Don’t play it again, Sam, for god’s sake!
Agosto 29, 2009

“Caro Rick,
Como vão as coisas? Tudo indo bem por aí? Faz tempo que não nos vemos, hein? Desde aquela reunião na França, se me lembro bem. Soube que muitas coisa aconteceram por aí, você esteve no meio da Guerra e tudo mais. Agora está no Congo. Quem poderia imaginar, hein? Você, meu amigo Rick, no Congo. Impressionante, cara.
Sobre mim eu posso dizer que pouca coisa mudou. Voltei para a antiga fazenda, me casei com Peggy Sue e tomo conta da loja de ferragens do pai. Eu sei, eu sei, nem de longe tão emocionante quanto a sua vida, mas fazer o que, certo? Alguns de nós simplesmente preferimos voltar pra casa quando tivemos nossa chance.
Mas deixando as amenidades de lado existe uma pergunta que eu e vários amigos queríamos realmente te fazer, Rick. Espero que você não considere isso grosseiro, afinal, é apenas uma dúvida entre velhos conhecidos e só perguntamos porque soubemos de alguns boatos e ficamos preocupados contigo. A pergunta é bem simples, Rick: que porra foi aquela com a Ilsa? Sério, Rick, que merda te passou pela cabeça pra ajudar aquela piranha?!
Na boa, cara, eu realmente não entendo. Sei que você tem toda essa coisa cool, todo esse jeitão de “não tô aí pra nada”, mas pelo amor de deus! A mulher te largou, a mulher não se deu ao trabalho de telefonar, de explicar nada, ela apenas sumiu! Sumiu! Lembra da merda em que você ficou? Espero que se lembre, porque todos nós lembramos, Rick. Você escreveu o nome dela seguido de palavrões em todos os banheiros da Europa que ainda não tinham sido ocupados por Hitler! Você telefonava de madrugada xingando e dizendo que ela era uma traidora vagabunda, Rick! Você ficou deprimido, bebendo. Lembra aquela noite em que você tentou agarrar o Sam pensando que ele era a Ilsa? O Sam, Rick, o Sam!
E em que estado ela deixou a sua vida? Você virou um dono de boteco na África. Um boteco. Na. África! E por favor, não me venha com essa de que Casablanca é um ponto vital para a guerra ou coisas do tipo, nós dois sabemos que isso é só papo seu. E aí, depois dessa bosta toda que aconteceu na sua vida essa mulher aparece e o que você faz? O que você faz?! Você arruma vistos pra ela e pro marido dela (também conhecido como “o cara por quem ela te chutou”) saírem de Casablanca! Vistos! Vistos que você poderia ter vendido, doado, picotado, usado como porta-copos, qualquer coisa! E por que? Porque ela te disse que quando vocês estavam juntos ela não sabia que o marido estava vivo? Que tipo de mulher é tão burra assim? Por favor, será que sempre que o Laszlo deita pra dormir ela sai tendo casos porque não sabe se ele vai acordar? Qual o problema com ela?! E qual o problema contigo?!
Sério, tenha alguma dignidade! Não basta virar um dono de bar, agora você ainda se tornou um daqueles caras que aceitam ser capachos de qualquer maluca? E que papo é esse de ter amigos franceses? O que vai vir agora, teatro infantil? Hein? Hein? Sério, Rick, que merda.
Um abraço e tomara que tudo dê certo.
Ted”
*Este texto provavelmente só vai fazer algum sentido se você assistiu Casablanca. Mas eu não darei garantias de nada.
Aquele em que eu falo sobre o chuveiro
Agosto 25, 2009

Graças ao fato de estar me mudando pro Rio e ser recém-contratado eu consegui uns dias de folga e resolvi passar esse tempo em Juiz de Fora pra rever minha família e poder me despedir direito de boa parte dos meus amigos. Voltar pra casa antiga, encontrar mãe, irmão, amigos, toda aquela coisa. Cheguei no domingo e a primeira coisa que fiz foi tomar um bom banho pra logo depois ir comer aquele delicioso prato de costelas que só minha mãe e os caras do Outback sabem fazer, sendo que ela por enquanto não cobra nada (ainda que não ofereça molho barbecue). E estou eu debaixo do chuveiro pra tomar aquela ducha relaxante quando noto que o chuveiro está uma droga. Pouca água, uns jatos meio sem rumo e ainda por cima naquela temperatura irritante que você não sabe se é quente, fria, morna ou se você entrou na andropausa e agora sua sensação térmica está totalmente confusa mesmo. Garoto engenhoso que sou, peguei um escada e fui tentar consertar aquela coisa, mas nesse exato instante minha mãe passava pelo corredor e resolveu perguntar o que eu fazia enrolado na toalha e usando uma escada para me apoiar no boxe (ela disse que pensou primeiro em uma tentativa de suicídio, mas descartou a hipótese). “É que o chuveiro está quebrado, mãe, está saindo pouca água e não esquenta nada”. E minha mãe, claro, replicou com aquele carinho que só ela sabe ter. “Você bebeu? Esse chuveiro está como sempre foi, deixa de ser besta”.
