Viagem na hiper-realidade cotidiana
Janeiro 29, 2009

Como eu li, aos 17 anos, naquele livro do Baudrillard dentro do qual o Neo esconde o disquinho no primeiro Matrix, um dos conceitos mais instigantes da semiótica (e da filosofia) pós-moderna é a hiper-realidade. E o que seria a hiper-realidade? Explicando a grosso, rústico e pedreiro modo, a hiper-realidade é a perda da capacidade, por parte da consciência, de distinguir a diferença entre a fantasia e a realidade devido à exposição a simulacros dessa realidade, versões alteradas, aperfeiçoadas e produzidas de uma realidade existente ou não. Ou seja, é quando de tanto conviver com uma versão alterada da realidade você acaba perdendo totalmente a noção do que é a realidade “real”, vivendo dentro dos conceitos apreendidos nessa realidade “aperfeiçoada”.
Eu, numa apropriação muito…humm…imprópria, das teorias do querido Bodinha (e também de outros caras divertidões, como o Umberto Eco) sempre me interessei pelos aspectos da hiper-realidade presentes nos diversos gêneros do cinema. Afinal, todo mundo fala que a pornografia é um simulacro aprimorado da vida sexual real e tem a capacidade de distorcer os conceitos que as pessoas têm sobre o sexo de verdade. Isso é óbvio. (Afinal, poucas pessoas no mundo têm uma vida sexual que consista na seqüência: 1-Chegar trazendo a pizza, 2-Ser apalpado, 3-Sexo oral, 4-Sexo vaginal, 5-Sexo anal, 6-Ejaculação no rosto, 7-Tchauzinho pra câmera).
Também é fácil citar a ficção científica como ambiente “gerador” de hiper-realidade, já que ela extrapola a realidade científica e o próprio progresso científico, dando uma falsa idéia de evolução linear rumo a um futuro de satisfação dos desejos e felicidade gerada pelo progresso técnico. Ou seja, ela te dá a impressão de que, pelo menos tecnicamente a sociedade evolui e essa evolução se encaminha para um ponto interessante, produtivo e divertido, onde iremos nos teleportar e todo mundo vai ter um amigo de camisa azul e orelhas pontudas que diz que nossas atitudes são “ilógicas”. (eu tenho um amigo que faz isso, mas ele é gordo e barbudo, nada de orelhas pontudas…frustante…)
Mas esse são alvos fáceis, coisa pra amadores, por isso que Albert Borgmann e Daniel Boorstin nunca são chamados pras nossas peladas de terça e nem pras nossas rodas de pôquer de quinta. O verdadeiro elo perdido do hiper-realismo no cinema é, como eu já disse em vários artigos anteriores, a comédia romântica. A comédia romântica, assim como a pornografia e a ficção científica, pega elementos do real (no caso da pornografia o sexo, no caso da FC a ciência e no caso da comédia romântica os relacionamentos, a convivência de casal, o flerte) e os extrapola e distorce para criar uma nova realidade simulada, que pra muitas pessoas acaba substituindo o universo real, já que seus conceitos se sobrepõem aos conceitos que a “realidade não simulada” gerariam.
Exemplos clássicos disso que podemos citar vão desde a forma como o flerte é representado na comédia romântica, sempre mais elaborado, inteligente e funcional do que realmente é (numa comédia romântica a aproximação do homem sempre ocorre com alguma frase bem-humorada, absurdamente espontânea, na qual 3 roteiristas passaram 2 meses pensando, enquanto no mundo real quase sempre a cantada é alguma forma nada criativa de começar um assunto que é apenas um preâmbulo obrigatório para que o contato físico ocorra. Isso caso não se trate de uma micareta. Numa micareta não existem preâmbulos, acho que nem se o Durval Lélis pedir pra todo mundo repetir a palavra); até o conceito de uma felicidade pessoal e de uma recompensa emocional que nenhum relacionamento real efetivamente oferece (afinal, todo mundo tem seus dias bons e ruins, e enquanto relacionamentos reais são feitos de conflitos e fases, relacionamentos de comédia romântica são feitos de busca de parceiro ideal seguido de… nada. A história sempre acaba aí, como se encontrar o parceiro certo encerrasse todo o processo de romance e construção de vida a dois).
