Top 4 – Culinária de solteiro
Maio 30, 2009

Bruschettinhas à bolonhesa: Primeiro coloque a carne moída em uma panela com uma pequena quantidade de água e sal e espere cozinhar. Assim que a carne estiver cozida e toda a água tiver evaporado, acrescente óleo e porções picadas de cebola e alho. Espere que a cebola e o alho estejam refogados e acrescente o molho de tomate pronto, porque se você fizer o próprio molho de tomate você é um italiano ou um exibicionista (ou um italiano exibicionista). Espere ferver. Coloque água em uma panela e acrescente um fio de óleo assim que ela ferver. Procure o macarrão no armário da cozinha. Assim que você chegar com o macarrão perto do fogão, vai notar que o gás acabou. Procure dinheiro na carteira para pedir gás pelo telefone. Note que só tem 5 reais. Coma o molho com pão francês mesmo.
Mixto de alface: Saia do trabalho estressado. Chegue em casa morto de fome e decida-se a fazer um mixto quente. Abra a geladeira e note que só tem queijo prato e alface. Considere indigno comer queijo quente e coloque uma maldita alface entre os pães e o queijo. Note que a alface assume uma aparência murcha e desanimadora assim que o sanduíche esquenta. Retire a alface, jogue no lixo e coma o queijo quente.
Atum ralado ao natural: Retire a lata de atum do armário. Tente abrir puxando aquele anelzinho metálico que vem embutido. Não consiga. Tente de novo. Não consiga. Fique nervoso e tente com o abridor. Corte a mão. Enrole a mão numa fronha que a sua mãe te mandou mas você nunca usou. Praticamente estoure e a lata. Coma o atum puro com uma colher e evite que o sangue respingue pela casa.
Créme du chocolat: Prepare uma mistura para bolo de chocolate seguindo fielmente as instruções do pacote. Bata a massa uniformemente para não empelotar. Lembre-se de que não está na sua antiga casa e portanto não tem um forno, apenas um fogãozinho de duas bocas. Coma a massa para não ter que jogar fora.
Atualização: Como bem notou o Thiago (“a testemunha ocular da história”), no lugar deste texto havia sido postado outro, muito depressivo, falando sobre como eu aparentemente consegui ficar de fora do concurso da Petro já que chamaram até o sétimo colocado e eu fui o oitavo. Maaaas, como eles tem até o final de junho para convocar as pessoas, irei esperar até o prazo final para começar a resmungar feito uma velha. Ou seja, se quiserem ver gente se lamentando, estejam aqui no próximo dia 29!

O banheiro do ônibus: O banheiro de ônibus, assim como a bomba atômica, é algo que foi criado para nunca ser usado. Todos os conceitos referentes a ele, desde a ergonomia até a localização, parecem indicar que quem pensou naquilo tinha certeza que ninguém jamais precisaria entrar lá, mais ou menos como o fato de que o inventor do quarto de empregada não sabia que empregadas eram seres humanos e não fadinhas intangíveis de 75 cm. Afinal, é um cômodo sem circulação de ar, que treme assustadoramente diante de qualquer vibração da lataria do veículo, atinge temperaturas extremas com facilidade e tem a janela quase sempre numa altura profundamente inconveniente. Com isso você cria o ambiente perfeito para que todos façam uso do local as pressas, o que apenas adiciona o elemento de perigo bioquímico a equação, deixando claro porque os banheiros para ônibus também foram desenvolvidos pelo projeto Manhattan e seus criadores até hoje respondem por crimes de guerra.
A Viação Cândido Rondon: Muito comum em ônibus que transitam por cidades do interior, a “síndrome de Gene Roddenberry” é um problema que afeta vários motoristas que, imbuídos do espírito indômito de um Capitão James T. Kirk, resolvem levar seus veículos audaciosamente aonde nenhum homem jamais esteve. Para isso se embrenham em estradas de chão, passam por toda e qualquer cidadezinha em seu percurso e param em absolutamente qualquer picada, moita, porteira, boteco, casebre, cupinzeiro e monte de cocô que encontram, chegando ao extremo de certas vezes sair de dentro do ônibus para gritar por algum passageiro que porventura estivesse na região. Para essas pessoas o transporte rodoviário é, mais do que uma comodidade, um fator de inclusão social. E o problema é seu se a sua viagem de 200 km vai durar seis horas e meia por causa disso.