É, eu sei que esse episódio aparentemente só serve pra mostrar que eu levo o assunto “banho” mais a sério do que deveria, mas pra mim ele acabou mostrando uma coisa estranha: que eu não me sinto mais em casa na minha casa. O chuveiro não me parece mais funcionar direito, a cama parece meio pequena, o monitor do computador parece meio torto e as cortinas parecem meio esquisitas (ainda que eu acredite que elas realmente são esquisitas e nesse caso não é impressão minha). E ao mesmo tempo eu ainda não me sinto em casa no Rio, ainda não achei minha posição no sofá, ainda acordo de madrugada e não acho a cozinha, ainda tento sair da cama pelo lado errado. Acho que é a isso que chamamos de “transição”, e não falo só de casas.
Sim, eu sei que Juiz de Fora não é mais a minha cidade, mas ainda não me acostumei com o Rio, acho tudo muito esquisito. Sim, eu sei que não sou mais um pós-universitário desempregado, mas ainda não me acostumei com a idéia de acordar cedo todo dia, ter uma mesa e ir com a minha pasta participar de reuniões. Eu sei que não vou ver meus amigos de Juiz de Fora todos os dias e nem sair com eles aos sábados, mas acho que vai demorar, por mais que eu goste do pessoal do Rio, pra que eles sejam realmente meus “amigos” e eu tenha com eles a familiaridade que eu tenho com o pessoal daqui (se eu começar, por exemplo, uma “briga de tiranossauros” ou um momento “Ballack sem cabeça” por aqui eu realmente não sei como eles vão reagir). É esquisito pensar que as coisas continuam lá, como sempre estiveram, no máximo com algumas poucas alterações, e foi você que mudou e agora não se encaixa mais nos antigos espaços e ainda não se adaptou aos novos. É estranho estar em transição. Mais ou menos como uma criança pequena que descobre que não consegue mais ficar de pé debaixo da mesa, uma garota que engordou e descobre que não cabe mais nas antigas roupas ou, não sei, um cara que descobre que não consegue mais se acostumar com o chuveiro de casa.
Definitivamente eu levo essa coisa de banho muito mais a sério do que deveria.
Os conspiradores – Episódio #1
Agosto 22, 2009

“Então você vai ligar e chamar ela pra jantar, ok?”
“Jantar, certo.”
“Não exatamente um jantar, mas um lugar em que você tenha espaço pra conversar, pra falar com ela. Pra ela perceber que você pode oferecer mais do que piadinhas e citações de filmes, entende?”
“Entendo…hummm…”
“E aí entã-“
“Espera…Pensei numa coisa…”
“No que?”
“Assim, o que mais eu tenho a oferecer além das piadinhas e das citações de filmes?”
“Bem…você…errr…hum…é, ok, vamos ter que abandonar a idéia do jantar…”
Top 5 – Coisas que eu odeio em vendedores
Agosto 18, 2009

Vendedor micareteiro: Uma das coisas que mais me irritam em certos vendedores é o abuso do contato físico. Assim como um recém-nascido ou um cara fortão numa micareta existem certos vendedores que sentem uma necessidade patológica de ficar agarrados com alguém, te puxar pelo braço, te empurrar, te jogar para algum lado, dar tapinhas no seu ombro e outras coisas do tipo, como se isso fosse algum tipo de técnica de venda através do abracinho carinhoso ou da patolada amiga. Mas com toda a sinceridade, quando eu quero alguém pra abraçar eu penso em alguns outros lugares pra procurar antes de chegar nas Casas Bahia. E nem estou falando das garotas do drive thru do Habib’s.
