Movie Review #2
Julho 31, 2008

John Rambo (Rambo IV)
Cotação 6/8
Sim, temos mais um filme do Rambo. E para definir esse filme precisamos de apenas duas frases “O Ministério do Turismo de Myanmar não recomenda” e “Se sujar faz bem”.
Você não soube Myanmar
Mas vamos começar do começo. Como em todos os filmes da série, lá está nosso amigo John Rambo levando sua vida tranqüila, caçando cobras e dirigindo um barco velho por rios asiáticos repletos de piratas assassinos, num daqueles momentos de chill out que apenas Rambo sabe ter. Aí, é claro, surge alguém para estragar toda essa felicidade e alegria. Dessa vez são alguns malditos missionários cristãos americanos que, por viverem em um país onde não existe fome, preconceito ou sofrimento, decidem ir até Myanmar numa missão humanitária. Ou seja, gente sem mais o que fazer. Eles pedem a Rambo que os leve em seu possante barco velho até o pais em guerra para que possam ajudar a sofrida população oprimida de lá, mas Rambo se nega. Até que uma missionária loira, com a roupa colada no corpo por causa da chuva, pede exatamente a mesma coisa. E Rambo diz que tudo bem. Ah, então tá bom.
Nessa hora você deve estar se perguntando “mas por que raios Myanmar?!”. Bem, todo mundo sabe que os filmes do Rambo funcionam porque ele é colocado contra o mal absoluto, contra aqueles vilões que são tão ruins, mas tão ruins, que você consegue aceitar qualquer tipo de medida que o simpático John tome contra eles, desde estripar até degolar com uma espátula de patê. E bem, o exército de Myanmar, pelo menos segundo o filme, é um exemplo de maldade. Além de perseguir de forma sanguinária minorias étnicas pelo país todo, eles também matam crianças (todas), estupram mulheres (várias vezes por dia) e abusam de adolescentes (de ambos os sexos), além de ter como hobby forçar as pessoas a andar sobre minas terrestres. Ou seja, só gente legal, daqueles que você queria ter no seu prédio. E bem, você deve ter reparado que eu chamo o país de Myanmar, mas no filme todo mundo chama de Burma…Bem, isso é mais um exemplo de maldade: o governo de lá é tão ruim que mudou o nome do país assim, do nada, sem consultar a população! Ou seja, os caras são tão sem coração que mudam o nome do país e de várias cidades sem nem avisar! É como se você acordasse e descobrisse que agora mora na Zuzubalândia e não no Brasil…
Se sujar faz bem!
E onde tem problemas, temos Rambo! Liderando uma equipe de mercenários (também desocupados…) ele se embrenha pela selva para resgatar os missionários que, é claro, foram capturados pelo sacana exército burmanês. E aí a farra começa. Cabeças voando, joelhos explodindo, sangue jorrando como em um bom filme de guerra sem noção, e Rambo praticamente dizimando o exército de todo um país para salvar uma meia dúzia de desocupados. Stallone prova que definitivamente não está velho demais para o rock’n roll, com belas cenas bizarras de tiros estourando crânios, perfurando barrigas e claro, a cena clássica da metralhadora com munição infinita (terá ele usado algum macete de Duke Nuken? Cheater!) e um resgate final que traria um sorriso ao rosto de George W. Bush. Destaque para a cena da festa dos soldados, em que eles, bêbados, espancam e estupram varias garotas até que um deles (desocupado também, claro) tira uma bomba de fumaça vermelha do bolso e faz com que todos tenham que sair do local, porque não dá pra ver nada. Além de maus, são burros! Enquanto isso, o líder do pelotão deixa intocada a prisioneira loira e se tranca no quarto com um menino vietnamita…Ê pessoal ruim!
No geral, mantém o alto nível da franquia, com muito sangue, pouca lógica e nenhum respeito pelas convenções da ONU. Assista se você gosta de sangue e atores de boca torta.