E a difusão, através do cinema (e de outras mídias, já que os conceitos básicos da comédia romântica também se reproduzem em livros, séries e novelas) dessas idéias, que substituem as idéias que embasariam um relacionamento real, levam a expectativas e atitudes distorcidas no campo do “romance/flerte/relacionamento”, o que causa a ruína de boa parte dos relacionamentos inter-pessoais no mundo pós-moderno.
Em suma, resumindo a grossíssimo modo, sua avó e seu avô conseguiram passar 70 anos casados porque eles não esperavam grande coisa um do outro. No máximo refeições quentes e reprodução da espécie. Os namoros de hoje não duram seis meses porque se espera compreensão mútua e magia romântica freestyle sem fim, o que é bem mais complicado e irreal. Mais fácil acreditar no cara de azul com orelhas pontudas. “Você está agindo de forma ilógica, James”.
Nas próximas semanas: “Pornô: uma análise semiótica de roteiro”.
Bônus track: “How to Recognize a Porn Movie“, o artigo do Umberto Eco em que ele resume a identificação de um filme pornô na fórmula “…se para ir de A até B os personagens gastarem mais tempo do que você gostaria, então o filme que você está assistindo é pornográfico”.
Self-esteem/Farrazine #9
Janeiro 26, 2009

“Agora que você vai passar a ter dinheiro, vai virar um bom partido e as garotas vão começar a se interessar por você” - Mamãe
Sim, depois de ser a única pessoa na história da humanidade a ser chamado de feio pela própria avó, consegui que minha mãe dissesse, de forma nada velada, que a única razão pra que uma mulher se interessasse por mim seria dinheiro. Planejo encontrar com meu pai ainda essa semana pra ele me chame de burro e me coloque em contato com meus tios, que provavelmente dirão que eu jogo bola mal, escrevo como um símio drogado e tenho pés e mãos esquisitos. Estrutura familiar é isso, eu sempre digo. (E sim, eu fico chateado quando dizem que minhas mãos são esquisitas…Porque ok, elas são meio pequenas, mas é um pequeno simpático, não um pequeno “esquisito”…)
E falando em coisas que me deixam complexado, o Farrazine #9 saiu e está anotando coisas para trazer da padaria quando voltar. Dessa vez não vai ter nada meu (ahhhhhhhh…) mas isso não tira o brilhantismo ou a qualidade do material (ok, talvez tire, mas bem pouquinho…), ou seja baixem como sempre e vejam Blacksad, EuAnimeRPG, contos, bárbaros e outras barbaridades.
Apenas olhem com menos ansiedade para a janelinha do download pra que eu saiba que vocês me amam, sentem minha falta e não me trocaram por um cara mais bonito e mais jovem que tem um carro.
Download clicando na imagem abaixo.
Top 5
Janeiro 24, 2009

Coisas de namoro das quais você sente falta quando está solteiro:
Companhia em eventos: Te chamam pra uma festa chata, daquelas em que você só conhece um amigo, que vai com a namorada, mas é tão seu amigo que você precisa ir, para demonstrar consideração e retribuir aquela vez em que ele te buscou na delegacia quando você foi preso com dois quilos de orégano mas o delegado pensou que era maconha e não acreditou que seu pai é dono de pizarria. Nessa hora você realmente sente falta de ter uma namorada pra fazer companhia ao invés de conversar com os garçons.
Ouvido amigo: Todo mundo, por mais fechado, introvertido e caladão que seja, alguma hora sente vontade de falar, de se abrir, de contar pra alguém o que se passa em sua mente e seu coração. E claro, nessas horas nada melhor do que ter ao seu lado uma namorada, uma pessoa que, devido a várias convenções comportamentais da sociedade ocidental vai ter que fingir que está prestando atenção naquilo que você está falando e, se for realmente uma pessoa legal, vai até fingir que se importa. Afinal, se você está com uma mulher que realmente te ouve e se importa, saia logo da cama dos seus pais e pare de agarrar a sua mãe, seu depravado… *
Namorada como pretexto: Fora a mãe doente e o pai presidiário não existe desculpa ou pretexto melhor do que a namorada. Seu irmão quer que você busque ele na rodoviária? Não vai dar, você tem que sair com a sua namorada. Sua mãe te pediu pra ir ao mercado? Fora de cogitação, sua namorada já está te esperando na porta do cinema. Troca de corda de capoeira daquele seu primo meio esquisito e sua tia está te enchendo pra ir? Não dá, sua namorada tem formatura na turma de origami exatamente na mesma hora. Fora todos os compromissos/eventos/situações que você pode evitar alegando que sua namorada é ciumenta/friorenta/evangélica/dependente química em recuperação/bissexual/canhota/judia ortodoxa/palestina/emo ou coisa do tipo.