Vendedor grudento: Esse é o vendedor que não aceita um não como resposta. Você fala que está caro e ele diz que te faz um desconto. Você fala que está sem cartão e ele fala que faz no cheque. Você diz que está sem tempo e ele diz que é rapidinho. Você diz que realmente não está interessado e ele diz que aquela é uma oportunidade única e que você vai se arrepender pelo resto da vida. Você fala que realmente é uma boa proposta mas não vai poder aceitar e ele diz que você está sendo impulsivo e deveria pensar antes de tomar a decisão de não comprar algo assim. Você diz que está dentro da loja há sete horas e ele diz que sua família só vai poder pedir pra polícia te procurar se você sumir por dois dias. Você diz que precisa ir embora porque sua mãe morreu e ele diz que é pra você esperar porque o gerente vai deixar que ele faça um desconto de mais 5 reais no LCD. Aí você manda ele à merda e ele diz que não precisa ser grosso, se não quer comprar é só dizer.
Vendedor estiloso: Poucas coisas irritam mais do que um vendedor que quer julgar as suas decisões e te olha com desdém porque o seu gosto não é tão apurado quanto o dele. Isso é muito comum nessas lojas moderninhas de roupas e acessórios, em que você entra e se depara com um metrossexual quase-modelo com óculos escuros enormes e mais gel no cabelo do que seria necessário para fazer um topete na Maria Bethânia e ele começa a cornetar as suas escolhas de cor, estilo e modelo, primeiro com sutis olhares de reprovação, depois com movimentos discretos de cabeça até que por fim ele se irrita e solta algo como “meu deus, rapaz, pra que comprar quatro camisas verdes iguais? Tá pensando que é o Cebolinha? Que ódio!”. True story.
Vendedora bonita demais: Um dos grandes problemas da vendedora bonita demais é que ela acaba tirando o seu foco do produto e, no meu caso, me intimidando no processo da compra. Afinal, se eu sei que não consigo dizer não pra uma mulher que eu considero atraente, independente do quão absurdo seja o que ela me pedir, as coisas podem se complicar muito pra mim quando entro em certas lojas.E não apenas porque as pessoas estranham o cara que evita as vendedoras bonitas e vai negociar com senhoras idosas mas também porque é muito complicado explicar pra minha mãe porque eu saí pra comprar lentes de contato e voltei com dois tamagotchis. True story. (Brincadeira, eu não comprei os tamagotchis. Eu comprei dois filmes de 36 poses sendo que nem tenho máquina fotográfica)
O ouvido de mercador: Um exemplo clássico do funcionamento dos ouvidos de mercador e de como os vendedores sabem apenas recitar um texto ensaiado, ignorando totalmente o que você está dizendo, foi o processo de pesquisa de preço para o meu atual celular numa loja de Juiz de Fora.
“Ei, eu queria um celular básico, prefiro um modelo discreto e leve, desbloqueado e com MP3. Como não tiro fotos com celular, não me importo com a qualidade da câmera e tal.”
“Ah, eu tenho esse aqui, ele tem uma câmera de 3.3, pega rádio, vem em vermelho. Ah, e bloqueado.”
“Bem, eu quero algo mais discreto…Com MP3…Desbloqueado…E não ligo pra câmera…”
“Ah…Bem, eu tenho esse aqui também. Não toca MP3, mas tem uma câmera ótima. E sai muito nesse tom de rosa”.
“Olha…eu não ligo pra câmera, mesmo. Você tem algo com MP3 que seja menor e venha desbloqueado?”
“Nós temos esse aqui, ele tem câmera de 4.0, toca MP3 e vem bloqueado.”
“Você…teria…algum…com MP3 desbloqueado? E não precisa falar da câmera…”
“Eu tenho esse Nokia aqui com câmera de 3.6 e sem MP3”
“Olha, eu sou um rato de laboratório escondido num robô com forma humana e quero dominar o mundo, qual celular você me recomenda?”
“Hummm…Então eu tenho esse Sony com câmera de 4.2 , quer dar uma olhada?”
Problemas práticos do romantismo teórico – III
Agosto 5, 2009

Eu sempre tive certas restrições ao conceito de amor a primeira vista. Primeiro pela razão mais óbvia, que é o fato de que eu sempre evito o uso de expressões em que eu não sei se a crase se aplica ou não (sou uma droga em gramática) e depois porque, ainda que o Ringo diga que “it happens all the time” eu sinceramente não boto muita confiança na coisa. O que seria amor a primeira vista, teoricamente? Seria bater o olho numa pessoa e, ali mesmo, simplesmente ao olhar, se apaixonar e decidir que ama aquela pessoa? É, assim, do nada, rápido como miojo, veloz como cup noodles. Mas isso realmente pode ser chamado de “amor” (seja lá amor o que for) ?