The Drunk Work Experience #1: Gorgeous
Julho 28, 2008

Pronunciation: \ˈgȯr-jəs\
Function: adjective
Etymology: Middle English gorgeouse, from Middle French gorgias elegant, perhaps from gorgias wimple, from gorge throat
Date:15th century
Meaning: splendidly or showily brilliant or magnificent
Fonte: Dicionário Merriam-Webster
Não sei se vocês pensam assim também, mas existem palavras com mais significado do que outras, ou mesmo palavras que, ainda que tendo significado, não tem significado nenhum. Humm..Confuso…Explicando mais claramente, existem palavras com uma carga de significados maior, e outras que só passam a ter significado depois que você vê algo que te mostra o que “realmente aquela palavra quer dizer”. Alguns dos meus exemplos, para constar. Petardo, por exemplo. Eu sabia que petardo queria dizer uma bomba, um projétil lançado em alta velocidade, alguma coisa desse tipo. Mas só fui entender depois de, assistindo um jogo com meu pai, ver um lateral do Flamengo chutando com uma força imensa uma bola que explodiu no travessão, quase balançando o poste. Nesse dia eu “entendi” o que era um petardo, e nunca mais vou conseguir ouvir ou escrever a palavra sem pensar nessa cena.
E eu poderia das vários outros exemplos, não só em português mas também em inglês (“amazing” sempre vai me lembrar o Homem Aranha e a música do Aerosmith) e francês (dane-se se “fromage” quer dizer apenas queijo, pra mim qualquer palavra em francês me lembra minha ex-namorada…), as duas outras línguas em que eu sei falar alguma coisa…Mas hoje eu vou falar de “gorgeous” .
Recém-chegado na empresa onde fui contratado, primeiros dias, e eu, que já nasci deslocado, estava totalmente perdido. Olhando para os lados eu reparo em uma morena, cabelos pretos, uns olhos castanhos daqueles que você poderia olhar por meia hora sem se incomodar, parada perto de mim. Me sento perto dela e tento começar a trabalhar. Claro, não consigo, fico apenas reparando nela e tendo dúvidas idiotas sobre o trabalho, daquele tipo que faz a pessoa achar que ou você está de sacanagem ou é um total imbecil. Ela sendo simpática, atenciosa, até sorridente. E eu lá, sendo…idiota.
Quando finalmente eu consegui me acostumar a presença dela (eu tenho uma leve dificuldade para conviver com mulheres extremamente bonitas, que me faz gaguejar, transpirar, respirar de forma descompassada e contar piadas ruins.Na verdade…eu sou assim sempre…) eu comecei a tentar procurar uma palavra pra descrever o que eu achava dela.
Bonita? Bonito é um conceito meio infantil. “A casa é bonita”, “Ivo viu a uva bonita”, coisas do tipo. Gostosa? Bem, além de soar meio “pedreiro” demais, quase sempre o conceito de gostosa envolve um corpo bonito e um rosto que não é lá essas coisas. Linda? Clichê. Totalmente clichê. E então me surgiu “gorgeous”. Uma palavra mais “cheia”, que pra mim queria dizer tudo que ela tinha, desde o rosto lindo até o corpo sensacional e o perfume que me deixava levemente sem rumo e tentando digitar no mouse e mexer o teclado de lugar. Como em “Couldn’t you see she were gorgeous? She were just beyond belief!” da música do Arctic Monkeys, ou, na frase que eu pensei na hora “Ana is so fucking gorgeous”!”. (Sim, o nome dela era Ana…Também…)
Algumas semanas depois, sem que eu tivesse tentado nada com ela (e eu evidentemente não tentaria nem em mil anos, eu me conheço) ou mesmo tivéssemos desenvolvido algo além de um saudável hábito de dizer “oi” um pro outro todos os dias, ela saiu da empresa e bem, a gente não se topou mais. Minhas histórias tem finais assim, se acostumem.
Mas no meu dicionário pessoal, essa garota chamada Ana é a pessoa que dá sentido a palavra “gorgeous”. Não que isso valha muita coisa, afinal de contas.