Felicidade monga: Existem certos estados de espírito que um ser humano não consegue alcançar sozinho, e entre eles está a “felicidade monga”. Esse estado zen-alfa-babaca de alegria e satisfação pessoal só surge em decorrência de a)uso de substâncias alucinógenas pesadas; e b)paixão correspondida colocada em prática. Nesse momento de felicidade monga as plantas parecem mais verdinhas (e mesmo quando estão amarelinhas são bonitas!), as piadas são mais engraçadas, as pessoas são mais divertidas, o mundo vira um clipe engraçadinho do Frejat com animação e as despesas ficam mais caras, mas você nem liga. Passear na beira do laguinho vira programaço, assistir dvd em casa se torna um projeto pelo qual você anseia durante toda a semana e um beijo se torna tão épico e emocionante quando o Michael Bay acha que os filmes dele deveriam ser. Claro, uma hora o barato passa e só sobra a abstinência, mas nada que uma palestra do Rafael Ilha não possa ajudar a resolver.
Sexo periódico: Eu definitivamente não preciso explicar esse tópico.
*Uma coisa que eu sempre gostei em termos de diálogo em relacionamentos é uma tendência que certas mulheres têm de falar, falar, falar e falar, com você ouvindo atentamente. Aí você começa a falar sobre algum assunto que você considera importante e ela, em 30 segundos, boceja, começa a ler alguma coisa, liga a TV. Aí você, é claro, pára. Então ela começa a falar, falar, falar, falar. Aí na primeira briga que vocês têm ela diz que você é fechado e não fala das coisas com ela.
Papai Noel, você rói unha?
Janeiro 21, 2009

E sim, com um atraso digno da minha reputação de pessoa atenta e focada no mundo ao meu redor, aqui estão os links para o download da edição de Natal do Farrazine, com direito a Star Wars (totalmente natalino), uma história inédita do Urubu (Batman, você perdeu, pede pra sair) e um dos meus melhores contos (em minha nada suspeita opinião), “Capa Dura”, com arte do Juliano Secolo, em cuja casa já mandei entregar ouro e incenso, porque afinal, como os caras do Monthy Python disseram em “A vida de Brian”, mirra não serve pra nada.
Também foi (re)inaugurado o blog do Farratown, que hospeda as tirinhas do Farra, incluindo o Capitão Confiança, que em breve terá novas tiras no traço sempre “fandárdigo” do Mainardi.
E, claro, mais um contribuição para um orkut mais…bonito…
Sometimes I just don’t get you…
Janeiro 17, 2009
1)
Saiu isso aqui no site da Folha:
“Site de relacionamentos só aceita pessoas atraentes”
Me deixa ver se eu entendi…É um site de encontros pela internet destinado a pessoas bonitas, sexys e inteligentes, certo? E elas vão mandar fotos pro site, pra serem julgadas por outras pessoas bonitas, sexys e inteligentes e, se consideradas bonitas, sexys e inteligentes o bastante, as pessoas vão começar a se pegar entre si, é isso? Ok, e depois quando eu entro num banco pedindo um empréstimo de 300 mil reais pra abrir minha fábrica de camas de casal beliche para casais praticantes de swing o gerente ri da minha cara…
2)
Você pode se achar maduro, pode achar que está aprendendo sobre a vida, saindo do casulo, conhecendo gente nova e fazendo coisas interessantes. Mas aí você descobre que existe algo chamado “donkey punch” e percebe que ainda é apenas um garotinho perdido em um mundo imenso e desconhecido…(E admito que saber que existe uma parte da Wikipedia apenas pra falar sobre esses assuntos também não me ajudou muito…)
3)
Minha contribuição semanal para um “Orkut mais bonito”.
Top Five – Como se orientar em Belo Horizonte
Janeiro 15, 2009

- Toda avenida se chama Afonso Pena até prova em contrário.
- Toda avenida que não se chamar Afonso Pena é a Avenida do Contorno.
- Toda avenida que não se chamar Afonso Pena e nem for a Avenida do Contorno vai te permitir ter contato visual ou com a Afonso Pena ou com a Avenida do Contorno.
