O amor nos tempos da reforma ortográfica
Julho 31, 2009

“Você é um babaca cruel e insensível!”
“Você já parou pra pensar que talvez tudo que eu fiz de errado tenha sido enquanto eu tentava acertar? Que eu, ainda que tenha tomado decisão idiota atrás de decisão idiota talvez quisesse o tempo todo me tornar o cara que você esperava? E que se agora eu não sou o cara que você quer isso se deve ao fato de que você me mudou? Já talvez imaginou, em algum neurônio da sua cabeça auto-centrada, que se eu agora sou egoísta foi porque eu passei tanto tempo me dedicando a você e a todo mundo que em algum momento isso iria realmente me cansar e eu teria que passar a me importar comigo? Você já tentou enxergar que eu não fiz nada contigo que você não tenha feito comigo? E que ok, talvez eu tenha agido sem pensar e com isso tenha prejudicado não só você mas também outras pessoas mas eu estava sempre tentando fazer o que você queria e isso era inerentemente errado em todos os sentidos?”
“Humm…Não, nem é… Eu ainda te acho um babaca cruel e insensível! Ah, e você é um merda também.”
“Bem, eu já imaginava…Mas não custava nada tentar, certo? E auto-centrada ainda tem hífen?”
Revisões sobre um encontro
Julho 28, 2009
Eu sei que deve ser estranho pra você receber esse email logo agora, afinal, não faz nem dez minutos que eu te deixei na porta do seu prédio, mas é que eu achei que algumas coisas que aconteceram hoje podem ter ficado confusas pra você e achei que o melhor seria corrigir qualquer mal-entendido da forma mais rápida possível. Então vou começar em ordem cronológica, ok?
Em primeiro lugar eu não queria aquela mesa perto da janela. Eu escolhi a mesa só porque você fuma e eu tive medo de ficar meio sufocado e tossindo o tempo todo, o que iria cortar totalmente qualquer tipo de clima. Claro, não tinha como imaginar que iria estar aquele vento todo ou que iria chover, então eu peço desculpas pelo seu cabelo e espero que você já tenha tirado o saco plástico da sua cabeça enquanto estiver lendo isso aqui. Me desculpe mesmo.
Sobre o problema com o garçom, eu não costumo ser sempre grosseiro com as pessoas, juro,é que ele estava obviamente dando em cima de você, o que, ok, é compreensível, você é muito atraente, mas por favor, ele poderia pelo menos esperar que eu fosse ao banheiro ou algo assim, não? Não é assim que as pessoas fazem nos filmes? E aquilo que eu disse sobre não ter dado um soco nele só porque você pediu era mentira, ok? Eu não bati nele porque ele era enorme e iria me triturar, eu disse aquilo só pra parecer fofinho.
Minha tia não é pediatra, é pedicure. Eu comecei a frase com um “pe” e você completou, então eu fiquei sem graça de te corrigir. Assim como fiquei sem graça de te corrigir quando você disse que ornitólogo é quem cuida do ouvido dos animais e quando você disse que a Bulgária fica na Ásia. Ah, e não existe carta de “fuga da prisão” no jogo de War, ainda que seja uma idéia interessante. Que só é impedida pelo fato de que o conceito de prisão não existe no jogo de War.
Quando você falou sobre o seu trabalho e eu respondi com um “aham” não era porque eu não estava interessado, mas sim porque eu fiquei tão impressionado com a sua animação que não sabia direito o que dizer. Fora que não entendo muito de polímeros, então não ia conseguir fazer nenhum comentário inteligente, sabe? Por isso preferi não falar muito. Mas saiba, seu trabalho é muito interessante, mesmo. Ou talvez um pouco menos, mas bem pouco. Ok, talvez ele seja realmente chato, mas quem sou eu pra criticar, certo?
Os cinco minutos que eu passei sem dizer nada não se devem a algum problema de autismo, como você provavelmente imaginou, mas ao fato de que eu estava te olhando e te achei tão linda que nem soube o que falar. Mas os dez minutos posteriores a esses foram culpa da minha total e completa incapacidade pra achar qualquer assunto vagamente interessante. E muito obrigado por ter ido ao banheiro e me dado tempo pra tentar entrar no google pelo celular e procurar algum assunto interessante pra começar uma conversa.