No News, Good News
Julho 21, 2008

“Now we’re finally landing
Now we’re finally landing
Get your stuff together
‘Cause now we’re finally
Going to land”
Bem, como eu havia prometido, vou explicar quais foram as duas boas notícias que eu recebi e qual a importância das duas pra mim. Uma, que eu recebi já há mês pelo menos e não havia realmente contado pra muita gente é que um conto meu vai ser publicado pelo selo Mojo Books, uma editora virtual especializada em transformar discos em contos e lançar no formato de e-books. É um trabalho legal, que me foi indicado por um amigo, e me fez sentir vontade de mandar uma história, pra ver se eles topavam. Por mais “incresça que parível” eles toparam. Ainda não temos uma data de lançamento, mas temos um contrato assinado e registrado, ou seja, parece que vai. A não ser que não vá, é claro. Não vou dizer sobre qual banda ou CD é o conto, primeiro pra não ser zoado e segundo pra surpreender vocês. Mas como sou empolgado, estou preparando novos materiais, dessa vez sobre Autoramas e Weezer, pra mandar pros caras. Veremos no que dá.
(Na verdade o ponto mais legal disso tudo é que tive que inventar um nome profissional pra mim…Afinal, assinar com meu nome normal é barra…Virei então “João Luis Baldi Jr.”, num gesto singelo de carinho ao meu bisavô italiano, o único judeu nazista de que se tem notícia…Mas na minha família nós somos assim, fazer o que…)
A outra notícia é que, ao que parece, meus dias como atendente de telemarketing estão contados…No último concurso da Petrobras para “Profissional de Comunicação Junior com Habilitação em Jornalismo” (puuuta nome longo…) eu consegui ficar em 8º, dentro das 20 vagas disponíveis. Se der a lógica, é possível que eu seja chamado até o final do ano pra um emprego legal em alguma parte legal do país, fazendo coisas legais e tirando uma grana legal. Quer dizer, na verdade, com a sorte que eu tenho, a Petrobras vai ser comprada pelo Wal-Mart semana que vem, o concurso cancelado e o call center onde eu trabalho vai passar a ser gerenciado pelo Dogbert das tirinhas, mas eu não quero pensar nisso.
As outras “notícias-bônus” são a previsão de que “Manuela”, minha primeira história em quadrinhos, pode estar pronta até novembro, o “Impossível”, meu projeto de super-herói, está perto de achar desenhista e, se nada de terrível acontecer, meu primeiro livro de contos fica pronto até o final do ano. Em suma, as coisas estão bem e, se eu não fosse pessimista até dizer chega, iria dizer que elas tendem a melhorar. É, após 12 meses caóticos, acho que estamos finalmente pousando. Me desejem sorte.
Ps: Minha singela resposta a todas as pessoas que alguma vez já me disseram pra fazer cirurgia de correção de miopia. Porque eu gosto dos meus óculos, caramba!

Crônicas #1
Julho 18, 2008

Poucas coisas são mais difíceis do que contar uma boa notícia. Sério. Principalmente se for boa só pra você, ainda que não cause nada de ruim pros outros. Afinal, todo mundo está preparado pra te ouvir dizendo algo como “Cara, meu pai morreu!”, “Cara, peguei AIDS”, “Cara, roubaram meu carro” ou mesmo “Cara, roubaram meu carro e mataram meu pai com ele, e quando eu fui no hospital ver o corpo alguém me contaminou com o vírus da AIDS”. É simples, você faz uma cara compungida, pensa bem no problema que a pessoa teve e diz algo como “Porra, cara, que foda, hein? Vem cá, vou te pagar uma bebida e um AZT”. Simples, até mesmo pra um desconhecido. É significativamente fácil se comover com o sofrimento das pessoas que você não conhece ou conhece pouco e ter uma atitude simpática e acolhedora. Mas complicado é ouvir alguém falando sobre algo legal que aconteceu com ela.
Claro, se for um amigo ou uma pessoa de quem você gosta é fácil. Por exemplo, eu comemoro cada vitória de um amigo, familiar ou mesmo de um conhecido de quem eu gosto como se fosse algo meu também. Yuri ficou com uma mulher gata? Ueba! Meu irmão ganhou o campeonato da faculdade? Yeah, baby! Angélica e Thiago (duas das pessoas mais legais que eu conheço) acharam parceiros à altura? Pô, já mereciam faz tempo. Mas claro, nem sempre é assim. Exemplo clássico é quando chega aquela pessoa de quem você evidentemente não gosta e te conta que arrumou um emprego melhor que o seu e está pegando a morena do outro setor que você queria chamar pra sair. Você rosna baixo, sorri, diz parabéns e pensa “FDP maldito do inferno, tomara que um cachorro leproso te lamba a cara, babaca…”.