O papo de ônibus: Existe uma idéia muito arraigada na mente de certas pessoas de que o ônibus é uma espécie de chat do Uol presencial sobre rodas, um mirc sem op, um icq sem “oh, ow”: se você está lá é porque quer conversar. Esses seres, totalmente avessos a conceitos como dormir na viagem, ouvir música na viagem ou deixar em paz seu companheiro de viagem, consideram que nada é mais divertido do que uma troca de idéias a 40 km por hora e que qualquer tentativa de recusa, ainda que motivada pelo fato da viagem ser de madrugada ou a pessoa vomitar quando fica acordada no ônibus, deve ser tomada como ofensa pessoal e punida com pelo menos 3 horas de comportamento escroto como cutucões e seguidas alterações na posição da janela. Infelizmente não é socialmente aceitável trancar esse tipo de pessoa no banheiro.
O fator respiratório: Existem dois tipos de ônibus: os que têm ar-condicionado e os que não tem ar-condicionado. Os que têm ar-condicionado são colocados para as viagens noturnas por locais frios, permitindo que as pessoas congelem até a morte e fiquem presas num ambiente com ar viciado que nunca se renova e transmite doenças respiratórias, além de compartilhar suas bactérias e germes de modo socialmente responsável. Os que não têm ar-condicionado pegam os horários por volta de meio dia, para cidades quentes, e tem janelas emperradas que só podem ser abertas seguindo um antigo método druídico maia que só era conhecido pelo pai de Keith Richards, que infelizmente foi cheirado ano passado, fazendo com o que ônibus se torne uma verdade máquina crematória, daquela que nos faz pensar se a capacidade dos alemães para construir ônibus não deve algo ao tanto que eles praticaram com os campos de concentração.
A poltrona da discórdia: Você chega no ônibus e localiza sua poltrona, como um bandeirante que acabou de achar uma tribo de índios e está pronto para saqueá-la e incendiá-la, só que sem o peso na consciência que deveria decorrer do processo. Senta-se e começa a regular a sua poltrona, mas ao mesmo tempo a pessoa sentada na poltrona da frente inicia o processo de regulagem da poltrona dela. Que consiste em abaixar a poltrona ao máximo e praticamente deitar em cima de você, só que sem a graça decorrente de ter alguém deitado em cima de você. E aí você precisa, é claro, deitar a sua poltrona caso não queira manter com o passageiro da frente uma espécie de relação sexual mediada por couro e metal (sem a diversão decorrente de uma relação sexual envolvendo couro e metal, claro), o que deixa insatisfeito o cara da poltrona de trás, que se decide a não participar dessa verdadeira orgia mediada e começa a te dar sutis chutinhos pelas costas. Aí você deve escolher entre : a) ficar deitado e forçar o passageiro de trás a deitar também; b) ficar sentado e forçar o passageiro da frente e a se sentar também; c) se trancar no banheiro e esperar a morte chegar através da intoxicação respiratória, com toda a ausência de prazer decorrente do processo.
A incomunicabilidade nerd
Maio 25, 2009

“Olha, Junior, aquele DVD não é do seriado antigo do Flash?”
“Não, e nem sei se chegou a sair por aqui…Mas parece que iriam fazer também um filme, seria com o Ryan Reynolds, mas parece que acabaram ficando sem diretor porque o cara que eles queriam pulou do barco.Seria o David Goyer, o mesmo que escreveu o filme do Batman e fazia histórias da Sociedade da Justiça junto com o Geoff Johns. Ainda que na Sociedade da Justiça o Flash fosse o Jay Garrick e no filme o Flash fosse ser o Wally West, a não ser que resolvam colocar o Barry Allen, o Flash da era de prata e que também é o do seriado, afinal, no filme do Lanterna Verde o principal vai ser o Hal Jordan. Mas eu sempre gostei mais do Wally West como personagem, bem mais legal do que o Bart Allen como Flash, por exemplo, ainda que tenham teoricamente matado o Wally em Crise Infinita, mas depois trouxeram ele de volta com a mesma história de Flash que foi parar no futuro que usaram com o Barry, que é avô do Bart, e enquanto isso o Bart foi Flash mas aí mataram ele. Irônico, não?”
“…”
“O que?”