Sobre a gorjeta, eu realmente não paguei os 10% por causa da atitude do garçom, mas mesmo se ele tivesse sido solícito e não tivesse te assediado eu não pagaria, porque iria estourar o meu cheque especial e eu ando com o dinheiro contado nessa época do mês.
E agora algumas revisões finais: eu sou de centro-direita, mas disse que era de esquerda pra tentar te impressionar e quando você disse que era filiada ao PSDB eu achei que era tarde demais pra voltar atrás; curry me dá vontade de vomitar, mas quando você me ofereceu um pouco do seu prato eu aceitei pra não criar um clima chato; eu sou ateu e meu carro não está quebrado, é que eu nunca me interessei por aprender a dirigir e sempre prefiro andar de taxi.
Bem, desfeitas essas confusões, espero que no segundo encontro as coisas sejam legais como foram hoje, ok?
Beijo
Adolfo.

E então era mais uma sexta-feira a noite como outra qualquer. Meu projeto original que envolvia voltar pra Juiz de Fora não tinha dado muito certo e eu tinha, assim como vários outros caras residentes no Rio cujo nível de conhecimento da cidade ainda não passou da letra L (sério, eu não fui ainda a nenhum bairro começado com alguma letra de M pra cima…estranho…) decidido ir pra Lapa. Festinha de aniversário de colega de trabalho, todo mundo lá naquele clima de descontração e amizade. Seria uma noite normal de sexta-feira se não fosse por um pequeno e bobo fato peculiar: o posto de gasolina em frente ao bar/boate em que eu estava explodiu.
É, explodiu, do latino explodere, que em bom português quer dizer “estourar com um barulho bizarro e fazer com que não só a banda que estava tocando como metade dos clientes saiam correndo feito menininhas”. E lá estava eu preso dentro de uma casa noturna da qual eu não poderia sair porque havia apenas uma saída e ela estava bloqueada por um posto de gasolina em chamas que poderia explodir novamente a qualquer momento fazendo com que o fogo se espalhasse em direção ao lugar em que eu estava. E esse é o tipo de situação que te faz pensar (quer dizer, eu acho que é o tipo de situação que deveria te fazer correr…mas eu já tinha tomado três tequilas, então…).
Vi algumas pessoas ligando para seus entes queridos, pessoas telefonando para namoradas, algumas pessoas apenas se escondendo no banheiro, outros pedindo um monte de bebidas na comanda com a intenção de morrer e não pagar. Vi homens aterrorizados como crianças, mulheres aterrorizadas como crianças e até mesmo um cara chegando numa criança perto do balcão. Vi pessoas correndo, gente tentando passar por dentro de grades e gente tentando pegar batatas fritas de outras mesas (esse era eu, na verdade). E aí,claro, minha lente de contato ressecou e eu não vi mais nada.
Mas nesse momento, quando vidas estavam em risco, quando tudo parecia caminhar para o desastre, quando eu mesmo refletia sobre a finitude da existência, a importância das saídas de emergência e que se eu morresse a culpa seria do Samuel Rosa (longa história) um amigo meu bateu no meu ombro, e disse uma frase que eu nunca vou esquecer. “João, você acha que essas cantadas do tipo ‘fica comigo porque nós podemos morrer hoje’ realmente funcionam?”
P.S: Graças ao bom trabalho dos bombeiros o incêndio foi controlado, eu não morri (acho que isso vocês notaram) e não, as cantadas do tipo “fica comigo porque nós podemos morrer hoje” não parecem funcionar.É um mundo muito cruel e insensível esse aí fora…
Atualização: E saiu no Globo. Eu devo ter quase morrido mesmo…
Farrazine #12
Julho 21, 2009
E é chegada a hora. Mantendo sua periodicidade nada periódica (ele sai todos os meses, mas cada mês pode demorar quantos dias a gente quiser) o Farrazine chega até sua décima-segunda edição cheio de ginga, graça, malemolência e orelhas de morcego, não necessariamente nessa ordem. Nesta edição cheia de glória e vitória temos Batman comemorando 70 anos, entrevistamos Eduardo Risso e também Maurício de Souza. Sim, aquele da Mônica! É, nós também falamos com gente que as pessoas normais conhecem! E da parte deste que vos fala está lá “O Garoto Aranha”, um conto inédito, novo e nunca dantes publicado em lugar nenhum. Que eu lembre, pelo menos. Vocês sabem como eu faço coisas e esqueço quando bebo vodca.