É inerentemente complicado para o ser humano ficar feliz com a felicidade dos outros. É sempre mais divertido ser solidário com o problema, com a desgraça, com a destruição total da vida do outro. Eu descobri isso esses dias, quando recebi uma torrente de boas notícias (na verdade foram duas, mas pros meus padrões dois é praticamente um zilhão. Afinal, como disse meu avô certa vez “os homens nessa família só dão uma boa notícia…quando o médico diz que nasceram com saúde…depois é só problema”) e vi que eu não sentia vontade de contar pras pessoas. Eu estava feliz, animado, mas me sentia absurdamente chato contando pras pessoas. Afinal, era uma boa notícia. Bem mais fácil e legal falar de problemas do que contar que algumas coisas legais estavam acontecendo, porque falar das coisas legais me dava vergonha. Eu quase dizia algo como “Bem, aconteceu isso, que foi bom…Mas tenho certeza que daqui a uns dias eu vou ser atropelado ou ter uma daquelas reações alérgicas que me fazem parecer um peixe! Legal, não?”
No final acabei contando apenas pras pessoas que perguntaram, ainda que eu planeje contar pra mais algumas pessoas selecionadas (basicamente “vocês”). Mas sério, dar boas notícias dá um baita peso na consciência. Ainda bem que em breve eu vou quebrar um braço ou coisa assim.
Movie Review #1
Julho 10, 2008


Big Nothing/Numb
Cotação 5/8
Eu gostaria de assumir abertamente, antes da resenha “combo” dos filmes “Numb” e “Big Nothing”, que sempre fui um fã declarado de “Friends” e especificamente admirador do trabalho do Matthew Perry. Na verdade, eu comecei a gostar mais dele depois de “Studio 60”, mas em “Friends” ele era bem legal. E nem falo isso pela minha identificação com o Chandler, mas sim porque eu realmente acho o cara um bom ator (dentro das limitações dele). Mas bem, vamos as razões pelas quais eu resolvi resenhar os dois filmes no mesmo texto: além da semelhança temática que em breve vai ficar clara pra vocês, existe o fato dos dois serem protagonizados por ex-Friends (Matthew Perry em Numb e David Schwimmer em Big Nothing), além de tratarem de pessoas com distúrbios mentais de algum tipo.
Em “Big Nothing” Schwimmer é um escritor frustrado que se vê obrigado a trabalhar numa empresa de telemarketing para sustentar a família (caaaara, isso me lembra alguém…) e lá conhece um outro atendente, vivido pelo sempre campeão Simon Pegg (de “Shaun of the Dead”). O personagem de Schwimmer é rapidamente demitido e então convencido pelo novo amigo a entrar em um golpe envolvendo chantagear pessoas da cidade usando os dados obtidos no sistema da sua ex-empresa, com a ajuda de uma ex-miss e ex-namorada do colega de golpe. Tudo daria muito certo não fosse: a)o personagem de Schwimmer ser casado com a xerife da cidade; b)nenhum dos parceiros dele ser o que parece; c)ele não ter a mínima aptidão para o crime.
A história se desenvolve com algumas reviravoltas bem pensadas, como o problema de memória do protagonista que o faz repetir estatísticas e dados numéricos para tentar manter um controle da memória e o agente do FBI que chega à cidade para ajudar nas buscas. Um filme barato, sem grandes refinamentos técnicos e com atuações honestas dos atores principais, mas que conta uma história interessante e consegue deslanchar uma trama “criminosa” envolvendo pessoas comuns sem soar idiota.
Já “Numb” tira o distúrbio psicológico do protagonista da área periférica da trama para jogá-lo no centro da história. Matthew Perry é Hudson Milbank, um roteirista que após fumar mais maconha do que deveria acaba sofrendo de um distúrbio de “despersonalização”, ou seja, tendo dificuldades não só para perceber a realidade como também para se vincular com ela. O filme mostra basicamente o seu esforço para voltar a perceber o mundo real da forma correta e tentar novamente se vincular com ele. Entre drogas, terapias, problemas familiares e relacionamentos não-profissionais com psiquiatras, o filme transita entre a comédia, o romance (Lynn Collins é, pelo menos pra mim, uma revelação como mocinha cabeçuda de comédia romântica) e o drama.