“Nada…eu apenas desisti de entender depois da parte em que você falou do Woody Allen…”
“Não é Woody Allen, mãe, é Barry Allen, o segundo Flash, que apareceu em Showcase Nº4 e acabou levando ao surgimento da era de prata dos quadrinhos, já que existia o Flash anterior, o Garrick, que lutou na segunda guerra mundial, mas que acabou sendo descartado, ainda que depois ele tenha sido recuperado seja com o pretexto de que vivia numa terra paralela ou que tinha ficado preso no tempo em uma Keystone onde ninguém envelhecia. Aí quando aconteceu a Crise nas Infinitas Terras eles unificaram todos os universos e os dois passaram a existir na mesma cronologia, mas então, como eu te disse, o Barry morreu e o Wally, que tinha sido o Kid Flash e participado dos Novos Titãs, se tornou o terceiro Flash, entende?”
“Titãs? A banda? O que isso tem a ver com o Batman?”
“…”
“Isso quer dizer que o DVD não é aquele, certo?”
“É, não é aquele não…”
“…”
“…”
“Eu deveria ter te deixado menos tempo dentro de casa quando você era garoto, sabia?”
“Menos tempo dentro de casa? Por que? Meu deus, bonequinhos da Liga da Justiça! Espera aí que eu tenho que ver isso!”
Say it loud and say it proud, geek – Feliz dia do orgulho nerd pra vocês, pessoal!
Atualizando: E claro, feliz Dia da Toalha pra todo mundo!
Atualização #2: Belo texto do André Luiz do Judão sobre o mito da deusa nerd. Totalmente Towel Day
Comentando os comentários #1: Thiago, hoje existem nerds fakes. Sério. Um cara uma vez me disse que estava comprando mangás pra impressionar uma garota. É um mundo estranho, meu velho. Érica, o quarto livro é a coisa mais romântica que eu já li/vi/ouvi na vida. Em termos de romantismo nerd, provavelmente. Zé, isso de nerd é…sei lá…coisa de nerd. Não se incomode com isso. Monique, te devo uma por conta desse link! (e o filme do “Guia” foi uma droga mesmo…)
Kafkaniana
Maio 22, 2009

Naquele dia, quando Adolfo acordou ele sentiu algo de diferente em seu corpo. As extremidades pareciam estar estranhas, as costas pareciam pesadas, e antes mesmo de abrir os olhos ele sabia que algo tinha acontecido. Estava deitado com a barriga para cima e parecia ser quase impossível o simples movimento de virar para o lado e se sentar na cama, como se seu eixo de equilíbrio tivesse se deslocado para algum lugar que ele ainda não havia conseguido encontrar. Abriu os olhos. Notou que o processo havia, de alguma forma, se tornado mais complexo do que o habitual. Sua visão havia mudado. Parecia que no lugar dos dois olhos míopes haviam surgido dezenas, centenas de pequenos olhos, pequenas janelas através das quais ele podia ver o teto branco do seu quarto com uma riqueza de detalhes que ele nunca havia notado, nem mesmo com seus óculos. Tentou coçar os olhos com as mãos, mas notou que no lugar delas existiam pequenas patas, sensíveis, marrons, que tremiam e se moviam rapidamente. Incrivelmente não entrou em pânico. Começou a pensar e notou que precisaria encontrar um jeito de sair da cama para ter certeza do que havia acontecido.
Como não conseguia se levantar ou se sentar, se preparou para lançar seu corpo para fora da cama. Moveu o corpo para os lados, ganhando impulso até finalmente rolar para fora da cama. Caído no chão, notou que não conseguia ficar de pé. Na verdade ele estava apoiado sobre os pés, sentia que aquela era a sua posição natural, mas sabia que não estava na vertical, ao menos diante do seu antigo conceito de vertical. A sua vertical agora era, de certa forma, horizontalizada. Ele estava andando deitado, por assim dizer. Tentou levantar seus pequenos olhos em direção ao espelho do armário para confirmar aquilo que lhe parecia óbvio.
Nunca porém, chegou a saber se havia mesmo se tornado algo além de humano, já que foi esmagado logo antes que seus minúsculos olhos conseguissem alcançar a direção do vidro do espelho. Sua esposa havia, por alguma razão, acordado transformada em um sapato gigante e ainda estava com raiva por causa da briga da noite passada.
