma coisa (minha mãe culpa o divórcio, meu pai culpa a mudança para Minas, meu avô Rubens culpava a zaga do América-RJ. Por tudo) me fez começar a gaguejar em diversos tipos de situação. Ou seja, em algum momento entre a separação dos meus pais e a minha ida pra Juiz de Fora, jazem a minha dicção e a minha fluência verbal, muito possivelmente ali perto da Casa do Alemão, na serra de Petrópolis.

E esse meu tipo específico de gagueira tem algumas particularidades interessantes que surgem do fato de ser um problema de cunho totalmente emocional, como por exemplo o fato de que a intensidade dela varia de acordo com a minha situação e estado de espírito (daí o “meio gago”). Se eu estou, por exemplo, conversando com a minha mãe, batendo papo com amigos íntimos, bêbado (ou mesmo conversando com a minha mãe e com alguns amigos íntimos enquanto estou bêbado), eu simplesmente não gaguejo. Por outro lado, em situações em que estou acuado, nervoso, inseguro, preocupado, ou chegando em alguém (o que costuma me deixar acuado, nervoso,inseguro e preocupado) eu simplesmente sou incapaz de concatenar qualquer palavra sem transformá-la em um polissílabo repetitivamente bizarro. Mas claro, isso não segue sempre essa lógica. Se eu ficar suficientemente irritado, empolgado ou mesmo mudar meu tom de voz ou meu ritmo de falar, a gagueira também desaparece totalmente, o que seria uma boa solução se fosse possível estar sempre revoltado com o ataque do Flamengo, sempre falando sobre quadrinhos ou sempre usando sotaque gaúcho e imitando o Selton Mello.

E mesmo que eu já tenha aprendido a conviver com o meu problema de dicção, ser gago ainda tem seus aspectos irritantes. Além do aspecto de não falar direito e repetir sílabas, claro. Primeiro são as péssimas piadas de gago. Sério, fora aquela do guia africano avisando que o hipopótamo está chegando, é muito complicado ouvir boas piadas de gago nos dias de hoje*. Outro lado chato é que a gagueira não é realmente vista como um problema ou um “handicap”, ainda que, num certo nível, ela seja. Afinal, pessoas com problemas de dicção são livremente zoadas por aí, o que não é feito (em locais civilizados) em relação a pessoas com outros problemas ou limitações. Afinal, imitar um gago hardcore é quase tão cruel quanto dar uma rasteira num cara de muletas, mas mesmo assim é algo muito mais aceito pela sociedade (e eu já passei pelas duas situações, eu sei bem).

Ou seja, ser (estar) gago é basicamente um saco. Te faz ficar tímido (ainda que eu não saiba direito se eu sou um cara gago que ficou tímido ou um cara tímido que ficou gago), te elimina várias oportunidades profissionais (“sabe aquele seu sonho de narrar rodeio, Toby?”), atrapalha a sua vida pessoal (sério, só quem acha gagueira fofinha é fonoaudióloga, e da mesma forma que um dono de funerária acha uma chacina “simpática”) e ainda pode colocar sua vida em risco (“eu preciso de um mé-mé-mé-di-di–…ah, esquece, acho que vou morrer mesmo…”). Só existe uma e somente uma coisa no universo que consegue tornar menor o sofrimento de um gago: ver um fanho falando. Sério, fanhos são hilários!

Ok, ok, foi uma piada ruim…Mas quantas boas piadas de fanhos existem também, né? Complicado, cara…

*Na verdade a coisa mais engraçada relacionada a gagueira que eu vi nos últimos anos foi uma propaganda da campanha nacional de combate (ataque? extermínio? destruição?) da gagueira com o tema “Gagueira não tem graça”. Ou seja, se precisarem da definição de fail em termos de publicidade institucional, citem “fazer um gago rir numa propaganda com o tema gagueira não tem graça”.

Foras cinematográficos

Setembro 4, 2009

Fora Michael Bay: Não tem um roteiro ou um argumento lógico, mas é dito com tanta convicção, efeitos especiais e violência que, mesmo confuso, acaba te convencendo.

Exemplo: “Cara, nem rola porque eu estava vindo de avião e boooom, explodiu tudo e sabe aquela ponte da rua aqui do lado, aquela que tem o chafariz? Pááááá, caiu também e aí eu conheci um cara, mas hoje eu estou numa fase de só sair pra dançar e tal, aí o telhado explodiu e pooooooou, nem rola mesmo de ficar contigo”

Fora M. Night Shyamalan: Começa de forma convencional e termina com alguma reviravolta assustadora que, no final das contas, não faz sentido e não te impressiona muito.

Exemplo: “Olha, desculpa, eu gosto de você, mas eu tenho namorado, sabe? E eu estou morta.”

Fora Quentin Tarantino: Uma alucinante experiência visual cheia de referências a cultura pop, violência, drogas e uma trilha sonora sensacional cheia de músicas antigas.

Exemplo: “Olha, como diz em Marcos, capítulo 2, versículo 3, aquele que comete o pecado mas busca a redenção em suas ações haverá de encontrar a paz de Deus a menos que, como aconteceu naquele episódio antigo do Besouro Verde, seja assassinado por algum filho da puta viciado em crack. Em suma, não rola. Agora espera cinco minutos que eu vou ali chamar o Samuel L. Jackson e já volto.”

Fora Bergmaniano: Lento, filosófico,existencial, todo em preto e branco, quase ninguém vê e quem vê tem profundas dificuldades pra entender.

Exemplo: “Eu não posso ficar com você. Porque um dia nós vamos morrer, sabia? E afinal, quem sou eu? Quem é você? No que adianta ficarmos juntos se no final estamos todos sozinhos? E por que as coisas não estão mais coloridas? Hein?”

Fora francês: Fofinho, com muitos diálogos e muito pouca ação.

Exemplo: “Olha, você é um cara ótimo, eu realmente gosto muito de você mas existem coisas que impedem que isso aconteça porque, pensa só, tudo bem que nós dois somos jovens e a gente tem todo o direito de fazer coisas impensadas e talvez até mesmo errar mas você não acha que deveria existir algum tipo de busca maior do que apenas prazer insensato como se por exemplo a gente tentasse realmente fazer alguma com um sentimento e um significado além disso que…”[continua por mais duas horas]

Fora francês (variação Luc Besson): Funciona mais ou menos como um fora padrão, só que mais estilizado e colorido, cheio de coisas explodindo e com algum ator clichê aparecendo sem avisar.

Exemplo: “Olha [bum] eu [pow] não posso [ploc] ficar contigo [baaaaang] porque já estou com o Jean Reno.”

Fora cinema brasileiro da década de 70: Vocês transam durante duas horas num matagal com dois anões, o Costinha,a Xuxa usando uma máscara de coelho, Reginaldo Farias e o Hugo Carvana correndo pelados em torno de vocês e depois ela diz que você é muito legal mas não quer se comprometer. Ah, todos falam palavrões durante esse tempo.

Exemplo: Porra, merda, caralho, não quero ficar contigo, cu

Fora cinema brasileiro atual: Um fora simples, como todos os outros, mas feito com incentivo da Lei Rouanet.

Exemplo: “Olha, não tem como a gente ficar junto. E esse fora não teria sido possível sem a colaboração da Eletrobras,da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, dos postos BR, do Magazine Luísa, das organizações Roberto Marinho…”