Para baixar clique aqui.
E já na linha dos projetos pessoais (eu tenho como objetivo de vida manter sempre o mesmo número de projetos paralelos que qualquer ex-BBB) está começando a produção de “Guerra dos Mundos”, minha segunda HQ, agora com arte do Luis Vieira, que será publicada em breve como web-comic e é uma espécie de fase de testes para a produção do meu audacioso projeto de uma série autoral. Os primeiros estudos de personagem para Guerra dos Mundos estão sendo publicados no blog do Luis, aqui. Desejem sorte pra gente. Comigo no meio nós com certeza vamos precisar.
The kids are not all right…
Julho 19, 2009

Não sei se vocês alguma vez já pararam pra assistir ao programa Lab da MTV. Acho que existe mais de um Lab, como o Lab ao Cubo, Lab Radio, Lab Cult, Lab Forró, Lab Lambada e por aí vai. E bem, esses programas da série Lab vão passando um monte de clipes, sem apresentador, de acordo com o tema proposto para o programa (o Lab Cult passa bandas não famosas mas influentes, o Lab ao Cubo passa três clipes seguidos do mesmo artista, o Lab Classic passa clipes clássicos e o Lab Radio passa a impressão de que o mundo deveria acabar hoje porque a humanidade não merece mais viver), e na parte de baixo da tela algum tipo de discussão ou questão vai sendo proposta, o que teoricamente incitaria a resposta da audiência através de mensagens de texto via celular. Legal, não? Bem, não se você der uma olhada nas mensagens.
As mensagens do Lab são basicamente um retrato do quão bizarra e perturbadora a juventude dos dias de hoje consegue ser. Não falo apenas das demonstrações estranhas de opiniões distorcidas como “Tokyo Hotel é melhor do que os Beatles” ou “Strike é do metal”, porque isso são pontos de vista pessoais e todos nós temos nossas próprias opiniões esquisitonas, afinal, eu realmente acredito que o Weezer é a melhor banda da Terra e que o Freddy Mercury não era gay, aquilo tudo era uma jogada de marketing, então não posso criticar ninguém. E também não vou falar da total dissociação entre o mundo real e a mente desses jovens e adolescentes, afinal, todos temos o direito de sonhar e frases como “quero Katy Perry em Cariacica” ou “Demi Lovato precisa vir pra Uberlândia”, são apenas fruto da fé que ainda mora no coração das crianças do Brasil.
Mas certas coisas conseguem me perturbar num nível um pouco mais sério. Uma delas é, por exemplo, o português usado pelos espectadores do programa, que lembra uma mistura de “internetês” e “miguxês” com aquelas gírias do “Laranja Mecânica”, o que é no mínimo inquietante. Não, não espero de um adolescente fã de Fresno um português castiço, sendo totalmente lógico topar com um “vc”, “naum” e coisas do tipo. Mas o que quer dizer a frase “hsm naum eh tdb” ? Porque tantas siglas? Porque tanto ódio do til? Porque sempre que eu leio “HSM” eu penso que é sigla pra homossexualismo e não “High School Musical” ? Sim, por que?
Outro problema é o tipo de raciocínio que é desenvolvido e demonstrado nas mensagens. Um belo exemplo foi uma enquete perguntando qual era a melhor banda de punk rock. Normal, natural, tudo bem, tudo ok, tudo tranqüilo. Alguns responderam Sex Pistols, alguns poucos responderam The Clash, uma maioria respondeu Green Day, alguns esparsos disseram Papa Roach, outros mais fora de si disseram coisas como Pitty, Strike, Capital Inicial e Fresno, mas tudo bem, cada um com seus problemas. Até que surge na tela uma bela mensagem dizendo “naum sey”. Sim, um garoto respondeu “naum sey”. Nem vamos notar o evidente estupro da língua portuguesa contido nessas duas palavras, vamos apenas nos atentar para o que existe por trás disso. Pense comigo: um garoto aumentou a conta do seu celular apenas para dizer que não sabe a resposta de uma pergunta durante uma enquete televisiva. Bem, se ele não sabe pra que respondeu? Pra que gastou dinheiro para NÃO dar opinião sobre um assunto? Qual o problema com esse cara? Hein? Hein? Por que? Por que? Por que?! Tudo bem, vou me acalmar.