Ô mulherzinha rancorosa…
Habemus Farrazine
Maio 20, 2009

Sim, sim, sim, esse amor é tão profundo, você é a minha prometida e eu vou gritar pra todo mundo, finalmente saiu a décima primeira edição do meu, do seu, do nosso, Farrazine. Dessa vez temos entrevista com Juan Gimenez, desenhista dos Metabarões (é, eu sei, sou sempre eu falando empolgadamente de pessoas que vocês não conhecem…), temos Lilian Mitsunaga (viu?é sempre assim…) e também EC Comics (melhor eu continuar linkando essas coisas, né?). De minha parte temos “Ilha de Lego”,devidamente diagramada pelo Rodrigo Andrade, e uma matéria sobre a Garota-Esquilo (não, não vou tentar explicar isso…). Baixem, leiam, se divirtam, indiquem aos amigos e apresentem aos seus pais.
E sim, esse post foi puro merchand e citação de música do Broz. Me perdoem…
Movie Review #6
Maio 18, 2009

X-Men Origens : Wolverine
Cotação: 4/8
Eu sou uma pessoa que se sente profundamente estimulada pela incapacidade alheia e profundamente intimidada pela genialidade dos outros. Por exemplo, quando eu estou escrevendo alguma coisa eu gosto de ler livros de autores ruins, porque me dão auto-estima e coragem para continuar escrevendo, enquanto livros realmente legais acabam me desanimando, porque eu fico pensando que nunca vou chegar naquele nível e desisto temporariamente de escrever. O mesmo vale pra filmes, músicas, tiras e tudo mais. E bem, tenho que admitir que depois de assistir “X-Men Origens: Wolverine”, eu passei a me sentir imensamente convicto de que posso ser um roteirista profissional e quem sabe um diretor em Hollywood.
Antes de tudo quero explicar que nunca gostei do Wolverine como personagem. Não que eu não goste do conceito, não ache que ele tem ótimas histórias, não compreenda o conflito, mas é um personagem com o qual eu simplesmente não consigo ter a ligação que eu tenho com o Homem-Aranha, os Lanternas Verdes, o Impossível ou até mesmo o Homem Formiga. Simplesmente não consigo ver a graça da coisa. Mas o mesmo acontece com personagens como Batman e Homem de Ferro, e mesmo assim eu achei os dois filmes do morcego e o filme do ferroso simplesmente sensacionais, acima de qualquer crítica, ou seja, eu fui assistir Wolverine com o coração aberto e a maior boa vontade possível, não só porque achei que a Fox poderia ter dado uma bola dentro como também achei que, oras, se tinha o Deadpool não poderia ser tão ruim assim. Mas foi.
Primeiro vamos ao roteiro, uma verdadeira salada mista de referências, cronologias e personagens. Não vou comentar o verdadeiro estupro aos cânones dos quadrinhos que foi a história concebida por David Benioff e Skip Woods, porque seria pura nerdice reclamar que Emma Frost nunca foi irmã da Raposa Prateada(que na verdade era uma nativa-americana), que não existe nada disso de Logan e Creed serem irmãos, que Chris Bradley nunca fez parte do núcleo original do Arma X ou que Deadpool tinha poderes de regeneração e habilidades como mercenário, mas NUNCA teve rajadas óticas, teletransporte, super-sopro, padrinhos mágicos ou coisas do tipo. Sério, resmungar sobre isso seria como reclamar da teia orgânica do Homem-Aranha, do Rei do Crime ser negro em Demolidor e de terem matado o Ciclope em X-Men 3. Por isso eu nem vou tocar nesses assuntos, prometo.
Mesmo levando em consideração que o público-alvo era não-nerd e aceitaria esse tipo de incorreção sem grandes problemas, o roteiro ainda é esburacado, algumas cenas não fazem muito sentido e certos personagens são trabalhados de forma apressada e tosca. Claro, dá pra aceitar que Creed não precise de grandes motivações para agir como um babaca, afinal, ele é um babaca, mas que história é aquela do Stryker de “ele vai me matar mas eu vou apagar a memória dele, hahaha!”? Que tipo de vingança vilanesca é essa? E que ilha secreta é aquela onde todo mundo chega, entra e sai na hora que quer? E como assim Gambit dá porrada no Wolverine? E como isso tudo se liga com os filmes dos X-Men? Afinal, Wolverine não lembra que é irmão do Dentes de Sabre, eu entendo isso, mas como o Creed não lembra que é irmão dele em X-Men I? E como ele passa de militar mau e malandrão para capanga bicho de pelúcia? Vão explicar isso em Wolverine II?