Bem, amor teoricamente é uma construção, um processo. Você conhece alguém, se interessa, vão se conhecendo e o que era interesse se torna paixão e com o tempo se torna amor. Pelo menos é essa a visão ocidental contemporânea, excluindo as minorias religiosas, os maníacos que seguem mulheres na rua e os meus pais. O amor é então uma coisa que precisaria de tempo pra nascer e seria fruto de uma conjunção de fatores, indo desde atração física, interesses em comum, compatibilidade de gênios e a vontade de superar as diferenças de interesses, gênio e outros coisas comuns e incomuns. Em suma, um treco complicado, difícil, raro e que dá um trabalho do caramba. Como então um troço desses poderia surgir depois de um olhar? (ainda mais pra pessoas com miopia ou astigmatismo)
Claro, a primeira impressão é muito importante. É no primeiro olhar que você vai tirar as conclusões básicas e decidir se vai valer a pena se esforçar pra tirar algum tipo de conclusão secundária. Existe atração? Ela faz seu tipo? Uma primeira impressão muito boa vai te despertar mais curiosidade e te fazer talvez começar um interesse mais intenso, mas chamar isso de amor ainda é um pouco exagerado, mais ou menos como descobrir que fica bem de laranja e por causa disso virar um monge budista. Ou seja, uma boa primeira impressão, por mais forte e positiva que seja, ainda é bem pouco pra se chamar de amor, já que uma segunda impressão negativa pode facilmente acabar com todo o encanto.
Mas claro, existe também o tesão, e o tesão é uma coisa engraçada, porque não segue critérios lá muito racionais. Atração física não se importa com credo,posicionamento político, gosto musical, área de atuação profissional ou a opinião dela sobre o rodízio de posições no vôlei moderno. E muitas vezes nem é aquela mulher que teoricamente faz o seu tipo em todos os aspectos físicos imagináveis e sim uma mulher que, por alguma razão biológica tão desconhecida quanto aquela que faz sua prima comer macarrão cru com Nutella, desperta na sua libido aquilo que o querido deputado Roberto Jefferson chama de “instintos mais primitivos”.
Óbvio que certas razões intelectuais conseguem abater a libido, ainda mais se forem bem apelativas e nem mesmo os neurônios mais criativos do seu cérebro conseguirem transformar a bizarrice em fofura (“ah, ela tá brigando com o garçom porque o sushi veio cru, que lindinha!”), mas quase sempre a atração física consegue ser predominante e chutar o balde de todo o resto. A soma de uma boa impressão com um nível de tesão quase patológico, daqueles que te deixam totalmente irracional diante de necessidade de atacar aquela mulher num canto do bar-mitzvah do seu vizinho, pode causar uma ilusão de amor, afinal, o sentimento se torna meio incondicional e você também não está lá preocupado em criar condições ou racionalizar a coisa enquanto corre sem calças, vamos admitir. Mas isso é uma boa impressão somada com um nível alto de tesão, ou seja, um pouquinho menos do que amor.
Então de onde vem o amor a primeira vista? Qual a graça? Onde nasce a necessidade do conceito se a gente sabe que ele não existe de verdade? Nasce da facilidade de amar o que você não conhece. Pegue aquela garota linda que você só viu uma vez. (No caso eu estou falando em “pegar” no sentido de “tome como exemplo”). Nela você pode projetar todas as suas necessidades e pra ela você pode dar todas as qualidades do mundo, desde senso de humor, charme, inteligência e um pai rico que só bebe cervejas belgas até inteligência, companheirismo e a libido de um roedor em período fértil, coisa que você não pode fazer com a sua ex-namorada, sua amiga de infância ou a sua colega de trabalho. A chave para o amor a primeira vista é que ele elimina o processo e chega direto no resultado, ele é um atalho para algo que deveria pedir uma estrada.
Quando alguém se “apaixona perdidamente a primeira vista” ela não está se relacionando com a pessoa em si, mas com a projeção que ela faz da pessoa. E claro, todos nós fazemos isso em todos os relacionamentos, projetamos coisas, alteramos nossas percepções, mas no amor a primeira vista você não revisa um texto pronto ou altera uma borda de papel, você tem toda uma página quase em branco, apenas com bordas serrilhadas e umas margens legaizinhas, pronta pra receber seja lá o que você quiser colocar, inventar ou imaginar: você praticamente inventa uma pessoa e se apaixona por ela. E sério, é fácil se apaixonar por alguém se você mesmo puder imaginar a pessoa do jeito que você quiser.
E bem, ou é isso ou amor a primeira vista é apenas mais uma expressão idiota que eu levei a sério demais. Eu sempre faço isso, é um saco.