Ainda que em alguns momentos acabe se tornando meio piegas, como nos momentos familiares de Hudson (naquela velha tática de culpar a família por qualquer problema que qualquer pessoa tenha), o roteiro é muito bem escrito e os coadjuvantes dão o apoio necessário para uma atuação segura de Perry, que consegue carregar bem o peso do papel principal. Um bom filme, mas que definitivamente José Wilker não iria achar uma gracinha.
Trecho de Livro #1
Julho 5, 2008

Johnny Vai à Guerra
Dalton Trumbo
Segunda Edição (2003) – Editora Relume Dumará
Pàgina 224
“Se fizerem uma guerra se há armas a apontar se há balas a disparar se há homens para morrer não seremos nós. Não seremos nós os camaradas que fazem crescer o trigo e o transformam em alimento os camaradas que fazem as roupas e o papel e as casas e os tijolos os camaradas que constroem as represas e as casas de força e que estendem os fios de alta tensão e que gemem os camaradas que tomam o petróleo bruto e transformam em dúzias de coisas diferentes que fazem lâmpadas e máquinas de costura e pás e automóveis e aeroplanos e tanques e armas oh não não seremos nós a morrer. Serão vocês.
Será você – você que nos impulsiona aos campos de batalha você que nos incita contra nós próprios você que faz um sapateiro matar outro sapateiro você que faz um homem que trabalha matar outro homem que trabalha você que faz um ser humano que quer apenas viver matar outro ser humano que quer apenas viver. Lembrem-se disto. Lembrem-se bem disto vocês pessoas que planejam as guerras. Lembrem-se disto. Lembrem-se disto vocês seus patriotas enfurecidos seus germes de ódio seus inventores de lemas. Lembrem-se disto como jamais se lembraram de qualquer outra coisa na vida.
Somos homens de paz homens que trabalham e não queremos brigar. Mas se destruírem a nossa paz se nos tirarem o nosso trabalho se nos tentarem atiçar uns contra os outros nós saberemos o que fazer. Se nos disserem para salvar o mundo para a democracia nós os levaremos à sério e por deus e por Cristo assim o faremos. Usaremos as armas que colocam à força em nossas mãos e empregaremos para defender nossas próprias vidas e a ameaça às nossas vidas não está do outro lado de uma terra de ninguém que foi escolhida sem o nosso consentimento está dentro de nossas próprias fronteiras aqui e agora que a vimos já sabemos.
Ponham as armas em nossas mãos e as utilizaremos. Dêem-nos os lemas e os transformaremos em realidade. Cantem os hinos de batalha e nós seguiremos com eles quando vocês pararem. Não um não dez não um milhão mas todas as pessoas da terra teremos os lemas e teremos os hinos e teremos as armas e as usaremos e viveremos. Não se enganem a esse respeito nós viveremos. Estaremos vivos e caminharemos e falaremos e comeremos e cantaremos e riremos e sentiremos e amaremos e iremos gerar nossos filhos na tranqüilidade na segurança na decência e na paz. Planejem as guerras vocês os senhores dos homens planejem as guerras e apontem o caminho e nós apontaremos as armas.”
Dalton Trumbo – Escritor, roteirista, ator e diretor.
1905 – 1976
Book Review #1
Julho 2, 2008

Johnny Vai à Guerra
Dalton Trumbo
Publicado originalmente em 1939
Cotação: 6/8
A vantagem de se escrever um livro sobre os problemas da guerra é que dificilmente você vai ficar anacrônico ou datado. Afinal, junto com os polegares opositores, os iogurtes reguladores de intestino e o orgasmo simulado, o conflito armado sem razões lógicas é uma das coisas que diferencia a humanidade do resto dos habitantes do planeta. E “Johnny got his gun”, escrito pelo norte-americano Dalton Trumbo em 1938 e publicado em 3 de dezembro de 39 (dois dias depois da guerra realmente começar para os americanos) é, mais do que um livro sobre a guerra (ou como classifica a própria editora, sobre “pacifismo”) um livro sobre deixar que cada um de nós tome suas próprias decisões e defina o rumo de sua vida.