Claro, Hugh Jackman se sai malandramente bem no papel do carcaju, ainda que numa atuação mais canastra do que a da trilogia dos X-Men e Schreiber faz um Creed aceitável, ainda que mirrado demais pro padrão dos quadrinhos (nos quadrinhos Wolverine é baixinho e Creed é bem grande). Mas o resto do elenco é uma suruba caótica, com exceção de Ryan Reynolds que parece ter um certo futuro num filme solo do Deadpool (se ainda for possível fazer um filme solo do Deadpool depois dessa cagada de pato que foi feita com a origem do personagem). Sobre a participação do cara do Black Eyed Peas eu sinceramente prefiro não comentar e espero que não tenhamos Vanilla Ice em “Wolverine Origens: Magneto”…
Em resumo: Wolverine é um filme de ação pra se assistir não com o cérebro em ponto morto como Adrenalina ou X-Men, mas sim pra assistir com o cérebro em marcha-ré e possivelmente com o motor meio fundido. Num projeto que tinha enorme potencial, a necessidade de enfiar o máximo de personagens possível (ainda que de forma bizarra e desrespeitosa) e de buscar mais o apelo comercial do que contar uma boa história acabou levando a um resultado bem meia-boca que pode ter agradado a certas parcelas do grande público, mas deixa um fã de quadrinhos mais perdido do que o cara do chinelo no Pânico na TV (“Cadê o meu chinelo? Cadê o Deadpool? Cadê o meu chinelo?!”). Não vou comentar especificamente o trabalho do diretor porque ficou claro que ele dirigiu com o revólver da Fox na cabeça e não teve culpa no resultado final. Mais uma vez, assim como em Wanted, é melhor ler o material original e deixar o filme quem não gosta de quadrinhos.
Terapia em grupo
Maio 14, 2009

Bem, vamos começar. Meu nome é João e sou alcoólatra. Mas esse não é o tema desse texto. O tema hoje é o fato de que eu estou ansioso. Sim, é essa a razão dos posts um tanto quanto emos e do clima de pessimismo e desânimo aqui no blog. Quer dizer, pessimista e desanimado eu sou desde pequeno, mas isso de estar ansioso é novidade. E por que eu estou ansioso? Por causa do concurso da Petrobras.
Todo mundo sabe (afinal, eu não consigo parar de dizer e peço desculpas por isso…) que eu passei num dos últimos concursos da Petrobras, para uma vaga no setor de comunicação, para trabalhar como jornalista. E por que isso me deixaria ansioso? vocês se perguntam. Afinal, passou na prova, mandou bem, uhu, tudo tchuptchura, agora é só marcar o churrasco, tirar a carteira de motorista e começar a procurar mulheres interesseiras pra namorar. Mas bem, a coisa não tem sido assim. Afinal, o processo de “passar em concurso” consiste de três etapas bem distintas: fazer a prova, passar na prova e ser chamado para a vaga. A primeira parte foi ok, a segunda rolou, mas a terceira…essa anda meio empacada…E por isso eu estou ansioso…
Fiz a prova em meados de 2008, com a data de convocação informada pelo edital para o final do ano. Tudo muito bom, tudo muito bem. Passei, fiquei feliz como um teletubbie drogado ouvindo Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dentro de um imenso pote de gelatina de uva e deixei a vida seguir, com a certeza de que seria chamado até o fim de dezembro de 2008. Não fui, claro. Aí o prazo para contratação foi extendido até 30 de junho de 2009, mas todo mundo disse que em março, estourando em abril, todo mundo seria chamado. E bem, quase todo mundo foi chamado. Menos o meu cargo. E agora, quando a data final para contratação começa a se aproximar perigosamente, surgem vários boatos de que a Petro pode estar pensando em tomar atitudes não muito legais e simpaticonas como não contatar ninguém ou contratar apenas parte dos aprovados, ainda que dentro do número de vagas (eu fui o 8º e são 20 vagas, apenas para esclarecer). Daí surgem possibilidades nada interessantes como ter que entrar na justiça pela vaga, correndo o risco de gastar uma grana e ainda por cima perder, o que realmente não bate com meu ideal de diversão sadia…
Então vamos dimensionar o aspecto emocional da coisa, para que vocês entendam a minha preocupação. Primeiro, eu nunca mandei tão bem assim na vida. Sério. Não que eu não mande bem de vez em quando, mas quase todas as coisas que eu me orgulho de ter feito precisam de pelo menos 15 linhas de explicação para que sejam entendidas pelo resto da humanidade, o que vai contra a teoria do meu tio Jorge de que coisas realmente legais são contadas rapidamente (“inventei a fusão a frio”, “peguei a Rachel Bilson”, “ganhei na sena”), ou seja, nada tão evidentemente legal quanto isso. Perder isso seria um baque emocional nível “estava para ganhar uma maratona e um padre irlandês me agarrou e passou a mão na minha bunda”.