Mas sério, o que está acontecendo com esse jovens de hoje? Pra onde vamos? O que será do Brasil, o que será do planeta quando esses pequenos infantes tomarem o poder e assumirem as suas responsabilidades? Eu admito que conheço adolescentes mais novos bem inteligentes, mas eles são a minoria? Ou apenas tem mais o que fazer e nunca mandariam mensagens pra MTV? E o mais sério, grave e importante: por que eu ainda tento assistir esses canais? Qual o meu problema?
Pra não dizer que não falei de Michael Jacksons
Julho 17, 2009

E o Michael Jackson morreu. Morreu, foi enterrado, e com isso criou um nível de comoção que eu não via desde a morte da Lady Di, do Frank Sinatra ou do Super-Homem (ainda que só um deles tenha voltado), com notícias pipocando pelo mundo todo, programação temática em diversas emissoras e um funeral que foi transmitido para todo o mundo e praticamente parou a twittosfera, com exceção do Pedro Neschling, que dizia estar olhando pra lua. Todos muito sentidos, todos mundo emocionados, todos muito consternados. Todos falando sobre a obra, o legado, o trabalho, o sucesso, a história profissional impressionante do finado rei do pop. Claro, tudo muito natural, tudo muito bonito, tudo muito fofo. Mas acaba sendo mais um exemplo impressionante de como morrer é uma das melhores políticas de imagem de todas.
Afinal, tente se lembrar do que era MJ antes da morte. Três semanas atrás, se isso te ajudar. Um ex-artista falido em atividade, famoso mais por seus escândalos pessoais envolvendo pedofilia, pendurar crianças pela janela, agir de forma estranha e ser desprovido de nariz.Suas músicas não vinham fazendo sucesso, e nos últimos anos ele tinha criado tantos sucessos quanto eu e Jorge bem Jor, com a diferença de que dos três eu era o que estava tentando com mais afinco. E por favor não venha me dizer que não era assim que ele era retratado pela mídia, já que sua música havia saído do foco da imprensa desde o lançamento de Invincible, em 2001. Ele era motivo de piada, chacota, zoação e até garotos de segunda série faziam piadas sobre Michael Jackson sem medo de nenhum tipo de repreensão moral. Até que ele morreu. E a morte é o ponto alto da vida de um artista pop, como diria Neil Gaiman se pensasse sobre esse tipo de assunto.
Depois da morte MJ subitamente se redimiu de qualquer pecado. Nunca foi suspeito de ser pedófilo, nunca foi esquisito, nunca mudou de cor, sempre teve nariz, nunca balançou crianças na sacada. Claro, entendo que num grande artista a obra é um legado mais importante do que a vida (Wagner não era exatamente um cara legal, Frank Sinatra era mafioso e Dado Dolabella é meio babaca as vezes, pra citar exemplos) mas isso simplesmente apaga todo o resto? Não estou dizendo que diante de uma morte não seja de bom tom deixar fora da discussão certos aspectos da vida do falecido, mas será que não há nisso um toque de cinismo? Afinal, as mesmas pessoas que antes chamavam Michael de vilão do He-Man agora pegam em tacapes diante de qualquer menção menos do que carinhosa e simpática ao astro do pop e isso é no mínimo uma coisa estranha de ver. Por que é tão fácil e divertido caçoar dos vivos, que estão aqui pra sentir na pele e tão incorreto fazer a mesma coisa com os mortos? Medo de que a mãe deles esteja por perto? Medo de que puxem nossos pés a noite?
Perdoar, esquecer, passar por cima, é claramente uma virtude, mas será que só a merecemos depois da morte? Quer dizer, será que temos mesmo o direito de julgar alguém, mesmo que sua vida seja pública e seus atos, queira ou não, se tornem referência? E até que ponto esse “forget and forgive” é perdão sincero e em que nível ele é apenas uma fuga dos fatos ou preguiça de pensar numa opinião de verdade?
É provável que nunca tenham sido boas as piadas sobre Michael Jackson, que na verdade era um artista brilhante vivendo em um mundo no qual evidentemente não se enquadrava. É provável que a cada vez que eu disse que ele seria processado pela Nestlé por só gostar de Garoto eu tenha realmente “derrubado uns cinco tijolos na minha casinha no céu”, como diria a minha avó. Mas eu acho, e digo isso com sinceridade, que se queríamos ser compreensivos, gentis e respeitosos com o finado Michael Jackson nós todos chegamos no mínimo meio tarde.