O livro conta a história de Joe Bonham, um jovem norte-americano do interior convocado para lutar na Primeiro Guerra Mundial e gravemente ferido em uma das ações de seu pelotão. Por gravemente ferido leia-se: totalmente amputado em relação a braços e pernas, sem audição, sem boca, sem rosto, sem olhos e tendo que ser alimentado por um tubo. É, esse não é um livro alegre, se você chegou a pensar nisso.
A história começa com Joe voltando a consciência em um hospital, sem lembranças nítidas do que aconteceu, se recordando de momentos desconexos da sua vida. O que seguimos deste momento em diante é o protagonista percebendo passo a passo todas as mutilações que sofreu, sentindo cada pedaço de si e de sua vida sendo perdido, assim como seus sonhos e projetos para o futuro, ao mesmo tempo que recorda de momentos importantes do seu passado.
Trumbo constrói (e reconstrói) esses momentos de perda da forma mais dolorosa possível, intercalando recordações doces como uma noite com a namorada, uma lembrança de felicidade num jantar de família, com a percepção da perda de uma perna e da impossibilidade de algum dia falar novamente. Vemos a luta de Joe para conseguir coisas simples como marcar o tempo ou tentar se comunicar com o mundo exterior, enquanto reflete sobre o próprio estado e tenta saber se está realmente consciente ou não (pense em como seria complicado apreender a realidade sem boa parte dos seus sentidos.)
O autor se concentra menos em descrever como a guerra é terrível e se foca mais nas perdas que ela causa. Isso fica claro pela quase ausência de “cenas de guerra” propriamente ditas, descrições de campo de batalha, missões e outros desses momentos comuns em livros sobre conflitos armados.E essa estratégia funciona, tanto que as reflexões de Joe, os resultados que a guerra causa nele, cada momento de perda e cada percepção de sofrimento e derrota, causa mais choque do que qualquer descrição de granadas explodindo ou tiros de metralhadora, porque afeta o leitor em qualquer situação. Você pode nunca ir a uma guerra, nunca nem passar perto de uma, mas ainda assim a idéia de uma mutilação ainda pode povoar seus pesadelos.
A mensagem principal, mais do que pacifista, se refere ao direito de cada um de definir seus objetivos, de decidir se e pelo que lutar. O problema talvez não seja a guerra, o conflito em si, mas o poder que permite a outros decidir quem luta pelo que, usando vidas como fantoches e mandando para o front pessoas que vão morrer por conceitos abstratos usados como bandeira para interesses políticos e financeiros. Ou seja, nada parecido com qualquer coisa que possamos ver hoje em termos de política internacional.
O livro segue, apesar de seus quase 70 anos de idade, como uma boa obra para qualquer um que deseja compreender os horrores da guerra e a crueldade de mandar jovens para o campo de batalha. Ou apenas deseja arrumar uma boa desculpa pra não se alistar. Excelente livro, ainda que pouco divulgado no Brasil (sua segunda edição nacional foi lançada em 2003), “Johnny vai à Guerra” é definitivamente um livro a ser lido. Mas não antes de embarcar naquela missão para a África, claro.
Em outras mídias:
- “Johnny vai à Guerra” já teve duas adaptações cinematográficas, uma em 1971, dirigida pelo próprio Trumbo e outra em 2008. Que evidentemente não foi dirigida pelo próprio autor. O protagonista dessa nova versão é Benjamin Mckenzie, o Ryan da finada série “O.C.”
- Em 1940 o livro foi adaptado pela rádio NBC com produção e direção de Arch Oboler. James Cagney fez a voz de Joe.
- O livro também foi adaptado para o teatro e vem sendo representado desde 1982, tendo Jeff Daniels como um dos atores que já interpretaram o papel principal.
- No clipe de “One” do Metallica, são usadas cenas da versão de 1971 do filme
Dãã…
Julho 1, 2008
Finalmente ficou claro porque os comentários não estavam aparecendo: eles precisavam ser liberados pelo moderador. Para minha surpresa, o moderador sou eu (eu achei que era alguém mais…não sei…moderado…) mas o problema já foi resolvido (eu acho).
Amanhã tem a primeira resenha do blog. Adiós!