Segundo, eu realmente não sei se consigo fazer algo assim de novo. O período em que eu fiz a prova da Petrobras (assim como as provas da Caixa e do BB) foi um daqueles períodos de conjunção astral em que Vênus está na casa de Júpiter passando por Peixes pra deixar um recado e pegar um bolo enquanto Sagitário pode andar duas casas e jogar o dado de novo, ou seja, uma daquelas épocas em que tudo dá certo e mesmo quando alguma coisa parece dar errado é porque estava dando certo e você, besta, não notou. Os amigos pra quem eu expliquei tudo que aconteceu nos dois finais de semana que eu passei em São Paulo para fazer as provas sabem que, avaliando tudo que ocorreu de uma forma fria, ser o oitavo numa prova feita por mais de cinco mil pessoas foi até a parte menos improvável da história, já que tivemos desde o meu ex-sogro sendo simpático comigo até eu me guiando sozinho numa cidade desconhecida sem terminar perdido e pedindo orientações numa boca de fumo, passando por outros eventos que eu não posso relatar aqui no blog. Mas que não são nada normais na minha vida, saibam.
E toda essa expectativa, a ansiedade pra ver tudo dando certo, eu finalmente trabalhando na minha área e tendo grana para colocar uma máquina de pinball na minha sala antes dos 35 somada ao medo de tudo dar errado, a José Serra dar um golpe de estado, privatizar a Petro totalmente e o tigre da Esso rasgar o edital na minha frente enquanto canta “Loser” do Beck, tudo isso se uniu para me deixar num estado de instabilidade emocional, ansiedade e neurose pela qual eu acho que nunca passei antes. É como a espera por um resultado de teste de gravidez de caixinha em que o maldito trocinho demora quase um ano pra decidir de que cor vai ficar e você passa esse tempo todo pensando em como vai ficar o seu futuro, pra dar uma descrição mais exata.
Com isso tudo, somado ao meu isolamento atual aqui em Cataguases (essa sauna mista geográfica), vieram à tona todo e qualquer pequeno problema emocional que eu tenha, indo desde solidão, carência afetiva e vontade de comprar óculos escuros até saudades do meu peixe de estimação que morreu em 2007. Daí todo o teor de emice de vários posts anteriores (quase diários). Ainda que eu ache que eles até foram bonitinhos, vai…
Agradeço ao apoio de todo mundo, desde as mensagens estilo “man up, dude!”, até os elogios (Èrica, se eu for mesmo chamado e me mandarem pro Rio, fale bem de mim pras suas amigas e Larissa, juro que vou tentar pensar que garotinhas se impressionam com aliens de pelúcia) e prometo voltar ao caótico humor anárquico de macho com doses moderadas de fofura que sempre caracterizou esse blog em seus grandes momentos, ou seja, nada de emice. Torçam por mim. E dêem uma porrada preventiva no maldito felino da Esso se toparem com ele, aquele desgraçado.
O gap etário sentimental
Maio 12, 2009

Não sei se existe alguma tendência natural na biologia humana para procurar parceiros entre pessoas de faixa etária semelhante à sua. Eu realmente não sei se existe esse imperativo, ainda mais porque eu dormia em muitas aulas de biologia, mas eu me lembro que existia apenas algo sobre buscar pessoas em idade “reprodutiva” (o que nos dias de hoje não quer dizer muita coisa) e a explicação parava por aí. O resto eram feromônios, aparência de quem poderia produzir crias saudáveis e aparência de quem poderia pagar pensão para essas crias saudáveis alguns anos depois (e isso vale para ambos os sexos). Mas pra que esse preâmbulo todo? Bem, eu acho que, aos 24 anos, eu caí em alguma espécie de gap emotivo/reprodutivo, um vão na cadeia alimentar emocional. Me deixem explicar.