De la gente que habla sola
Julho 15, 2009

“Y un ejército de gente balbuceando su verdad,
de cosas estancadas que quedaron por hablar,
Historias de no correspondidos, y de amigos que no están,
de gente que habla sola y sus palabras abortadas de no hablar
Historias de no correspondidos, y de amigos que no están,
de al menos encontrar un mail que diga: hola, como estas?”
Ataque 77
Uma coisa que eu aprendi nessas semanas no Rio é que apenas quando você fica doente ou se machuca é que você entende o que é ser um cara novo e solteiro numa cidade estranha onde você não conhece ninguém. Porque se você está bem, animadão, com sua camisa de listrinhas mais bonita e pronto pra ir numa boate você vai achar amigos e ter companhia, seja onde for.Mas se você está gripado, perdendo sangue ou apenas com um calombo na perna do tamanho de um melão, aí meu amigo, você está por sua conta e risco, e tomara que o taxista esteja mesmo te levando pra onde ele disse, porque tudo que você vê são luzes piscando e tudo que você consegue dizer é “Ronaldo brilha muitcho no Corinthians”. É só quando você realmente precisa de alguém em quem confiar que toda a sua independência, a sua invulnerabilidade e a sua confiança em resolver tudo são colocadas a prova e você descobre não só do que é realmente feito como também quais programas de televisão mais te causaram dano cerebral.
Mas ok, esse texto não é sobre isso (ainda que eu ache que um dia deveria falar sobre danos cerebrais auto-infligidos aqui no blog) e sim sobre uma bela história real sobre como achar companhia na solidão da cidade. Preparem seus lencinhos e vamos lá.
Bem, estava eu indo jantar sozinho no KFC nessa noite logo após precisar ir a um médico, fazendo meu clássico pedido de frango frito com salada no qual a salada evidentemente vai me causar muito mais danos do que o frango frito, quando notei uma triste senhora idosa sentada em uma das mesas, comendo tristemente o seu pedido de um balde de frango frito.
Sinceramente eu não sei qual é a opinião de vocês, mas pra mim comer sozinho num restaurante fast food é uma das coisas mais tristes do mundo, e eu conheço um pouco sobre ver coisas tristes, afinal eu assisti Elektra, Mulher-Gato, A Experiência 4 e todos esses filmes sobre pessoas com doenças estranhas que superam todas as dificuldades mas acabam morrendo no final, logo depois de encontrar o amor verdadeiro. Mas ainda assim comer sozinho num fast food tem um lugar todo especial no meu ranking de coisas muito tristes (perto da minha vida pessoal na adolescência e da trajetória do Barrichello na fórmula 1). E foi pensando em toda essa tristeza que eu me lembrei que aquela velhinha não só estava lá, sentada solitária naquele mesmo lugar quase todas as noites como também tinha o não tão saudável hábito de falar sozinha (ou costumava se sentar com uma pessoa invisível, o que você achar mais provável).
Nessas horas é claro que existe apenas uma coisa que um adulto sensível e gentil como eu poderia fazer: procurar uma mesa bem longe da dela, se sentar no canto e manter uma faca de plástico ao alcance da mão. A decisão que eu tomei porém foi outra. Imbuído de um espírito de companheirismo com aquela outra alma solitária perdida na multidão carioca, tomado pela necessidade de criar novas pontes para romper o isolamento, possuído pela necessidade de oferecer conforto e um pouco de contato humano para uma pessoa que talvez tivesse perdido todos os seus entes queridos e, é claro, sempre disposto a construir frases muito, mais muito grandes e compostas por várias orações, eu me dirigi até a idosa mulher e, usando meu melhor sorriso, minha melhor postura, meu jeitinho mais simpático, perguntei para ela “posso me sentar com a senhora?”
E aquela senhora, sim, aquela solitária e triste senhora respondeu, com todo o carinho do mundo: “Sai de perto de mim, seu pivete”. True story.