- Se você está em alguma avenida que não se chama nem Afonso Pena e nem Contorno e não consegue enxergar nem a Afonso Pena e nem a Contorno, você está perdido. Muito perdido.
- Se você está em alguma avenida que não se chama nem Afonso Pena e nem Contorno e não consegue enxergar nem a Afonso Pena e nem a Contorno, e quando pede orientação ninguém sabe te informar onde elas ficam, você com certeza não está em Belo Horizonte. Procure a rodoviária, que fica perto da Afonso Pena, e volte pra casa.
Movie Review #5
Janeiro 11, 2009
Cotação: Inaplicável*

Como eu já contei aqui (ou aqui, ou aqui, ou até mesmo aqui, não me lembro bem) a primeira vez que eu vi um filme do Kevin Smith foi numa noite vazia, na Bandeirantes, e o filme era “O Balconista”. Desde então Kevin Smith virou pra mim uma referência em termos não só de cinema como de produção criativa como um todo, assim como um exemplo de ser humano e criatura viva num contexto mais amplo da criação cosmológica. Se pra mim o Weezer é a grande banda que os Beatles poderiam ter sido de Lennon andasse com as pessoas certas e eles deixassem o Ringo interferir mais nas músicas, Kevin Smith é o cineasta que Orson Welles poderia ter sido se lesse as histórias em quadrinhos certas e tivesse uns amigos menos sérios.
Apenas para ilustrar com um último exemplo o meu respeito pelo trabalho do pai da pequena Harley Queen, sempre que eu ouço alguém criticar Kevin Smith eu apenas pergunto pra pessoa a religião e o nome do pai, pra poder dizer que a fé dela e uma mentira e o pai dela é gay. Simples assim.
Por isso fazer uma resenha minha de um filme do Kevin Smith é algo tão suspeito quanto a resposta da pergunta “gosta mais da mamãe ou do papai?”. (Segundo relatos de minha tia eu teria respondido a essa pergunta, quando tinha cerca de 3 anos, dizendo que gostava mais do Batman. O que é uma resposta obviamente infantil e meio sem sentido. Afinal, o Homem-Aranha é bem mais legal…). Kevin Smith é, a meu ver, um dos maiores cineastas que a minha geração teve a chance de assistir. Seu humor é ágil e afiado sem ser elitista ou excessivamente intelectual, suas tramas envolvem sem ser simplistas, sua direção é segura e competente sem tentar extravagâncias, e suas escolhas de elenco são brilhantes, levando em conta que com ele até o Ben Affleck se torna um grande ator.
Sim, algumas pessoas podem dizer que ele é grosseiro, que ele abusa da escatologia (“xixi/cocô”), que ele é auto-referencial, que ele é cinema pra nerd ou até mesmo que ele é gordo. Mas fora a acusação de obesidade, nada disso é verdade. Smith é tão grosseiro quanto qualquer boa conversa de amigos, tão escatológico quanto as histórias que você conta quando está bebendo com seu irmão, tão auto-referencial quanto toda a cultura pop atual e tão nerd quanto…quanto…quanto algo bem nerd, mas engraçado…quanto aquele vídeo do Darth Vader sendo babaca e fechando a porta da salinha dele, por exemplo!
E mesmo que ele fosse isso tudo, ele compensa qualquer defeito com a identificação que as tramas dele oferecem pra uma grande parte de um público que nunca foi tão bem representado nos cinemas: os caras de vinte e tantos (ou trinta e poucos) e com problemas em relação as suas perspectivas de vida, seja no trabalho ou na vida pessoal, mas que não ligam muito pra isso e continuam bebendo suas cervejas e vivendo sua rotina. Smith mistura quadrinhos, cultura pop, cinema, literatura, música, amizade, superação pessoal, romantismo, piadas sobre fluidos corporais e declarações de amor feitas através da porta do banheiro com a simplicidade e a sinceridade de quem está fazendo um filme pra amigos ou contando uma história enquanto joga playstation contigo, não se levando à sério e não te pedindo pra levar nada daquilo á sério.
Ah, e falando sobre o filme: Zack (Seth Rogen) e Miri(Elizabeth Banks) são dois amigos de infância que, quando percebem que estão sem um centavo e sua luz e água foram cortados, decidem fazer um filme pornô pra conseguir dinheiro. Simples assim, mas escrito e dirigido por Kevin Smith.