Eu tenho 24 anos. [insira sua piada infame aqui] Mas desconfio que em algum local entre o segundo grau, a faculdade e a porta giratória do banco onde eu trabalho, a atualização da minha auto-imagem ficou pra trás. Eu sinceramente não consigo aceitar que eu já tenho quase 25 anos, um trabalho estável, pago minhas contas e na terça, quando eu quase cortei meu dedo fora e ele sangrou pra caramba, a minha atitude de ligar chorando pra minha mãe foi ridícula. Eu simplesmente não consigo processar isso. Se eu tiver que me descrever ainda vou me imaginar no máximo com 20 anos, ainda usando bermuda e camisa de pijama pra ir até a faculdade, isso caso não me imagine com 16, ainda mentindo pra minha mãe sobre estudar matemática pra ir beber na esquina de casa (eu não era um adolescente muito preocupado com o futuro, nota-se…se fosse iria beber um pouco mais longe).
Isso, claro, influi diretamente na minha visão de pessoa atraente do sexo oposto. Interessantes são as garotas de 15 a 18 anos, estourando em 19, 20, óbvio. Mulheres acima dessa idade me deixam impressionantemente inseguro e preocupado. Até aí tudo bem, grande parte dos meus amigos da mesma idade está com garotas de 18, 17, 16, 15, 14, 13 anos. Eu apenas não vou citar os nomes deles, pra não ficar sem ter com quem conversar no msn e ter que levar cigarro pros outros na cadeia. E realmente ficaria tudo bem, não fosse a minha mais elevada expectativa em qualquer tipo de relação: uma boa conversa. Sim, eu priorizo uma boa conversa. Quer dizer, na verdade eu basicamente priorizo uma pessoa engraçada e que entenda as minhas piadas, o que basicamente consiste na minha idéia de conversa (uma troca de piadas entre pessoas civilizadas).
E não que garotas de 16 anos não possam ser engraçadas, divertidas e inteligentes. Elas podem, claro. Mas elas basicamente não falam sobre os mesmos assuntos que eu. Muitas deles não sabem quem eram os Changeman, nunca viram “O poderoso chefão”” ou um episódio de “TV Pirata” e não entenderiam uma referência a “Casablanca” nem se ela tocasse “As time goes by” no mp4 delas. E isso não só limita minhas chances de conseguir um diálogo interessante como até mesmo as minhas chances numa possível abordagem (se eu não conseguir impressionar a garota com o meu senso de humor e minhas referências de cultura pop eu vou impressionar com o que?meus sedutores olhos castanhos?minha pujante imitação dos marcianos de “Marte Ataca”?)
Eu deveria então tentar as mulheres da minha idade, certo? Bem, elas me acham infantil. Não que essa seja uma opinião geral defendida por todas elas (afinal, se fosse eu chamaria a minha mãe), mas eu percebo que elas me vêem como alguém nada confiável, imaturo e com sérios problemas para se comprometer. Não que isso não seja a mais absoluta verdade, mas como elas notam isso tão rápido? Está escrito na minha testa? É meu jeito de andar? De me vestir? È a lancheira do Hulk que eu levo pro trabalho?
O fato é que caí num gap de mercado. Tenho 24 anos [insira aqui as suas piadas infames ainda não usadas no segundo parágrafo] mas me interesso com mais freqüência por mulheres mais novas, com quem não consigo ter muito papo e cujas referências eu realmente não compreendo. E claro, eu conseguiria (com sorte e esforço) ter bem mais assunto com mulheres da mesma idade que eu, mas boa parte delas* espera de um relacionamento coisas como estabilidade, seriedade e um cara que não queira comprar um sabre de luz. Fica agora a dúvida sobre como resolver isso. Devo amadurecer? Devo começar a ouvir Demi Lovato? Devo mudar totalmente meu foco, começar a malhar e tentar me casar com a Suzana Vieira? (não resolveria a carência emocional, mas pagaria minhas contas e ainda me daria alguém com quem falar sobre Chaplin, cinema mudo, Oscarito, a crise de 29 e King Kong. A primeira versão) Ou devo apenas beber sempre que sair e tentar não perguntar a idade de ninguém? Seja qual for a faixa etária, acho que primeiro vou ter que resolver essas minhas questões quanto a comprar um sabre de luz. Isso está se tornando um assunto recorrente demais aqui no blog…
*Claro, existem mulheres da minha idade que “não estão querendo se amarrar e desejam uma relação liberal, sem neuroses e com tranqüilidade”.** Mas eu abri mão desse universo quando passei a trabalhar num banco e entrei na categoria dos “caras broxantes pra quem sua mãe vai tentar te empurrar quando você não tiver mais idade pra achar nada melhor”.