P.S: Estou de mudança para a casa onde vou morar pelos próximos 12 meses (depois escreverei um post emocionado sobre isso) e portanto devo ficar sem internet por um certo tempo, dependendo da disposição dos técnicos cariocas da Net. Ou seja, qualquer coisa que quiserem falar comigo até 2011, me mandem cartas.
Sob o domínio do bigode
Agosto 2, 2009

Mesmo com a morte do Michael Jackson, a contratação do Muricy Ramalho pelo Palmeiras, a CPI da Petrobras e o lançamento da última edição do Farrazine algumas pessoas, quase sempre gente implicante e sem um hobby decente, acabaram notando que tem algo de errado acontecendo com o senado. Não, não que seja nada anormal, afinal, atos secretos, nepotismo, maracutaias, pequenos desvios de verba e palhaçadinhas em geral não são exatamente novidade em Brasília, mas parece que dessa vez algumas pessoas realmente ficaram chateadas, a opinião pública acordou do lado errado da cama e pode até ser que alguém sofra alguma punição grave, como ter que trabalhar todos os três dias da semana ou até mesmo ter que assistir a um discurso inteiro do Suplicy. E por que isso, meus amigos? Terá o Brasil se revoltado com a corrupção? Terá a sociedade decidido dar um basta na fanfarronice política? Será esse um sinal de que Dunga irá colocar Gilberto Silva no banco? Não, meus amigos, nada disso. A causa de toda essa revolta é apenas e simplesmente uma: o Brasil odeia o bigode do Sarney.
Não sei se vocês notaram, mas sempre houve algo de hostil quanto ao Sarney. Não por ele ter transformado o Maranhão no…no…no Maranhão, não por ele ser um escritor terrível, não por ele representar parte do que existe de mais retrógrado e fisiológico na política brasileira. Não, nada disso. Afinal, Collor está aí presidindo CPI e todo mundo acha uma graça; Marco Maciel é eleito e reeleito sem ninguém notar desde 1966 e você não vê gente por aí reclamando; Maluf pinta e borda e todo mundo acha super-cool e até faz camisas sobre o assunto. Não, o problema não é político. Se fosse político Collor não seria menos hostilizado do que Sarney e Maluf nem poderia sair na rua com medo de ser linchado (medo que Marco Maciel não teria, afinal, é só andar de lado e ficar invisível). O problema com Sarney é estético, meus amigos.
Tente pensar no bigode de Sarney. Existe ali, ainda que muitos de nós não consigam explicar, algo de terrível, nefasto, ominoso, chego a dizer anti-democrático. O bigode de Sarney, assim como todo bigode, é mais do que uma pelugem facial, é uma declaração de princípios, afinal, o bigode é o tipo mais deliberado de barba que pode existir. Se uma barba por fazer denota descaso ou despreocupação, um cavanhaque representa uma busca de estilo e uma barba feita mostra uma preocupação com uma aparência limpa e jovial, o bigode é diferente. O bigode é premeditado, já que não toma sua forma sozinho; o bigode é exibicionista, já que domina o rosto de forma solitária; o bigode é uma espécie de release facial que dá apenas uma informação: “eu não me importo com vocês”. O bigode é desdenhoso.
Para usar um bigode um homem precisa querer afirmar seu poder, sua masculinidade. Ele precisa, deliberada e conscientemente querer mostrar alguma coisa, provar alguma coisa, exibir alguma coisa. E é isso que o Brasil não perdoa, o exibicionismo evidente do bigode de José Sarney, sua incapacidade de usar uma barba comum ou um rosto raspado, sua necessidade de envergar um bigode como prova de seu poder e de seu descaso pela nossa lei, nossa vontade, nosso dinheiro e nosso senso estético.
O povo consegue perdoar Collor e seu topete, ainda que ele tenha sumido nos últimos anos. Consegue perdoar Maluf e sua face deslavada e bem barbeada. Consegue simplesmente não ser capaz de lembrar do rosto de Marco Maciel sem usar a busca de imagens do google. Mas diante daquela espessa capa de pêlos cobrindo o lábio superior do presidente do nosso senado o Brasil diz chega, o Brasil fica indignado, o Brasil manda o ônibus parar porque alguém vai ter que descer.
A crise não vai então se resolver com CPI ou com o supremo, ou mesmo com caras pintadas e revolta popular, nem mesmo com admoestações de Lula e comentários daquelas senhoras simpáticas que iam no Jô. Não, nada disso. A crise está a apenas um barbeador de acabar. Então relaxem e vamos esperar pra ver no que a próxima vai dar.