Observações:
-Nunca pensei que eu fosse dizer isso sinceramente na minha vida, mas Brandon Routh ganhou o meu respeito pela sua participação especial no papel do amigo de infância gay da Miri. O diálogo entre ele e Justin Long é um dos melhores momentos bizarros do cinema em décadas.
-Eu realmente nunca imaginei quantos trocadilhos a língua inglesa proporcionava com a palavra “cock” até ver esse filme.
-A audição do título nacional (“Pagando bem que mal tem?”) levanta duas possibilidades sobre o conteúdo do filme: a)pornô-chanchada com o Costinha; b)pornô com ex-paquita, lançado pela SexxyStars. Obrigado pelo excelente trabalho, pessoal!
-Eu faço piadas sobre o Ben Affleck, mas é apenas por inveja. Ele é amigo do Kevin Smith e pai dos filhos da Jennifer Garner, isso basta pra mim.
Top Five – Soluções de final de temporada em Malhação
Janeiro 3, 2009

Final feliz “betoneira style”: O casal principal precisa ficar junto, por mais complicado que isso tenha se tornado durante a temporada. Eles brigaram? Vão fazer as pazes. Ele está preso? Vai ser inocentado. Ela engravidou outra? Ela vai perder o bebê. Ela morreu? Jim Caviezel fará uma participação especial no papel de Jesus e ela vai ressuscitar. Não importa o quanto a lógica tenha que ser atropelada, estuprada e queimada com cigarros, vamos ter um final feliz.
Viagens absurdas: No final de uma temporada boa parte dos personagens que não vão continuar na novela arrumam algum tipo de viagem não muito bem explicada para algum lugar distante. O amigo lerdo do mocinho vai jogar basquete na Lituânia, a colega de truco da vilã se muda com os tios pra Cuiabá e o nerd que era apaixonado pela professora de Química descobre que tem uma doença rara que só é tratada na Romênia. Mas além disso tem um ponto crucial das viagens que é o extenso planejamento: todo mundo viaja do nada, sem ter sequer mencionado isso na véspera e com casais adolescentes decidindo ir, por exemplo, morar em Reykjavik e saindo pra viajar apenas com as roupas do corpo, sem avisar ninguém em casa e começando a viagem de moto.
Casais improváveis: Um final de Malhação é como a frente de um baile funk num domingo de noite: você não pode passar sozinho. Por isso os roteiristas se esforçam pra juntar todo mundo em casais, sem se esquecer de nada nem ninguém, exceto talvez de boa parte dos eventos da temporada. O manquinho da turma do segundo ano que tocava baixo na banda da vilã vai ficar com a bibliotecária que é prima do professor de Artes Cênicas, o garçom da lanchonete do colégio vai ficar com a patricinha que era vizinha do amigo meio mongolóide do mocinho, a mãe da mocinha vai ficar com o tio meio bandido e ex-drogado do dono da loja de material esportivo onde todo mundo do colégio compra meiões (e dane-se se ele morreu no meio da temporada), e o irmão mais novo do cara que andava de skate com o colega de time de water pólo do mocinho vai ter que ficar mesmo é com o velhinho que vendia pipoca na frente do colégio porque todas as personagens femininas acabaram. Nos vemos com o juizado de menores depois.
Vestibular é isso aí: Todo mundo passa o ano inteiro estudando no cursinho e falando do vestibular, mas ninguém se inscreve e ninguém faz provas. Aí, quando chega o final da temporada todo mundo começa a se preocupar com o vestibular e decide fazer uma faculdade particular porque acha que não vai passar numa faculdade pública ou então conclui que precisa fazer mais um ano de cursinho. Isso os que não passam vários anos no terceiro ano e aí viram garçons. Mas sobre isso eu não faço piadas porque quase aconteceu comigo.
Engenharia financeira do absurdo: Ainda que os diretores do colégio/academia tenham mudado com o passar dos anos e que o proprietário seja o Pasqualete desde tempos imemoriais, sempre fica claro que o diretor financeiro só poder ser um homem: Kléber Leite. Todo ano existe uma quase falência, uma suspeita de que agora a coisa vai quebrar e vai ser impossível tirar o colégio do vermelho, mas, subitamente, aos 47 do segundo tempo, surge uma fonte alternativa de renda que pode garantir o aporte financeiro necessário pra que a escola continue funcionando. Mas funcionando apenas até metade da próxima temporada, quando a escola vai começar a passar por dificuldades financeiras e vai parecer que dessa vez a coisa vai quebrar mesmo…