**Tirei essa parte do texto de um anúncio de solteiros que eu ouvi numa rádio AM aqui de Cataguases.
Mãe
Maio 10, 2009

“Mãe, eu estou indo pro futuro!”
“Tudo bem, Clark. Mas leva um casaco.”
Diálogo entre Superboy e sua mãe no desenho “Superboy e a Legião dos Super-Heróis”
Uma pequena homenagem para Dona Nina, essa mulher de 1,47 m que me ensinou que sim, um homem pode voar, se acreditar nele mesmo. Mas se esse homem esquecer de levar um casaco e voltar pra casa tossindo não vai ter força no mundo que o impeça de levar com uma batata, um manga, um abacate ou até algo mais pesado na cabeça. Feliz dia das mães, mãe, e obrigado por ser essa pessoa que lê mentes, pula do alto de casas, possui um aguçado fator de cura e é capaz de parar locomotivas apenas aporrinhando o maquinista. Só pára com essa coisa de rolar escadas que isso me dá um medo dos diabos, ok?
Pequenas histórias
Maio 7, 2009

Vingança
“Bem, eu tomei coragem e fui lá. Disse pra ela que eu estava apaixonado, que ela era a mulher da minha vida, que eu agora estava disposto a assumir responsabilidades, que tinha me tornado um cara mais confiável. E aí, pra completar, eu subi em cima de uma cadeira e gritei eu te amo o mais alto que eu consegui.”
“E aí? O que ela falou?”
“Bem, ela disse que se eu não queria comprar nada era pra sair da fila”
“Nossa, que mulher cruel…Mas e daí, o que você fez?”
“Ah, eu peguei duas balas de maçã verde e paguei com uma nota de 50. Ah, por que ta me olhando assim? Eu sei ser vingativo também, entende?”
Namoros longos
“Não, não, sério, não vai dar. Não tem como funcionar, entende? Eu…eu tenho toda essa bagagem emocional, todos esses problemas, toda essa história…Eu não sei se posso aceitar um compromisso assim, se posso garantir alguma coisa por todo esse tempo, entende? Pra sempre? Quanto dura pra sempre? Por quanto tempo eu posso garantir que vou manter isso que a gente combinar? Por quanto tempo eu posso fazer isso tudo funcionar, agüentar isso tudo? Sério, eu não posso, me desculpe…”
“Bem…errrrrrr..Isso quer dizer que o senhor vai pagar a vista então, certo?”
Fraqueza
“Os olhos dela brilhavam. Talvez por causa da situação, talvez por causa das gotas de água nas lentes dos óculos. Ela estava frágil, eu podia notar. Encolhida dentro do moletom amarelo, com a xícara de café entre as mãos, me olhando concentrada, tentando cobrir os pés com uma das minhas camisas antigas. Nunca pensei que ela pudesse ser tão linda e ao mesmo tempo tão…tão…não sei bem explicar. Ela parecia uma criança, sentada daquele jeito. Eu sabia que poderia nunca ter outra chance como aquela, encontrar ela tão vulnerável, tão acessível. Mas claro, eu também sabia que, se aproveitasse a chance, provavelmente iria me sentir culpado pra sempre. Ia me sentir como se tivesse abusado de um momento de fraqueza dela. Mas eu tinha que fazer aquilo, não iria nunca me perdoar se perdesse uma chance daquela. Então eu tive que tentar.”
“Mas então, Janaína…Você não estaria interessada em comprar uma Bellina 89? Gasolina, único dono, motor revisado faz pouco tempo…Não quer comprar não?”