O lado carioca da força
Julho 13, 2009

Como qualquer nerd que se preze sabe, uma das principais lições que nós podemos tirar da hexalogia Star Wars é que vários de nós podem, devido a escolhas erradas, se tornar aquilo que mais odeiam (a outra lição importante é que antes de ficar todo malandrão pra cima de alguma mulher você deve ter certeza de que ela não é sua irmã gêmea). E eu tenho que admitir que desde a minha mais tenra infância eu sempre considerei que a antítese perfeita da minha personalidade era o estereótipo do malandrão carioca.
Sim, aquele cara todo playboy, malhadão, cheio de ginga, malícia e fanfarronice, que em plena quarta-feira ficava secando as menininhas na praia, jogava aquela bolinha aos sábados perto do Leblon e que saia aos domingos de bermuda e camisa pólo como se a ciclovia fosse uma espécie de Wimbledom bronzeada. Toda aquela malandrice, toda aquela marra, todo aquele jeitinho auto-indulgente do carioca de novela da Globo, que parece achar que está no centro do universo e tudo vai dar certo porque, de alguma forma o Rio é a terra prometida e não tem como dar errado, tudo isso era o exato oposto da minha personalidade contida, preocupada e que acha que o universo caminha para a entropia e vai chegar lá bem mais rápido do que um ônibus vindo da Barra.
Mas aí eu vim pro Rio e…bem…sabe como são essas coisas. A alergia patológica da praia se transforma numa total incapacidade de abandonar os bares da orla, mesmo quando arrastado pelos braços; a certeza de que eu não vou ficar gastando dinheiro pra entrar em boate se esvai diante de finais de semana de quatro dias que terminam e começam na Lapa; a certeza de que regras devem ser seguidas vai embora quando começamos a convencer motoristas a parar fora do ponto, taxistas a entrar na contra-mão e policiais a não dar multas; e até mesmo meu bravo sotaque mineiro de Juiz de Fora desaparece diante do preponderante “s” chiado carioca. Aquela aparente alegria daqui deixa de parecer presunção e se torna simples felicidade, o total desrespeito pelo sistema, seja o sistema que for, se torna apenas criatividade somada a espontaneidade e o horrendo e bizarro trânsito carioca começa a parecer…horrendo e bizarro, afinal, eu posso ter adorado a cidade, mas ainda não estou maluco.
A verdade é que o Rio precisou de apenas quinze dias pra me conquistar. Claro, admito, ele teve certas vantagens que fariam com que qualquer cidade conquistasse qualquer um, afinal, a mudança pra cá envolveu um aumento significativo de renda, qualidade de vida, auto-estima, aprendi a fazer a barba e, vocês não notaram, mas minha voz e está mais grossa e eu passei a sair nas fotos sem cara de bêbado. E cara, isso é muita coisa. Ainda assim é evidente que é muito cedo pra dizer que o Rio é o lugar certo ou que passou a ser parte do meu projeto de vida. A beleza das praias pode se diluir na tensão da cidade, o legal da vida noturna pode sumir diante dos sustos e da violência, a animação com o novo pode sumir diante da saudade dos amigos que estão longe e tudo mais e talvez em seis meses eu já esteja desesperado na Rodoviária Novo Rio suplicando pra que um ônibus me leve de volta pra Minas e não me traga pra cá nunca mais. Tudo é possível.
Mas por enquanto acho que estou sim no lugar certo. Essa semana começo a procurar apartamento (provavelmente no Flamengo ou em Botafogo), antes do fim do mês começo a malhar (sério, a minha barriga poderia coexistir com uma vida normal em Minas, mas no Rio eu vou ter que entrar em forma e vou me obrigar a fazer isso até o carnaval de 2010) e até o final do ano quero voltar ao inglês e ao francês e vou tentar começar uma pós-graduação. Meu sotaque está mudando, acho que estou ficando mais bronzeado e tenho bebido muita tequila. Sim, é legal estar aqui, solteiro no Rio de Janeiro, como diria Tony Garrido. Mas o trânsito ainda é uma droga. Onde mais uma bicicleta corta uma van na contra mão na frente de um ônibus que está tentando ultrapassar uma charrete pela calçada?
Sexo Mata – O Filme
Julho 10, 2009

Quase todo mundo adora cinema. O clima, as pessoas, o escuro, a arte da coisa em si. E eu cresci totalmente apaixonado, ainda que não pelas mesmas razões que todo mundo. Se a grande maioria dos que sonha em trabalhar com cinema vai citar Fellini, Trouffaut, Ford, Welles ou Spielberg, eu posso dizer com certeza que os caras que me inspiraram a querer ficar do lado de trás da câmera foram muito mais Kevin Smith, Judd Apatow, e os irmãos Farrelly (além do mestre Woody Allen). Então, existindo essa paixão, nada mais natural do que tentar fazer filmes. E eu tentei.
O primeiro foi um curta experimental, filmado em formato digital, em parceria com meu amigo Ronaldo Campbell, chamado “Perspectiva 2”. Exibido em alguns festivais o filminho era interessante, brincávamos com luzes, imagens, essas coisas. Mas eu ainda não sentia que era algo “meu”, já que desde o roteiro até as filmagens, era tudo em parceria. Claro, foi divertido, eu aprendi um bocado (meu amigo me ensinou, por exemplo, a tirar a tampa da lente antes de filmar as cenas) mas era um projeto totalmente coletivo. Aí surgiu a idéia de fazer um roteiro meu, pra que eu mesmo “dirigisse”: “Sexo Mata”.
“Sexo Mata” era a história de um grupo de jovens que sai pra acampar e acaba morrendo, um por um, nas mãos de um maníaco assassino. Sim, isso mesmo, o clichê máximo do gênero de terror. A única diferença é que seria uma comédia. Meio musical. Com cenas de sexo. Só que num clima de romance. Ou algo assim.
E então eu comecei e em uma semana tinha pronto um roteiro para um filme de vinte minutos. Mas e aí, eu ia fazer o que com ele? Começou então esse caos chamado pré-produção. Convidar pessoas, suplicar para amigos, conseguir câmera, microfone de captação de som, cenários (achar uma floresta não é tão fácil quanto as pessoas fazem parecer…), figurino, pessoas dispostas a ajudar, horários para ensaios, gravações e coisas do tipo. Mas por mais incrível que possa parecer, e graças a ajuda de vários amigos, estava tudo certo. Era a noite de filmar.
Sim, a noite, porque diferente de uma filmagem profissional, onde se gravam apenas alguns takes, algumas cenas por dia, nós teríamos que, em duas noites, filmar tudo, sem margem para erros, afinal, ninguém estava sendo pago(na verdade eles até gastaram dinheiro pra atuar). E lá fui eu, com minha melhor cara de cineasta, dirigir um grupo de corajosos amigos no meu primeiro curta-metragem como autor-diretor.
Erramos takes, perdemos cenas, queimamos dedos na lâmpada de iluminação, tropeçamos uns nos outros, o bucho de boi que seria usado como efeito especial em uma cena de assassinato desapareceu, gastamos cinco litros de katchup em só take, minha ex-namorada quase terminou comigo porque achou que aquilo tudo era só pretexto pra dar em cima de uma das atrizes (mas não era, juro…) e tivemos que rodar uma cena cerca de dez vezes, com cortes absurdamente rápidos, porque um amigo meu simplesmente não conseguia guardar mais de duas palavras de cada vez e não conseguia terminar a cena final. Isso sem contar que não achamos uma floresta e tivemos que filmar na garagem do meu prédio, tendo que parar sempre que algum carro entrava ou algum vizinho dava a descarga com mais força.
Mas mesmo assim, com tudo isso, conseguimos terminar as filmagens e eu pude editar o filme, o que, fazendo sozinho e usando programas de mínima tecnologia, demorou um belo de um tempo. Mas vendo o resultado pronto e lembrando da diversão do processo, ainda que eu realmente duvide que o filme tenha a chance de ganhar algum Oscar em 2010, eu só posso é dizer que espero ter várias outras noites como aquelas.
Obrigado a todos pela ajuda, desculpa pela demora e saibam que nada disso teria acontecido sem vocês.
“Sexo Mata” é um curta metragem de terror/comédia/camping/musical, ou algo assim. Foi recusado em todos os festivais em que foi inscrito e está disponível online aqui.
(Obs: Agora ou eu me recupero do fail dos palitinhos ou o link não aparece e eu destruo a minha reputação de vez…)
Palitos
Julho 8, 2009

Atualização: Leia os comentários e descubra como o Mateus matou magicamente (aliteração!) a idéia da segunda tira..Mas eu a postarei depois apenas por vingança…E não, não envolve ventriloquos…
